FOGUEIRA – Apague essa “Tradição” do São João

  

 Para abordar este tema tão polêmico vou trazer um artigo de um colega ambientalista e que vale à pena conferir. Não costumo fazer isto, mas eu gostei muito do artigo e não vejo problemas em postá-lo aqui. Abre aspas…

Ao escrever este artigo, tive apenas o objetivo de tentar sensibilizar você leitor, ou leitora, a questionar, a meditar (ou ajudar a desqualificar) sobre o uso/costume/tradição de acender as fogueiras na época junina. Existem algumas justificativas: a religiosa, a celebração da fartura agrícola e a de usos, costumes e tradições. De repente veio a minha mente o ditado: “água mole em pedra dura, tanto bate até que fura”, pois sem querer ser o dono da verdade, estou apenas tentando, nestes vinte anos de trabalhos ambientais, sensibilizar, aos nossos irmãos e irmãs, de mais este grave problema ambiental.  

 A grande maioria da população, principalmente a nordestina, desconhece hoje as razões e/ou os motivos que os levam a acender fogueiras na época de São João. Alega-se que, para os católicos, a fogueira, que é o maior símbolo das comemorações juninas, tem sua origem em um trato feito pelas primas Isabel (mãe de São João Batista) e Maria (Nossa Senhora, mãe de Jesus Cristo), que estavam grávidas e moravam um pouco distante. O acordo seria que Isabel mandaria acender uma fogueira no alto do monte para avisar à Maria do nascimento de seu filho João Batista e com isto poder ter o auxílio pós-parto. Consta que Isabel cumpriu a promessa.

 Observa-se neste acordo, quando do nascimento de João Batista, a fogueira serviu como “meio de comunicação” entre as primas. Se fosse hoje, com o avanço da tecnologia de comunicação, Isabel daria um telefonema (até mesmo por celular), ou pediria que passassem um fax, ou um e-mail, ou pediria que fizesse uma página no Orkut sobre o acontecimento, ou mesmo passaria as imagens pelo MSN. Percebe-se que Isabel teria diversas opções de se comunicar com Maria sobre o nascimento de João Batista, relativando-se as suas condições de posse, é claro. Este é um dos fatores que justificam apagar as fogueiras na época das festividades juninas, hipótese deste artigo.

 Ao citar os fatos anteriores, desejo somente ajudar a desmistificar a “justificativa” de “homenagear” São João (Batista), pois o fato de usar o “meio de comunicação” utilizado por Isabel para transmitir o nascimento do rebento para Maria se traduz como um processo arcaico e ultrapassado, principalmente, com relação às questões ambientais: aquecimento global, devastação das florestas, crescimento demográfico da população, poluição dos rios, extinção de animais, doenças endêmicas, dentre outros.

 O impacto causado pelo uso indiscriminado da vegetação para fazer a fogueira de São João é extremamente preocupante, pois colabora, sobremaneira, para a devastação e, consequentemente, para a desertificação do Semi-Árido, sem mencionar o volume de lenha utilizado diariamente para alimentar os fornos das padarias, aquecer os fornos das olarias, as caldeiras das indústrias e de práticas errôneas de agricultura como a coivara (queima para plantio). O solo vai perdendo a cobertura fértil, e, aos poucos, torna-se estéril.

 A desertificação ocorre em mais de 100 países do mundo. Observe que contra-senso, no dia 17 de junho é comemorado o Dia Mundial de Combate à Desertificação e à Seca e não presenciamos a comunidade se mobilizar para plantar árvores no semi-árido, ou em qualquer outro lugar que seja, mas após apenas uma semana, no dia 24 de junho “homenageamos” São João com a queima de milhares de fogueiras, de diversos tamanhos, espalhadas pelo país, especialmente, no Nordeste praticamente em todas as cidades. E não é só isto, acende-se fogueiras também no dia de Santo Antônio (12 e 13 de junho), no dia de São José (18 e 19 março) e no dia de Sant`Ana (em julho).

 É um fato atual. A desertificação do Semi-Árido já atinge mais 40.000 km2 dos seus 980.711 km2. No geral, os processos de desertificação são muitos dinâmicos e geram maior impacto nas regiões semi-áridas e áridas, por natureza, mais frágeis e instáveis do que as regiões úmidas e temperadas. Um dado importante é que nas áreas desertificadas tornam-se impossível a recuperação das terras.

 Uma grande maioria de cientistas e estudiosos coincidem em enquadrar as regiões semi-áridas, as que têm menos de 650 mm de precipitação de chuvas anuais, e as regiões áridas, inferior a 500 mm. Nos dois casos, as precipitações se apresentam concentradas em uma estação do ano, com grande variedade e irregularidade, frequentes secas, estiagens, como também impactos como o fenômeno El Niño.

 Grande parte do semi-árido se encontra numa situação de marginalidade, inferioridade ou de dependência em relação ao centro de gravidade político-econômico, persiste com um sistema de baixo valor produtivo, com severos desequilíbrios regionais, atraso tecnológico, falta de planejamento familiar, dentre outros problemas e mazelas. A Paraíba tem 70% de seu território nessa região geográfica, abrangendo cariri, curimataú, sertão e agreste. Dos 223 municípios paraibanos, 162 encontram-se no semi-árido, segundo dados do BNB, apenas a faixa da zona litorânea fica de fora.

 As causas, portanto, desse processo de desertificação são os seguintes: o ser humano é o principal fator desencadeador dos processos de degradação e deterioração dos recursos renováveis, na ânsia de satisfazer crescentes necessidades (ou tradições como a fogueira!), e intensifica mais pressão sobre a natureza, muitas vezes com critérios equivocados ou tecnologias erradas, ignorando alterações ecológicas sérias, com implicações não somente no meio ambiente, como também no social, econômico e político.

 As principais causas de desertificação nas regiões semi-áridas, inclusive na Paraíba, que podemos mencionar, são: a retirada irracional da vegetação nativa, o sobrepastoreio, práticas equivocadas de irrigação, mineração e a utilização do fogo para desenvolver atividades agropecuárias. A medida que o processo de desertificação avança, a vegetação se deteriora, o pastoreio se degrada, aumenta a proporção de solos danificados, ocorre maior erosão, desequilibra a fauna e provoca o êxodo rural.

 Outro fator que justifica apagar as fogueiras de São João, é o impacto do crescimento demográfico da população na comemoração das festas juninas. Fazendo uma comparação em apenas cem anos. Segundo dados do censo do IBGE, no ano de 1900, Campina Grande tinha pouco mais de 20.000 habitantes, a Paraíba quase 500.000 habitantes, o Nordeste 6.749.507 habitantes, o Brasil 17.438.434 habitantes. Hoje, porém, no censo de 2000, Campina Grande tem 379.871 habitantes, a Paraíba tem 3.443.825 habitantes, o Nordeste 47.741.711 habitantes e o Brasil 169.799.170.

 Vamos supor que apenas 20% da população costume acender fogueiras juninas. Em 1900, em Campina Grande teria 4.000 fogueiras, na Paraíba 100.000 fogueiras e no Nordeste 1.349.901 fogueiras. Hoje, com dados do censo de 2000, em Campina Grande teria 7.974 fogueiras, na Paraíba 688.765 fogueiras e no Nordeste 9.548.342 fogueiras. Sem comentar que não existiu nestes cem anos qualquer projeto de reflorestamento da cobertura vegetal da caatinga, com espécies nativas ou exóticas.

 Outro fator que justifica apagar as fogueiras de São João, é o impacto na saúde da população com problemas respiratórios e queimaduras. Segundo dados do IBGE, no ano de 1999, o valor custeado das hospitalizações, paga pelo SUS com doenças do aparelho respiratório no Brasil foi de R$ 612.581.691,00. Só no Estado da Paraíba foi gasto R$ 15.590.573,00. Note-se que o valor ainda é maior, pois não entrou neste somatório os gastos dos planos privados e gastos particulares, nem problemas relacionados as queimaduras causadas pelas fogueiras.

 Agora cabe a você, minha irmã e meu irmão, perceber se vale a pena continuar com esta “tradição” de acender a fogueira para “homenagear” São João. Rezo para Deus, e nosso Senhor Jesus Cristo, tocar em seu coração, nos dos seus familiares e amigos, e faça mudar esta “tradição” que só empobrece a cobertura vegetal de nossa região, de nossa economia, impacta o meio ambiente e afeta a saúde de milhares de pessoas, colocando em cheque o futuro da região semi-árida nordestina.

  Ramiro Manoel Pinto Gomes Pereira*

  * Carinhosamente conhecido por RAMIRO PINTO, filho de Seu Gercino e Dona Joriéte, irmão de Fred Ozanan, Gercino Júnior, Jógerson e Jordânio, marido de Mary Roberta e pai de Matheus (coração) e Rafael (sangue), ambientalista, administrador, mestre em Engenharia de Produção, Professor da Facisa, Analista da Embrapa.  E UM GRANDE AMIGO.

                                     prof.ramiropinto@gmail.com     http://ramiropinto.spaces.live.com

Bibliografica consultada

 Francisco de Assis Souza Filho e Antônio Divino Moura (Orgs.). Memórias do Fórum Natureza e Sociedade nos Semi-Áridos. Fortaleza: Banco do Nordeste do Brasil; Fundação Cearense de Meteorologia e Recursos Hídricos, 2006.
 ftp://geoftp.ibge.gov.br/mapas/tematicos/recursos_hidricos/regionais/PB_hidrogeologia.pdf , acesso em 1º de maio de 2007.
 http://desertificacao.cnrh-srh.gov.br/noticia//not.php?id=39, acesso em 1º de maio de 2007.
 http://www.ambientebrasil.com.br, acesso em 1º de maio de 2007.
 http://www.arteducacao.pro.br/Cultura/junina.htm, acesso em 1º de maio de 2007.
 http://www.bnb.gov.br/content/aplicacao/Investir_no_Nordeste_eng/Mapa_do_Semi_Arido/gerados/pb_apresentacao.asp , acesso em 1º de maio de 2007.
 http://www.corujando.com.br/arquivo/saojoao.htm, acesso em 1º de maio de 2007.
 http://www.embrapa.gov.br/noticias/banco_de_noticias/1997/abril/bn.2004-11-25.8425384557/mostra_noticia , acesso em 1º de maio de 2007.
 http://www.ibge.gov.br, acesso em 1º de maio de 2007.
 http://www.sidra.ibge.gov.br/bda/popul/default.asp?t=3&z=t&o=21&u1=1&u2=1&u3=1&u4=1&u5=1&u6=1 , acesso em 1º de maio de 2007.
 http://www.vermelho.org.br/base.asp?texto=17449, acesso em 1º de maio de 2007.
 http://www2.uol.com.br/JC/_1999/especial/de1411a.htm, acesso em 1º de maio de 2007.
 Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Anuário Estatístico do Brasil. Rio de Janeiro: IBGE, 2002.
Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística/CNE. Anuário Estatístico do Brasil. Rio de Janeiro: IBGE, 1947. 

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