Mãos de Distonia

 

Edward_Scissorhands_Paint

desenhosdiversosdopaint.blogspot.com

Nestes últimos dias, a minha condição de saúde tem me feito lembrar-se do filme produzido por Tim Burton de 1990, chamado: “Edward Mãos de Tesoura “. Edward Scissorhands, representado por Johnny Depp é o protagonista do filme que apresenta uma excentricidade. Ele foi uma criação de um velho cientista  e como diz Rogério Marques “podemos entender as “mãos” de tesoura do personagem como uma grande metáfora para retratar um ser completamente inadaptado ao convívio social ou como uma forma lúdica de contar o drama de uma pessoa deformada.”

Assisti a este filme há muito tempo atrás, mas o primeiro recorte que minha mente faz relembrar o filme é  o fato do personagem ter mãos de tesoura.  Adicionado a esta lembrança, o contexto atual em que a evolução da distonia na minha vida tem se complicado consideravelmente  me  faz parecer em alguns momentos  que eu tenho tesouras no lugar das mãos.   As lâminas da tesoura – meus dedos rígidos – se comportam de forma desajeitada  com espasmos incontroláveis e contrações involuntárias topando nos objetos ao redor, derrubando-os e causando alguma situação inconveniente.  Além disso,  a sensação  de incômodo, desconforto e peso nas mãos é algo muito irritante parecendo realmente que existem ferros no lugar de meus músculos e minhas mãos humanas.

 Desta forma, a cada minuto, com minhas mãos de distonia me sinto como uma pessoa com mãos de tesoura.

O segundo recorte que gostaria de destacar é que o filme faz uma sátira às convenções sociais. A trama de “Edward Mãos de Tesoura”  me chama  atenção por que satiriza temas como o antigo costume que as pessoas têm de fazerem de tudo para mascarar seus defeitos, esquisitices e peculiaridades, e de tentarem fazer parecer que levam vidas perfeitas, que têm situação financeira estável e que são, em suma, exatamente iguais ou melhores que seus vizinhos.

Isso fica bem claro em algumas cenas do filme, em que se pode observar a maneira que todas as casas da vizinhança em que Edward passa a morar são exatamente iguais. No bairro, todas as casas têm a grama cortada do mesmo jeito, todos os seus moradores têm os mesmos horários e nada muito “fora da rotina” acontece por lá.

O filme ridiculariza a força que as pessoas fazem para serem aceitas pela sociedade, estarem dentro dos padrões de ‘normalidade’ preestabelecidos por ela, o quanto elas valorizam isso e criticam quem não o faz.

Portanto, às vezes, com minhas mãos de distonia me pego querendo provar que sou normal, que não tenho uma doença esquisita, que eu não sou “Eu Mãos de Distonia”.

Outro ponto que me chama atenção é que o filme retrata também, de forma um pouco exagerada,  o amor e o ódio que a sociedade sente,  por quem lança novas formas de comportar-se e por quem é diferente ou mesmo deficiente.  Qualquer um ou qualquer coisa que esteja fora do status quo ou do padrão estabelecido pela sociedade passa a ser rechaçado e excluído. E paralelo a este contexto,  me chama atenção, também, a timidez de Edward que é peculiar a qualquer pessoa que tem uma deficiência ou peculiaridade e que se distancia da inconveniente “normalidade”.

Assim como Edward, às vezes, com minhas mãos de distonia prefiro me isolar, pois me sinto inadaptado na civilização da escrita.  Os olhares diferentes incomodam, me fazem sentir-se tímido e deslocado…

6 pensamentos sobre “Mãos de Distonia

  1. Gostei muito do texto. Sinto que a minha mãe também se sente assim. Viver com Distonia é tão difícil. A da minha mãe é Distonia Oromandibular, afetando a fala e a mastigação. Se pudesse trocaria de lugar com ela. Infelizmente ainda não temos a cura, mas tenho fé que encontraremos melhorias. Você é guerreiro! Fique em paz! Deus é bom!

    Curtido por 1 pessoa

  2. Divanicio, your description is very good. All people with dystonia feel so alike (no matter, which dystonia form). But, nevertheless, we must think everybody positively and try to live with the discomfort.
    Forwards look, the life is so worth living, nevertheless.

    Curtido por 1 pessoa

  3. Gostei muito de seu relato, realidade em que vivemos ,infelizmente todos se incomodam com pessoas com deficiência seja qual for ,sinto muito isso no dia a dia por isso o lugar que adoro ficar é em casa fico só de pensar em sair me da uma angústia. Sei q muitos vão falar que estou me entregando mas a realidade é outra só quem tem a distonia sabe das limitações o que me da força e o centro espírita Perseverança que me da a paz espiritual e o entendimento para passar nesta vida ,somos guerreiros e rezo para todos nós vivermos o dia o dia melhor que Deus nos abençoe.co

    Curtido por 1 pessoa

  4. Nossa, esse texto reflete tao bem minha situacao, sempre tento “esconder” minha distonia, eh muito muito ruim ser tratada diferente por nao se encaixar nos padroes ditos normais.

    Curtido por 1 pessoa

  5. Olá, meu amigo! Que texto excepcional! Não existe definição perfeita como essa que você fez. Mãos de “tesoura”! Sim, eu me sinto exatamente assim, como se uma parte de mim não fosse mais humana. Confesso que essa condição me faz sentir muita raiva, raiva das minhas mãos de distonia e até mesmo raiva da sociedade. Perdi muita coisa depois que os sintomas começaram a se agravar como chances de trabalho, oportunidades de estudos e até meu casamento. Muitas vezes perdi também a minha dignidade, por vergonha de não se encaixar nos padrões estabelecidos. Com a perda do controle de minhas mãos, perdi muita e isso me faz sentir raiva, causando o isolamento. Mas por outro lado, eu aprendi bastante também, amadureci de uma forma que não sabia era possível. Hoje tenho 25 anos e convivo com a câimbra há 6 anos, esse tempo fez tornar-me uma pessoa melhor. Melhor para minha família, meus amigos e para mim mesma. Me fez ter mais paciência, a ser mais compassiva e, principalmente, me fez olhar o próximo de uma maneira diferente. Me fez respeitar ainda mais as diferenças, a entender que todos nós temos uma dificuldade nessa vida, uns mais que os outros, mas todos nós temos que aceitar o jeito de cada um, assim como espero que respeitem as minhas dificuldades. No momento não está sendo fácil para mim, acabei de separar, saí do emprego e mudei para outra cidade em que estou sozinha. Penso várias como seria minha vida se eu fosse “perfeita”, será que seria mais amada, mais aceita, porém nunca encontro a resposta. Mas isso realmente não importa, porque acima de tudo isso, temos a oportunidade de recomeçar e tentar e recomeçar e tentar. Não podemos esquecer que ainda somos nós aqui dentro. Mãos de “tesoura”! Elas são valiosas, do seu modo elas são valiosas e isso faz sentir-se única. Obrigada por compartilhar conosco seus pensamentos. Fica na paz.

    Curtir

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s