DEPOIS DA QUEDA, O COICE

Este é o título de uma música do álbum “Hey na na” (1998) da banda brasileira de rock Os Paralamas Do Sucesso que nos remete ao conhecido ditado português “além da queda, o coice”.  Esta expressão popular tem o significado de dois castigos ao mesmo tempo, quando ocorrem duas situações desagradáveis simultaneamente. Ela origina-se da situação em que o cavaleiro, além de ser derrubado da montaria ainda recebe desta um coice. E é muito comum na linguagem popular do nordeste brasileiro.

Este ano que está terminando me trouxe algumas coisas bacanas como boas amizades e conquistas importantes; ganho expressivo em conhecimento e experiência; amadurecimento pessoal e desenvolvimento da espiritualidade; e envolvimento nos serviços devocional e amoroso transcendentais. Assisti alguns filmes muito interessantes, li cerca de dez livros, escrevi alguns posts de blog, fiz três cursos de aprimoramento profissional, atuei veementemente na clínica psicológica e o mais significativo de tudo foi a publicação do ebookCâimbra do Escrivão: uma deficiência incomum” juntamente com Maristela Zamoner. Mas, apesar disso, eu diria que a frase que mais designa o ano de 2018 para mim foi exatamente esta: “Depois da queda, o coice”.

Isto porque tenho vivido e caminhado entre quedas e coices neste ano que termina agora. Neste sentido, ao mesmo tempo que atravessei o ano experimentando o amargor de pequenas injúrias e calúnias; atitudes maquiavélicas e inveja; alijamento social e assédio moral – às vezes, de forma grosseira e nítida e, às vezes, de forma subliminar e sorrateira –   enfrentei um revés financeiro penoso no trabalho e padeci, concomitantemente, de complicações árduas devido a minha doença neurológica. E como se não bastasse, fui vítima de um assalto a mão arma na sexta dia 30/11 onde levaram o carro da nossa família, celular e documentos pessoais. Contexto este que trouxe consequências severas, contratempos e complicações na minha vida. Eis, o coice! Eis, o selo do castigo!

Diante disto, paira no ar uma sútil atmosfera de estar bem rende ao precipício, usando as palavras de  Herbert Viana nesta sua belíssima canção. Sinto que a dor virou meu vício diante de tanta aflição e de tanto açoite. Tenho me perguntado: será que são provações, expiações ou meros pesadelos…  Diante de tanto martírio e tanta fragilidade, eu não compreendo, não acho relevante e não importa a explicação… Só sei que, infelizmente, eu não sou o único privilegiado destas situações inconvenientes e perniciosas neste mundo material.  Este é o cotidiano de toda as pessoas que a todo instante estar susceptível a ser vítima de todo tipo de violência e sofrimento no seu dia a dia como o roubo, a cobiça, a falsidade, a descortesia, a traição, a trapaça, o infortúnio, a desavença, a vaidade e uma infinidade de princípios irreligiosos ou não bramânicos como afirma o Srimad-Bhagavatam.

Neste aspecto, é preciso entender que todos os movimentos de nossa vida nada mais são do que um espelho do nosso passado, de acordo com os grandes eruditos do yoga. Através do karma, a dinâmica lei da ação e reação, o cosmos exerce sobre nós sua profunda pedagogia, permitindo que possamos nos deparar com os nossos velhos enganos e corrigi-los. Desta forma, por trás de todo incidente negativo, de toda situação desagradável e lamentável, existe uma valiosa lição, esperando para ser descoberta e aprendida. Portanto para a tradição espiritual do yoga todos aqueles que de alguma forma nos prejudicam, traem nossa confiança e nos decepcionam são apenas agentes do nosso próprio karma. Um verdadeiro yogi sabe que todos os adversários externos são apenas projeções de suas próprias falhas internas e que seu maior esforço deve residir em combater sua própria ignorância, vícios e falta de misericórdia. Nós atraímos energias por magnetismo que sintonizam com energias profundas do nosso psiquismo ou do nosso passado imortal para que sejamos curados das nossas máculas. Eis o que se intitula de resgate de dívidas de uma entidade comprometida!

Sempre que está aflito ou passa dificuldades, o devoto sabe que o Senhor está tendo misericórdia dele. Ele pensa: “ por causa das minhas más ações passadas, eu deveria sofrer muitíssimo mais do que estou sofrendo agora. Portanto, é pela misericórdia do Senhor Supremo que não estou recebendo todo castigo que mereço. Pela graça da Suprema Personalidade de Deus minha punição é pequena”.
Por isso, ele é sempre calmo, quieto e paciente, apesar de muitas condições aflitivas. (…) Srila Prabhupada, no significado de O Bhagavad Gita 12: 13-14.

Aqui está o ponto chave e o outro lado da moeda. Exercitar a misericórdia e compaixão por estas pessoas que estão cheias de maldades através de suas atitudes para conosco nada mais é do que ter uma atitude nobre e transcendental em relação a elas que, devido a suas ações condicionadas e contaminadas pela energia nociva e perniciosa, estão cada vez mais aumentando seu enredamento  no cativeiro da plataforma material: um enredamento pecaminoso e kármico  horripilante. E mais ainda, de acordo com o Evangelho Segundo o Espiritismo, nas instruções do Capítulo VII, devemos ser indulgentes para com as injustiças e faltas dos homens, devemos suportar com coragem as humilhações e calúnias das pessoas, pois desta forma seremos humildes e agiremos com benevolência.

“Nunca enganes a ninguém. A vida é grande cobradora e exímia retribuidora. O que faças aos outros, sempre retornará a ti.” Divaldo Franco pelo Espírito Joanna de Ângeles.

Mas, como estou no mundo material num processo de busca para alcançar a plataforma espiritual da autorrealização, confesso que tenho sorrido a contragosto, pois o meu sentimento é de desalento… A história tem se repetido, onde vivencio falta amor e de bondade, de forma persistente, na civilização pós-moderna. A crueldade humana, o ódio, os interesses egoístas, a soberba, a falsidade, a falta de respeito, a dissimulação e a vida de aparências, como em épocas remotas, imperam a minha volta. Cenário denso que tem me assustado… Ainda estou aprendendo sobre a melhor maneira de como lidar com tudo isso.  Nas marcas do meu rosto e do meu corpo estão o cansaço, o desânimo e a desilusão depois de tanto lutar e só levar topadas e coices. As minhas mãos tremem, não só por causa da doença, mas devido a constatação de tanto desamor e indiferença; de tanta miséria existencial maquiada por diversas formas. Mas, apesar de tudo, estou vivendo e procurando encontrar forças para se erguer e seguir em frente. Afinal, depois da noite de tanto dissabores, aborrecimentos e desgostos sempre vem a expectativa refletida na luz de um outro dia. Nas voltas da vida, percebo que as relações humanas nos espaços sociais são um imenso laboratório espiritual e psíquico que nos permite desenvolver-se e aperfeiçoar-se quando nos permitimos e nos esforçamos para tal.

Até cortar nossos próprios defeitos pode ser perigoso. Nunca se sabe qual é o defeito que sustenta nosso edifício inteiro.    Clarice Lispector

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