Gerenciando os sentimentos associados à distonia

Atualmente, a distonia continua sendo uma condição difícil de tratar. Antes de tudo, chegar a um diagnóstico deste transtorno neurológico é um desafio para todos. Haverá inevitavelmente um processo de ajustamento que para muitos será angustiante. Muitos pacientes de distonia têm que continuar seus trabalhos e responsabilidades diárias e, ao mesmo tempo, tentar lidar com sua condição.  Nesta condição de saúde, as técnicas de dessensibilização sistemática pode ser uma alternativa para ajudar o paciente de distonia a enfrentar os estressores, sentimentos negativos e lidar com a doença em situações cotidianas. Pois, é importante estar ciente de que, embora as condições de saúde mental normalmente não causem distonia, pode haver uma relação importante em alguns casos entre distonia e condições de saúde mental, como estresse, depressão, ansiedade e sintomas do espectro obsessivo-compulsivo.

A dessensibilização sistemática é uma técnica de ajuda que consiste na evocação ou na repetição da vivência real de situações que consideramos ameaçadoras. De forma simultânea, é realizada uma terapia de relaxamento profundo para reduzir os estados de desconforto. Nessa técnica o paciente é treinado a desenvolver a serenidade, é colocado em contato com uma hierarquia de situações geradoras de ansiedade e é solicitado a relaxar enquanto imagina cada uma delas, assim o paciente atinge um estado de completo relaxamento, quando é exposto ao estímulo que provoca a resposta de ansiedade, como por exemplo ter que assinar o nome, mesmo com a limitação física provocado pela distonia da mão ou membro superior.

Por que a Dessensibilização Sistemática é útil para a Síndrome da Câimbra do Escritor?

A distonia é considerada um distúrbio neuromuscular e não psicológico. No entanto, viver com um distúrbio físico crônico, especialmente  como a distonia, que pode fazer você parecer diferente, pode às vezes dar origem a sentimentos de apreensão, ansiedade, medo, desesperança e desamparo. Além disso, como você provavelmente sabe, por experiência própria, a gravidade de sua distonia é frequentemente afetada por fatores psicológicos. Pense nas ocasiões em que esteve estressado e lembre como sua distonia parecia piorar. Quando você soube da natureza de seu transtorno através do diagnóstico, foi natural ter passado por fases como Estado de  Choque, Raiva (por que eu?), Desespero e Depressão. Mas, então a aceitação da doença deve seguir e ultrapassar estes estágios. A evolução através destes estágios pode levar algum tempo, mas você deve trabalhar positivamente em direção ao estágio de aceitar seu transtorno e ver como você pode contorná-lo em sua vida cotidiana. A Dessensibilização Sistemática, então, visa ajudá-lo a aceitar sua distonia e aprender a lidar com as situações difíceis de sua vida cotidiana, quando a distonia parece piorar ou quando você é confrontado com a dificuldade de escrever.

O processo de dessensibilização sistemática está orientado para enfrentar uma situação estressante de forma consciente, revivendo e expressando passo a passo o que você pensa e sente quando é exposto a aquilo que o estressa. O relaxamento vai produzir um efeito tranquilizante e o tempo vai fornecer ferramentas para que você possa adquirir um novo aprendizado, o que reduzirá o estado de angústia e estresse quando diante da limitação ou da impossibilidade de escrever quando a situação exige.

Esta técnica da Psicoterapia Behaviorista procura reforçar um comportamento aprendido de auto domínio, através da repetição, no ritmo que você considerar adequado e respeitando as suas emoções. Trata-se de desaprender as respostas negativas diante de uma situação estressante e de transformar a experiência. Para conseguir isto, é promovido um desenvolvimento de habilidades e recursos para controlar conscientemente as situações que acabam por ser angustiantes, como o ato de escrever. Neste caso, a memória cumpre o papel de recordar o novo aprendizado quando for necessário. Neste sentido, outra técnica similar é o Mindfulness que é um dos princípios da Yoga, do Tai-Chi-Chuan e práticas Taoístas; e por último, existe uma técnica baseada nos princípios da dessensibilização sistemática que se chama de Inoculação do Estresse que é um procedimento cognitivo-comportamental desenvolvido pelo psicólogo canadense Donald Meichenbaum.

O que a Dessensibilização Sistemática envolve?

Geralmente, um paciente com Câimbra do Escritor ou qualquer tipo de distonia pensa assim:
“Eles vão pensar que eu pareço bizarro”.
•”Minha vida está arruinada.”
•”O que eu fiz para merecer isso?”
• “Eu não posso mais tolerar essa dor”.
• “Meu futuro é impossível”.

Na verdade, o que uma pessoa pensa ou diz para si mesmo tem um efeito importante sobre como se sente e se comporta. As frases citadas acima são algumas das declarações autodestrutivas que você pode estar dizendo a si mesmo, sem estar ciente disso, o que interfere em seu funcionamento nas situações cotidianas, enquanto paciente da Câimbra do Escritor ou de outra distonia. Aprender a superar esses pensamentos negativos será um dos objetivos da técnica de dessensibilização. A maioria das pessoas tem que enfrentar e lidar com situações difíceis e estressantes no curso de suas vidas. O enfrentamento bem-sucedido de situações estressantes ou ansiolíticas envolve várias etapas. Qualquer que seja a situação de produção de estresse (por exemplo, escrever em público, assinar seu nome, folhear um livro, cortar as unhas, contar cédulas), você pode se ajudar em cada um desses estágios usando as técnicas deste processo terapêutico.

Uma forma simples da técnica que você pode aprender para ajudá-lo a lidar com situações estressantes da distonia focal do membro superior é a identificação dos seguintes passos:

Identificar suas autodeclarações ou pensamentos negativos e substituí-los por outros  positivos que o prepararão para enfrentar o desafio da situação estressante.

Identificar os primeiros sinais físicos de apreensão, ansiedade e medo, que podem consistir em aumento da tensão em seus músculos, batimentos cardíacos, falta de ar, rubor, ‘frio no estômago’. Então, assim que você detectar esses sintomas físicos, procurar e buscar relaxamento físico usando o método da respiração diafragmática.

• Aprender a substituir o pensamento contínuo sobre eventos passados ​​e preocupar-se com o que pode acontecer no futuro, relaxando mentalmente através do uso de imagens agradáveis.

Durante os três estágios de lidar com uma situação estressante descrita acima, você deve aprender a perceber quaisquer pensamentos autodestrutivos que entrem em sua mente e os sinais físicos de apreensão ou ansiedade que a acompanham. Você deve usá-los como um lembrete ou “campainha” para usar uma conversa interna positiva, fazer respiração diafragmática e pensar em imagens agradáveis ​​para ajudá-lo a lidar com a situação estressante. Em suma, fazer uma lista hierárquica de pensamentos ansiosos, identificar qual parte do corpo fica tensa e aplicar relaxamento muscular relacionando os pensamentos estímulos de ansiedade e estimular uma reestruturação cognitiva.

Eis a técnica em si!

O efeito de pensamentos autodestrutivos e autoafirmações negativas sobre como você pode avaliar situações estressantes e como isso afeta a gravidade de sua distonia, sua atitude em relação a seu transtorno e como você se sente e age pode ser mostrado através dos seguintes passos:

• Ativação ou criação de um evento ou situação estressante. Nesta primeira fase, cria-se um situação e desenvolve-se habilidades de confronto com o objetivo de ajudar o paciente a entender  o problema e seus efeitos nas emoções e comportamento. Um exemplo pode ser escrever na frente de estranhos.

• Crenças não assertivas significa a cadeia de pensamentos e autoafirmações que passam pela sua mente em reação a situação estressante. Um exemplo disso pode ser o pensamento “Ele vai pensar que pareço estranho”.

• Consequências que significa as emoções e comportamentos que resultam da minha crença ou pensamentos.

Pensamentos negativos e autoafirmações podem se tornar tão automáticos e habituais que você nem os percebe e muito menos os seus efeitos em sua distonia e como você geralmente se sente e se comporta. Então o primeiro grande passo é se tornar consciente deles. Você pode fazer isso ouvindo-se com uma espécie de “terceiro ouvido”. Ao pegar-se pensando negativamente e, assim que puder, escreva esses pensamentos em uma folha de papel para que você não os esqueça. Esse ato de auto monitoramento, ou de escrever seus pensamentos negativos em um bloquinho de papel, o treinará para se tornar um bom ouvinte para o seu “diálogo interno”; é o que você pensa e diz para si mesmo. As autoafirmações ou pensamentos negativos podem estar relacionados a diferentes aspectos de você como pessoa, seu futuro, reações de outros à sua distonia.

Agora trago alguns pensamentos gerais não assertivos relacionados a sentimentos para exemplificar o primeiro processo que é Ativação ou confrontação de um evento ou situação estressante.

  1. Raiva – Pensamentos de ser vítima e  punição como:  “Por que eu?”, “O que eu fiz para merecer isso?”
  2. Ansiedade Social – Pensamentos sobre o que os outros pensam de você como: “Eles pensam que sou estranho”, “Eu vou perder o controle e me fazer de bobo”
  3. Auto-estima – Pensamentos sobre você enquanto pessoa como: “Eu sou bom para nada”; “Eu não posso fazer as coisas mais simples para mim mesmo”
  4. Desamparo –  Pensamentos de ser incapaz de lidar como: “Eu não posso mais tolerar essa dor”, “O que acontecerá comigo se não houver ninguém para cuidar de mim?”
  5. Desesperança – Pensamentos sobre o futuro como: “Eu não tenho futuro com essa desordem”, “Minha vida está arruinada”.

O segundo passo, depois de ter identificado e escrito suas autoafirmações negativas, é examiná-las de perto e logicamente revisar, aprender e treinar estratégias de confronto. Essas estratégias vão  permitir ao paciente abordar as situações geradoras de estresse que foram detectadas na primeira fase. Você provavelmente descobrirá que a maioria dos pensamentos negativos ou autoafirmações são baseadas em suposições erradas e raciocínio “preto e branco”. Por exemplo, a  autoafirmação “Ele vai pensar que pareço estranho” é baseada em uma série de suposições erradas. Estas suposições erradas estão baseadas nas seguintes questões: 1) Você pode prever o que as outras pessoas pensam? 2) Outras pessoas irão julgá-lo apenas com base em como você escreve? 3) O seu valor como pessoa é determinado pela forma que outra pessoa pensa sobre você? 4) Você deve ser aceito e amado por todos que conhece?

O terceiro passo importante, depois de ter examinado de perto seus pensamentos negativos e descoberto que eles se baseiam em suposições erradas, é substituí-los por afirmações positivas alternativas ou pensamentos assertivos e construtivos que você poderia usar para ajudá-lo a lidar com situações estressantes. Pense em autoafirmações positivas e assertivas que sejam apropriadas à situação e que sejam significativas e convincentes para você. Repita as autoafirmações positivas para si mesmo com força e convicção, e com o tempo elas irão deslocar seus pensamentos negativos. Por exemplo, o pensamento negativo “Ele vai pensar que pareço estranho” quando encontro um estranho pode ser substituído pela autoafirmação positiva “Vou explicar o que o meu problema de distonia é para ele.” De forma semelhante, você pode exercitar ‘falar para você mesmo’ quando estiver diante de uma situação estressante, usando uma conversa assertisa apropriada. O objetivo desta etapa é, então, colocar em prática as estratégias aprendidas em situações reais, comprovar a utilidade das habilidades adquiridas e corrigir os problemas que vão surgindo durante o processo de exposição ao problema que no nosso caso é o ato de escrever com limitação corporal.

Na verdade, o paciente com Síndrome da Câimbra do Escritor não deve escrever,  pois o ato de escrever é um desrespeito a sua limitação e deficiência, é uma violação de direitos e, na verdade, é um insulto a sua pessoa. É a mesma coisa que pedir para um cadeirante dar uma carreira de qualquer distância entre dois pontos. Mas, nas situações em que o paciente precisa escrever onde precipitam estresse com sentimentos e pensamentos negativos latentes e em situações de comprometimento da saúde mental típicos desta doença/deficiência é necessário a prática de técnicas como a Dessensibilização Sistemática e práticas Taoístas, da Yoga e da medicina chinesa como a acupuntura. Neste aspecto, estas técnicas apenas alivia o sofrimento emocional como os medos e a ansiedade oriundos da exposição ao ato de escrever, o medo do lápis e da caneta; e busca o relaxamento muscular, a reestruturação cognitiva e a possibilidade de viver melhor com a doença.  A doença continua sem cura e maltratando muito o paciente.

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