O perdão não é um sentimento

Há uns dias atrás, eu estava numa reunião de supervisão de casos clínicos no trabalho onde discutíamos sobre as psicopatologias da atualidade e sobre emoções tóxicas quando alguém me perguntou se a dificuldade de perdoar causa problemas psicológicos. Esta questão me chamou muito a atenção, pois é esta uma temática muito presente nas nossas vidas e bastante privilegiada em vários campo do saber como a filosofia, a teologia e as tradições religiosas. Apenas recentemente é que a psicologia interessou-se também por este assunto que Roberts (1995) alcunhou de forgivingness (perdoabilidade). Para se ter ideia, trabalhos mais sistemáticos da psicologia sobre o perdão surgiram apenas na década de 80 fora do País, enquanto aqui no Brasil, estudos científicos aparecem somente no início dos anos 2000. Então, empolgado e curioso, fiz uma pesquisa breve e a priori encontrei vários textos interessantes direcionados ao senso comum e alguns artigos científicos da chamada Psicologia Positiva que trazem discussões teóricas relevantes e curiosas para começarmos a refletir sobre este assunto tão polêmico e importante que é a psicologia do perdão. Para começo de conversa, concordo com o psicólogo Emerson Bueno que o perdão não é um sentimento, é uma decisão fundamental para nossa evolução e reitero as palavras de Martin Luther King quando diz que aquele que é desprovido da capacidade de perdoar é desprovido da capacidade de amar. E digo mais: não é fácil, como se parece, ser empático com o ofensor e firmar compromisso com atos do perdão.

Perdoar não é esquecer; isso é amnésia. Perdoar é se lembrar sem se ferir, sem sofrer. Por isso é uma decisão, não um sentimento. (Pensador desconhecido)

O perdão é definido nos dicionários como remissão de pena, de ofensa ou de dívida; desculpa, indulto. Na verdade, é um processo subjetivo que tem por finalidade cessar o ressentimento tóxico (dentre eles, o principal é a raiva e o sentimento de vingança) contra outra pessoa ou contra si mesmo, decorrente de uma ofensa percebida por diferenças, erros ou fracassos. Trata-se de uma habilidade que precisa de treino. E tem uma importância tanto na dimensão ético-religiosa quanto no enfrentamento de situações de mágoas e injustiças do cotidiano das pessoas. De acordo com os estudiosos do tema não existe ainda uma definição consensual do que seja o perdão. Do ponto de vista etimológico, o verbo perdoar origina-se do latim perdonum que significa dar ou entregar um dom completamente (per-donum) sem querer nada em troca. Neste caso, seria dar ou conceder clemência e tolerância àquele que comete alguma ofensa. Por outro lado, existem outros aspectos da perdoabilidade como a capacidade de auto perdoar-se e a capacidade de reconhecimento do seu próprio erro. A expressão “pedir perdão”, por exemplo significa aceitar ou pedir desculpas, reconhecer e se redimir em relação a algo de errado.

No tocante ao ato de perdoar, segundo Santana e Lopes (2012), existem pelo menos três linhas de estudo com algumas divergências sobre o tema perdoabilidade na tentativa de uma conceituação adequada. O primeiro ponto de divergência diz respeito a questão se o perdão é um fenômeno intrapessoal ou interpessoal. O segundo ponto investiga se o perdão está mais relacionado a abrir mão de pensamentos, sentimentos e comportamentos negativos ou se inclui também elementos positivos e por último, os estudiosos buscam respostas sobre  se o perdão é um evento extraordinário ou se trata de uma experiência comum no cotidiano das pessoas. Estes pontos são bastante pertinentes para entendermos a dimensão que envolve o tema perdão. Desta forma, podemos observar que em todos este pontos de divergências se a ideia de que perdoar envolve mais do que livrar-se dos aspectos negativos, a linha que separa o perdão da reconciliação pode ser muito mais tênue e conflituosa do que se pensa. A facilidade ou dificuldade de perdoar pode estar intrinsecamente relacionada ao um percurso que vai das violações muito intensas até as ofensas menores como injurias e insultos, assim como a motivação e resiliência do injustiçado.

De acordo com o professor Paulo Vieira (2017), quando você perdoa, automaticamente, assume a responsabilidade por como você se sente. Você recupera a sua força e reassume o pleno controle sobre seu destino. Perdão é para você e não para o autor da afronta pois perdoar é remédio para a cura da sua mágoa e não para a cura ou impunidade da pessoa que lhe fez sofrer. Perdoar é a paz que você aprende a sentir quando libera quem lhe fez mal. Ao perdoar você se ajuda a ter mais controle sobre seus pensamentos e sentimentos, além de obter melhora em sua saúde física e mental. Perdão é também se tornar uma pessoa feliz e não uma vítima sofredora. Perdão é uma escolha, uma decisão, uma restituição… É perdoando que se rompe as correntes do sofrimento e passa-se a dar passos livres na própria vida. Neste aspecto, o psiquiatra e psicanalista Moises Groisman afirma que o perdão é uma atitude realizada em relação a pessoa que nos causou algum dano ou nos prejudicou de alguma forma, esteja ela interessada ou não na manutenção da convivência, para podermos viver melhor conosco e com ela. Segundo ele, para perdoar é preciso entender a história da pessoa que nos ofendeu ou causou algum dano e o que a levou a agir de tal forma. Da mesma forma, é necessário compreender de que modo, nós, que fomos magoados, colaboramos, mesmo sem perceber para que tal situação acontecesse.

Na perspectiva psicológica, portanto, as definições do perdão trazem alguns aspectos essenciais como o reconhecimento de que a ofensa foi injusta, o direito de estar ferido, e a desistência de algo a que se tinha direito (cólera, ressentimento) em favor da magnanimidade do perdão. Neste sentido, Subkoviak et al. (1992), afirma que no processo do perdão podemos perceber: a dor de quem foi ofendido e que se pode traduzir em ressentimento; o direito a sentir ressentimento mas, também, a ultrapassá-lo; a resposta ao ofensor através da compaixão, sem a obrigação de o fazer. O perdão é interpretado, então, como a capacidade de ultrapassar a mágoa, o ressentimento ou a vingança que o ofensor merecia, através da compaixão ou da benevolência. Perdoar implica, também, em compreender a ignorância do ofensor e restaurar o relacionamento.

Perdoar é adotar medidas de defesa de forma a conter o agressor para que ele não nos continue ferindo. Contudo, essa atitude defensiva deve basear-se num sentimento de compaixão e não de ódio, pois, a finalidade é educar quem nos ofende, para que ele não continue a nos ferir. Dalai Lama

O fenômeno da perdoabilidade que é um processo gradual com fases distintas e uma jornada árdua deve ser estudado com mais aprofundamento. A disposição para se permitir mergulhar neste processo do perdão significa crescer psicológica e espiritualmente a partir do sofrimento que nos foi infligido. Vários estudos científicos já comprovaram o quanto o ódio, a tristeza e a falta de perdão assolam nosso bem-estar psicológico e a nossa existência como um todo. É importante ter consciência de que perdoar não é somente um ato de benevolência para com o outro, mas sobretudo de inteligência e maturidade emocional para consigo mesmo. Este raciocínio advém do fato de que é contraproducente continuarmos reverberando este mal de forma sistemática, pois muitas vezes aquele que causou um dano, sequer está lembrando do fato. Em outras palavras, o único prejudicado somos nós mesmos. Enright (2008) propõe um modelo de como é o processo do perdão, constituído de vinte etapas pelas quais as pessoas podem passar, divididas em quatro fases distintas: fase de descoberta, fase de decisão, fase de trabalho e fase de resultados e benefícios. Portanto, o melhor a fazer é trabalhar cada aspecto negativo das “injustiças da vida”, percorrer estas etapas – cada um, no seu tempo – para fechar feridas emocionais que, muitas vezes, estão latentes há anos.

O trabalho terapêutico constante das emoções tóxicas tem o poder de curar nossa vida, pois tiramos um peso das costas. O melhor a fazer por nossa saúde é, portanto, esquecer aquela raiva, trabalhar aquela tristeza, ressignificar algum acontecimento que nos foi direcionado consciente ou inconscientemente, posicionando-nos como agentes ativos do processo. Esta atitude de não-vitimização nos traz outra perspectiva diante do nosso sentimento de impotência, das nossas carências, frustrações e crises existenciais. Sendo assim, precisa ser trabalhada cada mágoa, culpa, ressentimento e descompensações, libertando-nos das amarras que impedem uma vida de qualidade. O perdão é um puro ato da subjetividade, um ato ético incondicional,  uma escolha livre e unilateral.   E a pessoa que demonstra dificuldades para perdoar apresenta uma personalidade rígida e intransigente, que não admite falhas, sendo muito severo consigo mesmo e com o comportamento alheio.

Santana & Lopes (2012) concordam, também, que o perdão, citando Enright et al. (1998), é uma atitude moral na qual uma pessoa considera abdicar do direito ao ressentimento, julgamentos e comportamentos negativos para com a pessoa que a ofendeu injustamente, e ao mesmo tempo, nutrir sentimentos imerecidos de compaixão, misericórdia e, possivelmente, amor para com o agressor. De acordo com estes autores, o elemento primordial para se conseguir perdoar é enxergar o culpado ou transgressor com certa compaixão. E, na sua visão, o perdão é um processo que perpassa pelas esferas do comportamento, da cognição e do afeto. Já Worthington(2005), analisa o perdão enquanto um processo que inicia-se com uma decisão ou motivação e evolui até uma mudança emocional significativa por parte da vítima de crimes ou transgressões. E de acordo com Exline & Baumeister (2001), o núcleo do processo do perdão está em abrir mão das emoções negativas, pois perdoar implica em cancelar ou suspender um débito interpessoal.

“Os fracos não podem perdoar. O perdão é um atributo dos fortes”. – Mahatma Gandhi

“Eu te perdoo”. Essas podem ser as três palavras mais difíceis de serem ditas. Apesar de simples, carregam um peso enorme. Todos nós, de alguma forma, guardamos a nossa pequena cota de ressentimento em relação a algo ou alguém e  precisamos ser curados… A pessoa que permanece dia após dia presa no ciclo das recordações, nas garras do ressentimento e no ódio persistente em relação a um evento do passado ou determinada pessoa, desenvolve além da infelicidade um estresse crônico. A lembrança e o contato com o inimigo – pessoa que nos causou mal ou feriu – nos faz bater o coração de forma muito diversa do seu pulsar natural. Ninguém suporta viver por muito tempo dessa maneira porque não há emoção mais tóxica do que a raiva combinada com o ódio e o desejo de vingança.

Pois bem. Diante de qualquer tipo de violência ou ofensa, a grande questão que incomoda a qualquer um é como interagir com a pessoa que nos feriu ou causou alguma dor ou dano. Deve-se incriminar ou perdoar aquele que cometeu um crime grave; que traiu a confiança e o amor; que mentiu, cometeu um insulto ou uma injuria, que nos demitiu do trabalho deixando-nos numa situação difícil ou mesmo que violou algum direito nosso? Como se livrar de lembranças amargas e perdoar palavras duras e imerecidas acusações? A tendência de qualquer pessoa, a priori, é a revolta, a acusação, o menosprezo pelo infrator, atitudes precipitadas decorrentes daqueles pensamentos como: “não levo desaforo para casa”. Mas, diante desta situação é fundamental não julgar mesmo sendo vítima, tentar entender as circunstâncias a partir de várias perspectivas e não se deixar levar pelas emoções nocivas em relação a pessoa delituosa… O perdão, na verdade, é um atitude de decisão difícil, um processo gradual e uma postura emocional comedida no qual estão em jogo questões subjetivas que perturbam a paz e tira o sono de qualquer ser ofendido. Atos como abuso, trapaça financeira e infidelidade são imperdoáveis segundo Moisés Groisman. Para ele, perdoamos a pessoa que praticou o ato, caso queiramos manter a convivência com ela. Mas, o ato, em si, é imperdoável. Ao decidir perdoar, entramos numa fase onde estão processos que Enright chama de enquadramento e compaixão em relação ao ofensor. E neste transcurso, de acordo com Santana & Lopes (2012), há dois tipos de perdão: o decisional que envolve mudanças nas intenções do comportamento da pessoa que sofreu a afronta em relação ao transgressor; e o perdão emocional que se caracteriza pela substituição das emoções negativas por emoções positivamente orientadas. Quem tem dificuldade para perdoar evidencia um grau de neuroticismo elevado que limita, portanto, as suas possibilidades de amar.

“Aquele que é desprovido da capacidade de perdoar é desprovido da capacidade de amar. Há algo de bom nos piores de nós e algo de mau nos melhores de nós. Quando descobrimos isso, somos menos propensos a odiar os nossos inimigos” (Martin Luther King).

Nos relacionamentos que temos com tantas pessoas que cruzam o nosso caminho, magoamos e somos magoados. Somos grosseiros uns com os outros em vários momentos. Há uma mescla de sentimentos entre as pessoas que convivem num mesmo lar, no trabalho, no local onde estudam, no Templo religioso que frequentam e assim por diante. Enfim, o perdão é o ato de se desprender do ressentimento provocado pelas grosserias. Deve vir do coração, deve ser sincero, generoso e não ferir o amor próprio do ofendido. Não impõe condições humilhantes, tampouco deve ser motivado por orgulho ou ostentação. O verdadeiro perdão se reconhece pelos atos e não pelas palavras. Deve-se perdoar sempre infinitamente, pois precisamos ser perdoados, também. Ninguém está imune destes enredamentos. Todos precisam ser perdoados e aprender a perdoar. Pois, de acordo com o modelo de perdão interpessoal proposto por Enright, dois dos passos significativos da perdoabilidade são os seguintes: percepção de que o próprio self já necessitou do perdão de outros no passado; e percepção de que não se está sozinho, ou não se é a única pessoa a lidar com a mesma ofensa.

Mas, é importante lembrar que o perdão não significa esquecer algo doloroso ou fingir que não aconteceu; não é necessariamente se reconciliar com o autor da afronta, pois existem muitas pessoas maquiavélicas e narcisistas; não é desculpar o mau comportamento da pessoa que causou algum dano; fechar os olhos aos erros dos outros; não é negar ou minimizar seu sofrimento; desculpar todo e qualquer erro; desculpar todo aparente deslize das pessoas; e permitir que os outros se aproveitem de nossa bondade. E é relevante entender que a mesma situação pode ter que ser perdoada várias vezes, pois é um processo gradual; que não existem pessoas que não merecem perdão; e a outra pessoa não precisa de pedir perdão para você perdoar.

“Perdoar significa deixar ir o passado” (Gerald Jampolsky).

E resumindo, é preciso não desaprender que o perdão é um ato de desapego, compreensão, humildade e amor. Se o amor não flui dentro de nós mesmos, isso significa que a nossa vida pode estar moribunda. Isso impede-nos de se relacionar bem com as pessoas e ter êxito na nossa existência. Desta forma, podemos reafirmar que precisamos estar atentos aos níveis de ressentimentos que são dignos de ser trabalhados pelo perdão como: a indiferença, a mágoa, o rancor, a raiva, o ódio, a acusação e a vingança. Todos estes sentimentos tóxicos guardados no nosso íntimo causa doenças psicossomáticas severas. Segundo Oliveira (2007), embora a vingança ou, ao menos, o ressentimento pareça o mais simples, há muitas razões para perdoar, ganhando o sujeito na saúde física, pois os sentimentos de cólera provocam um aumento de pressão sanguínea e prejudicam o coração; na saúde psíquica, pois o perdão liberta o espírito de pensamentos negativos povoando-os de pensamentos positivos e magnânimos; e ainda nas relações sociais, pois as emoções nocivas azedam as relações interpessoais, enquanto o espírito de tolerância e de perdão constroem a paz e a fraternidade. Diversas pesquisas científicas demonstram que perdoar (e ser perdoado) reduz a ansiedade, a depressão e a pressão arterial, promovendo também a auto-estima. Mas, sobretudo deve-se perdoar por motivo ético incondicional.

Não perdoar é, portanto, um sintoma, o sintoma da sujeição ao outro, e a incapacidade para remediar isso. Egidio T. Errico (Psicanalista Freudiano e Lacaniano de Salerno, Itália

Por isto, podemos asseverar que a falta de perdão das ofensas produz dano maior em quem está ferido do que naquele que feriu. Sem perdão não há cura das mágoas e ressentimentos. A doença interior só se complica, assim como, o bem-estar em geral da pessoa ressentida é seriamente afetada. É preciso haver decisão, habilidade de enfrentamento aos sentimentos perniciosos relacionados as ofensivas e mudança de perspectiva para não ficar preso eternamente nas garras dos ressentimentos e melindres. Pois, uma pessoa que alimenta o ódio e o rancor por causa de insultos denota falta de grandeza, suscetibilidade desconfiada e cheia de fel e, bem como, pouco aprimoramento moral, de acordo com as tradições ético-religiosas. A eliminação destes sentimentos nocivos são consideradas no âmbito religioso como “processo de apuro ou purificação espiritual”. Já para os estudiosos da psicologia da perdoabilidade, aquelas pessoas que não perdoam tem maior dificuldade em serem felizes, em estarem satisfeitas com a vida e em relacionar-se com os outros, podendo a dificuldade ou mesmo a recusa de perdão denotar alguns traços negativos ou mesmo neuróticos da personalidade. E além disso, tais pessoas perdem a oportunidade de sensibilizar e tentar educar quem praticou a ofensa ou dano a não permanecer com o mesmo comportamento, disseminando contratempos, agressões e ressentimentos. Esta disponibilidade da pessoa para educar, apesar de ter sido vítima, revela a nobreza de sentimentos e virtudes como a capacidade de se colocar no lugar do outro, afabilidade, capacidade de suportar, serenidade e, enfim, o tão difícil processo da compaixão em relação ao ofensor descrito por Enright.

  • 1- ______ A psicologia do Perdãohttp://www.amenteemaravilhosa.com.br, 2017;
  • 2- ______ O poder do perdão: descubra como ele pode mudar a sua vida http://www.psicologiaviva.com.br, 2018.
  • 3- Bueno, Emerson. O perdão não é um sentimento, é uma decisão, 2017;
  • 4- Gonçalves, Sara. Razões para perdoar, 2014;
  • 5- Oliveira, José H. Barros de. Perdão e Optimismo: abordagem intercultural. Faculdade de Psicologia e C.E., Univ. do Porto. Psicologia Educação e Cultura, vol. XI, nº 1, pp.129-146, 2007;
  • 6- Santana, Rodrigo Gomes; Lopes, Renata Ferrarez Fernandes – Aspectos Conceituais do Perdão no campo da Psicologia. Psicologia: ciência e profissão, vol.32, nº3. Brasília,  2012;
  • 7- Vieira, Paulo. Poder e Alta Performance. São Paulo: Gente. pp. 240 a 243, 2017.
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DEPOIS DA QUEDA, O COICE

Este é o título de uma música do álbum “Hey na na” (1998) da banda brasileira de rock Os Paralamas Do Sucesso que nos remete ao conhecido ditado português “além da queda, o coice”.  Esta expressão popular tem o significado de dois castigos ao mesmo tempo, quando ocorrem duas situações desagradáveis simultaneamente. Ela origina-se da situação em que o cavaleiro, além de ser derrubado da montaria ainda recebe desta um coice. E é muito comum na linguagem popular do nordeste brasileiro.

Este ano que está terminando me trouxe algumas coisas bacanas como boas amizades e conquistas importantes; ganho expressivo em conhecimento e experiência; amadurecimento pessoal e desenvolvimento da espiritualidade; e envolvimento nos serviços devocional e amoroso transcendentais. Assisti alguns filmes muito interessantes, li cerca de dez livros, escrevi alguns posts de blog, fiz três cursos de aprimoramento profissional, atuei veementemente na clínica psicológica e o mais significativo de tudo foi a publicação do ebookCâimbra do Escrivão: uma deficiência incomum” juntamente com Maristela Zamoner. Mas, apesar disso, eu diria que a frase que mais designa o ano de 2018 para mim foi exatamente esta: “Depois da queda, o coice”.

Isto porque tenho vivido e caminhado entre quedas e coices neste ano que termina agora. Neste sentido, ao mesmo tempo que atravessei o ano experimentando o amargor de pequenas injúrias e calúnias; atitudes maquiavélicas e inveja; alijamento social e assédio moral – às vezes, de forma grosseira e nítida e, às vezes, de forma subliminar e sorrateira –   enfrentei um revés financeiro penoso no trabalho e padeci, concomitantemente, de complicações árduas devido a minha doença neurológica. E como se não bastasse, fui vítima de um assalto a mão arma na sexta dia 30/11 onde levaram o carro da nossa família, celular e documentos pessoais. Contexto este que trouxe consequências severas, contratempos e complicações na minha vida. Eis, o coice! Eis, o selo do castigo!

Diante disto, paira no ar uma sútil atmosfera de estar bem rende ao precipício, usando as palavras de  Herbert Viana nesta sua belíssima canção. Sinto que a dor virou meu vício diante de tanta aflição e de tanto açoite. Tenho me perguntado: será que são provações, expiações ou meros pesadelos…  Diante de tanto martírio e tanta fragilidade, eu não compreendo, não acho relevante e não importa a explicação… Só sei que, infelizmente, eu não sou o único privilegiado destas situações inconvenientes e perniciosas neste mundo material.  Este é o cotidiano de toda as pessoas que a todo instante estar susceptível a ser vítima de todo tipo de violência e sofrimento no seu dia a dia como o roubo, a cobiça, a falsidade, a descortesia, a traição, a trapaça, o infortúnio, a desavença, a vaidade e uma infinidade de princípios irreligiosos ou não bramânicos como afirma o Srimad-Bhagavatam.

Neste aspecto, é preciso entender que todos os movimentos de nossa vida nada mais são do que um espelho do nosso passado, de acordo com os grandes eruditos do yoga. Através do karma, a dinâmica lei da ação e reação, o cosmos exerce sobre nós sua profunda pedagogia, permitindo que possamos nos deparar com os nossos velhos enganos e corrigi-los. Desta forma, por trás de todo incidente negativo, de toda situação desagradável e lamentável, existe uma valiosa lição, esperando para ser descoberta e aprendida. Portanto para a tradição espiritual do yoga todos aqueles que de alguma forma nos prejudicam, traem nossa confiança e nos decepcionam são apenas agentes do nosso próprio karma. Um verdadeiro yogi sabe que todos os adversários externos são apenas projeções de suas próprias falhas internas e que seu maior esforço deve residir em combater sua própria ignorância, vícios e falta de misericórdia. Nós atraímos energias por magnetismo que sintonizam com energias profundas do nosso psiquismo ou do nosso passado imortal para que sejamos curados das nossas máculas. Eis o que se intitula de resgate de dívidas de uma entidade comprometida!

Sempre que está aflito ou passa dificuldades, o devoto sabe que o Senhor está tendo misericórdia dele. Ele pensa: “ por causa das minhas más ações passadas, eu deveria sofrer muitíssimo mais do que estou sofrendo agora. Portanto, é pela misericórdia do Senhor Supremo que não estou recebendo todo castigo que mereço. Pela graça da Suprema Personalidade de Deus minha punição é pequena”.
Por isso, ele é sempre calmo, quieto e paciente, apesar de muitas condições aflitivas. (…) Srila Prabhupada, no significado de O Bhagavad Gita 12: 13-14.

Aqui está o ponto chave e o outro lado da moeda. Exercitar a misericórdia e compaixão por estas pessoas que estão cheias de maldades através de suas atitudes para conosco nada mais é do que ter uma atitude nobre e transcendental em relação a elas que, devido a suas ações condicionadas e contaminadas pela energia nociva e perniciosa, estão cada vez mais aumentando seu enredamento  no cativeiro da plataforma material: um enredamento pecaminoso e kármico  horripilante. E mais ainda, de acordo com o Evangelho Segundo o Espiritismo, nas instruções do Capítulo VII, devemos ser indulgentes para com as injustiças e faltas dos homens, devemos suportar com coragem as humilhações e calúnias das pessoas, pois desta forma seremos humildes e agiremos com benevolência.

“Nunca enganes a ninguém. A vida é grande cobradora e exímia retribuidora. O que faças aos outros, sempre retornará a ti.” Divaldo Franco pelo Espírito Joanna de Ângeles.

Mas, como estou no mundo material num processo de busca para alcançar a plataforma espiritual da autorrealização, confesso que tenho sorrido a contragosto, pois o meu sentimento é de desalento… A história tem se repetido, onde vivencio falta amor e de bondade, de forma persistente, na civilização pós-moderna. A crueldade humana, o ódio, os interesses egoístas, a soberba, a falsidade, a falta de respeito, a dissimulação e a vida de aparências, como em épocas remotas, imperam a minha volta. Cenário denso que tem me assustado… Ainda estou aprendendo sobre a melhor maneira de como lidar com tudo isso.  Nas marcas do meu rosto e do meu corpo estão o cansaço, o desânimo e a desilusão depois de tanto lutar e só levar topadas e coices. As minhas mãos tremem, não só por causa da doença, mas devido a constatação de tanto desamor e indiferença; de tanta miséria existencial maquiada por diversas formas. Mas, apesar de tudo, estou vivendo e procurando encontrar forças para se erguer e seguir em frente. Afinal, depois da noite de tanto dissabores, aborrecimentos e desgostos sempre vem a expectativa refletida na luz de um outro dia. Nas voltas da vida, percebo que as relações humanas nos espaços sociais são um imenso laboratório espiritual e psíquico que nos permite desenvolver-se e aperfeiçoar-se quando nos permitimos e nos esforçamos para tal.

Até cortar nossos próprios defeitos pode ser perigoso. Nunca se sabe qual é o defeito que sustenta nosso edifício inteiro.    Clarice Lispector

Tríade obscura

De vez em quando, eu dou de cara com pessoas que tem tendência a comportamentos cuja as características são a esperteza e a manipulação. As primeiras questões que vem a minha cabeça, de imediato, são as seguintes: por que motivo as pessoas se deixam levar por energias tão nocivas e perigosas? E por que colocar a pessoa ou colega numa situação difícil para atingir um objetivo? Não seria isto maldade extrema ou mesmo falta de amor?

Incomodado com este tipo de atitude, na tentativa de compreender fiz uma pequena pesquisa e descobri um artigo interessante publicado no site “A mente é maravilhosa” que enquadra este comportamento no que os autores chamam de tríade obscura.

Segundo o artigo, aqueles que não têm a capacidade de se conectar com os outros ou têm a capacidade de se desconectar deliberadamente das suas emoções podem fazer parte dessa tríade que é composta pelo:  narcisismo, maquiavelismo e psicopatia.

Delroy Paulhus e Kevin-Williams, psicólogos da Universidade da Colúmbia Britânica, foram os responsáveis ​​por batizar como tríade obscura a parte mais negativa das relações humanas. Para eles, nos casos mais extremos, os indivíduos que compartilham as características dessa tríade chegam a se transformar em criminosos ou se perdem no amplo espectro das doenças mentais. No entanto, é preciso estar atento e ter precaução com aqueles que tem esta tendência de comportamento ou transtorno psiquiátrico e convivem diariamente conosco, muitas vezes disfarçando. A manipulação do semelhante para benefícios e interesses próprios é considerada o lado mais sombrio e pernicioso das interações sociais, segundo estes autores.

Assim, as pessoas que apresentam tais traços e formas de comportamento são chamadas de personalidades obscuras por causa das suas tendências insensíveis, egoístas e malévolas nos seus relacionamentos com os outros. Para Helena Moura, membro da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP), “o maquiavelismo costuma ser normal entre os narcisistas, que manipulam para conseguir o que querem, geralmente admiração e superioridade, coisas mais subjetivas. O psicopata, ao contrário, quer vantagens materiais. São problemas difíceis de entender e diagnosticar porque não existe uma alteração biológica por trás desses transtornos, o que significa que também não existem medicamentos próprios para eles”.

Averiguemos, então, a caracterização desta tríade obscura cujas pessoas manipuladoras estão inseridas:

  O Narcisismo ou Pessoas narcisistas

“Tudo é permitido para mim” ou “Os outros só existem para me adorar”, são exemplos típicos de pensamentos dominados pelo narcisismo. São pessoas egoístas, com um sentido de direito egocêntrico e uma autoimagem positiva, embora pouco realistas se considerarmos a opinião das pessoas ao seu redor.

Os narcisistas são “encantadores de serpentes”. No início são muito queridos para os outros, seus comportamentos são agradáveis ​​e atraentes, mas com o passar do tempo, podem se tornar muito perigosos. Eles podem até, sem querer, mostrar quais são as suas verdadeiras intenções: obter mais admiração e poder.

Eles geralmente ficam entediados com a rotina, por isso procuram desafios difíceis. A maioria dos narcisistas procura uma posição de liderança, advocacia ou qualquer outra profissão que envolva altos níveis de estresse. De acordo com o psicanalista Michael Maccoby, o narcisismo é um distúrbio cada vez mais frequente nos níveis superiores do mundo empresarial e está diretamente relacionado com a competição, ao salário e o glamour.

Um dos seus pontos fortes é a grande capacidade de convencimento que possuem. Graças a isso, eles se cercam de um grande número de seguidores, são capazes de convencer sem fazer nenhum esforço. Em suma, conseguem sempre o que eles se propõem. Além disso, como não são empáticos, não são escrupulosos com os meios e as estratégias que utilizam para alcançar os seus objetivos.

O interesse e a preocupação dos narcisistas com os outros é zero, apesar da sua grande teatralidade. Eles não sentem remorso e são impassíveis às necessidades e sentimentos das pessoas ao seu redor.

Agora, o seu calcanhar de Aquiles é a sua autoestima. Os narcisistas, muitas vezes, têm uma autoestima muito baixa, que é acompanhada de uma vulnerabilidade interna e uma certa instabilidade. Por isso, geralmente procuram se relacionar com pessoas que consideram inferiores para exercerem o seu domínio e se sentirem poderosos.

O Maquiavelismo ou Pessoas  manipuladoras

Para os “maquiavélicos”, o fim justifica os meios, independentemente das consequências que possam surgir. Geralmente são pessoas muito calculistas e frias, destruindo qualquer tipo de conexão emocional verdadeira com os outros. Embora possuam traços em comum com os narcisistas, como o egoísmo e o uso dos outros, há uma característica que os diferencia: são realistas nas percepções e estimativas que fazem das suas habilidades e dos relacionamentos que mantêm.

Os “maquiavélicos” não tentam impressionar ninguém, pelo contrário. Eles se mostram como são e preferem ver as coisas claramente, porque dessa maneira podem manipular melhor o outro. Na verdade, eles se concentram nas emoções das pessoas que querem manipular para obter o que querem. Se conhecerem os seus sentimentos, será mais fácil escolher a melhor estratégia para manipulá-lo.

De acordo com o psicólogo Daniel Goleman, as pessoas com características maquiavélicas podem ter uma menor empatia com os outros. A sua frieza parece derivar de uma falta no processamento tanto das próprias emoções quanto das dos outros.

Na verdade, para eles as emoções são tão desconcertantes que, quando sentem ansiedade, geralmente não sabem diferenciar se estão tristes, cansados ou simplesmente não estão se sentindo bem. No entanto, possuem uma grande capacidade de perceber o que os outros pensam. Mas, como diz Goleman, “mesmo que a sua cabeça saiba o que fazer, o seu coração não tem a menor ideia”.

Confira nesse texto outras formas de identificar uma pessoa manipuladora e mentirosa e  nesse outro artigo  leia os tipos mais comuns de comportamentos maquiavélicos.

A psicopatia, a personalidade mais perigosa da tríade

Os psicopatas consideram as outras pessoas como objetos com os quais podem  jogar e usar de acordo com a sua vontade. No entanto, ao contrário das outras personalidades da tríade obscura, quase nunca experimentam ansiedade e até mesmo parecem ignorar o que significa sentir medo.

Segundo os psicólogos Delroy Paulhus e Kevin-Williams, a frieza do psicopata é extrema, por isso pode tornar-se muito mais perigoso do que as outras personalidades da tríade obscura.

Como não sentem medo, podem permanecer serenos mesmo em situações emocionalmente intensas, perigosas e aterrorizantes. Eles não se importam com as consequências das suas ações e são os melhores candidatos para se tornarem presidiários.

Os circuitos neuronais desse tipo de pessoas dessensibilizam o segmento do espectro emocional associado ao sofrimento. Por isso, a sua crueldade parece insensibilidade porque eles não conseguem detectá-lo. Além disso, o remorso e a vergonha não existem para eles.

No entanto, os psicopatas têm algumas facilidades para “se colocar no lugar do outro” e, assim, pressionar os botões apropriados para alcançar o seu objetivo. Eles são muito persuasivos. No entanto, esse tipo de pessoas, apesar de se destacarem na cognição social, caracterizam-se pela compreensão das relações e do comportamento dos outros apenas a partir de uma perspectiva lógica ou intelectual.

Como vemos, parece que o lado negro praticado pelos Sith em Star Wars não é tão irreal quanto pensávamos. A presença desta tríade obscura nos relacionamentos íntimos leva a maus-tratos através da violência psicológica. São personalidades tóxicas que estabelecem círculos de poder, controle, hostilidade e aprisionam mentalmente as suas vítimas.

O artigo do site termina sugerindo que a chave para não cair nas armadilhas destas pessoas é trabalhar a nossa independência emocional. É preciso, em primeiro lugar, saber estabelecer limites claros nos nossos relacionamentos e não permitir que ninguém os ultrapasse, pois nos protegermos deve ser a nossa prioridade em todos os tipos de relacionamentos.  Penso que as pessoas como as maquiavélicas são doentias por que não tem relações saudáveis. As pessoas que mentem, roubam, dão um jeitinho para se dar bem, usam o outro para se promover sofrem de problemas psicológicos da mais alta gravidade e não são pessoas virtuosas. É preciso, também, revermos nossa base emocional e moral que implica em avaliar como estamos lidando com os sentimentos, como estamos nos relacionando com o nosso semelhante e como estamos exercendo as virtudes.

O Mentiroso e suas fantasias

Uma das coisas que sempre tem me incomodado é o uso corriqueiro da mentira em alguns espaços sociais, principalmente, nas relações pessoais no  ambiente de trabalho. O que eu acho mais interessante nisso tudo são os diversos motivos pelos quais o uso da mentira é empregado com facilidade e audácia, assim como o que este comportamento revela a respeito  da personalidade do mentiroso.

Para começo de conversa, podemos definir a mentira como o ato de não contar a verdade ou negar o conhecimento sobre alguma coisa que é verdadeira.  Assim, contar uma mentira consiste em falar algo que não é verdade para alguém, com o intuito de que essa pessoa acredite. Mentir, portanto, é sinônimo de enganar, além de ser uma das ações praticadas por quem possui intenções maliciosas em relação à outra. Por essas razões, a mentira pode ser  considerada um ato imoral ou criminal.

Uma mentira coloca em dúvida todas as verdades e faz diminuir a confiança!

 Segundo as estatísticas, de acordo com  Roque Theophilo, mentimos em média uma vez a cada cinco minutos de conversa. Começando pelos falsos elogios, passando pelas desculpas “esfarrapadas” ou pelas mentiras descaradas, até mesmo nos casos em que os pais que estimulam esta prática, como por exemplo, ao  pedirem aos filhos para dizer que eles não estão em casa. Segundo o criminologista David Craig no livro “Como identificar um Mentiroso” uma das maiores ofensas é ser chamado de mentiroso, mesmo considerando que nem toda mentira é nociva.

As mentiras podem ser classificadas em diferentes níveis, desde as “mentiras inofensivas”, que possuem uma finalidade de benignidade, até as mentiras que têm o objetivo de prejudicar a vida de outra pessoa, por vingança ou pura maldade. 

Uma mentira não teria sentido se a verdade não fosse vista como perigosa. – Alfred Adler

Assim, podemos dizer que a mentira pode surgir por várias razões: receio das consequências quando tememos que a verdade traga consequência negativas; insegurança ou baixa de autoestima quando pretendemos fazer passar uma imagem de si próprio melhor do que a que verdadeiramente acreditamos; por razões externas quando o exterior nos pressiona ou por motivos de autoridade superior ou por coação; por ganhos e regalias de acordo com a Tragédia dos bens comuns. Desta forma, se mentir traz ganhos vale a pena mentir já que ficamos em vantagem em relação aos que dizem a verdade; ou por razões patológicas.

Com relação a mentira em excesso ou de forma compulsiva, segundo com os estudiosos, pode ser sinal de um transtorno psicológico chamado Mitomania. De acordo com a psicologia, a mentira nasce, geralmente, da necessidade do mentiroso em obter algum proveito ou se livrar de alguma situação que o incomode. O mentiroso compulsivo, por sua vez, não tem nenhum objetivo ao mentir, fazendo isso mesmo quando não está sobre pressão social. O mitomaníaco usa a mentira como uma ferramenta de consolo, pois assim sente-se mais satisfeito e calmo consigo mesmo, mascarando as suas angústias.

Quando uma mentira é pronunciada o mundo fica mais pobre, sujo e feio. Achar que a mentira realmente vale a pena é ter a certeza da insignificância das suas consequências!

Segundo Fabricio Carpinejar em seu artigo O Mentiroso, uma das características do mentiroso é que ele é uma pessoa moralista, defende a sua lealdade e a sua integridade, e costuma dizer que nunca mente. Ele ataca para não ser descoberto. É capaz de fazer um escândalo diante de uma mentira, como se fosse a maior aberração. Não gosta que você crie laços próprios e independentes com a família dele e com seus conhecidos. Assim pode manipular à vontade. O mentiroso odeia ser interrompido, não permite um bate-papo normal, suas atitudes  estão baseadas sempre na defensiva e, as vezes, na truculência.

De acordo com o artigo Tudo Mentira,  é parte do desenvolvimento psíquico de cada um fazer da mentira uma espécie de varinha mágica;  o adulto que mente constantemente é uma criança que só cresceu por fora. Pois então a mentira é prova de que algo vai mal na cabeça do cidadão  e precisa ser tratado; a mentira é um modo de satisfazer, para si mesmo ou perante os outros, uma necessidade ou alcançar um desejo; é uma necessidade compulsiva de enganar, típica da pessoa imatura; E quando a mentira passa a fazer parte rotineira do jogo social  uma técnica de ataque e defesa na competição entre as pessoas por mais riqueza, prestigio ou poder, e ainda na disputa  entre governados e governantes, é claro sinal de que o país onde isso acontece não vai bem das pernas.

Existem muitos tipos de comportamento ludibriador, mas, em qualquer mentira, de acordo com Goldberg, existe a intenção de iludir o outro em causa própria, e isso implica lesões e mutilações para o relacionamento.

Neste aspecto, o artigo da Super Interessante afirma que as pesquisas indicam que os brasileiros menos acreditados pela população são os políticos. É uma revelação inquietante, sem dúvida, mas não é verdade que isso acontece só no Brasil e só nos dias de hoje. As profissões e pessoas que trabalham com a mentira passam a ser desacreditadas. Este comportamento é tão tóxico que segundo os budistas uma mentira equivale a matar dez homens e para os cristãos ela é considerada um pecado divino, estando relacionada com o que é mau, maligno ou indigno. 

Quem mente também rouba… Rouba o direito do outro de saber a verdade. A mentira é pura vaidade de quem precisa se esconder!

Por último, é preciso frisar que a mentira está intrinsecamente relacionada com o universo masculino e patriarcal. A mentira juntamente com o poder e as relações dominantes do sexo fazem parte da fantasia da masculinidade como afirma Helena Vieira. A construção do gênero masculino está inerentemente vinculado com a fantasia do direito de dominar e para isto os homens se utilizam das pequenas violências como mentir, passando pelas humilhações até as mais graves do tipo “tem que bater para manter o controle”. Uma figura típica do nosso país que representa este tipo de masculinidade conhecida como hegemônica é a do “Senhor de Engenho”, caracterizada pelo autoritarismo,  falta de diálogo, aversão as diferenças com medo de perder sua posição na ordem social e de gênero e, por último, o uso compulsivo e sistemático da mentira. Esta última muito utilizada como traço de comportamento para defender os privilégios e a ordem senhorial.

Falácia do Espantalho

A Falácia do Espantalho ou Falácia do Homem de Palha é um argumento em que a pessoa ignora a posição do adversário no debate ou discussão e a substitui por uma versão distorcida, que representa de forma errada esta posição.  A falácia se produz por distorção proposital, com o objetivo de tornar o argumento mais facilmente refutável, ou por distorção acidental, quando a pessoa ou debatedor que a produz não entendeu o argumento que pretende refutar.

Nessa falácia, a refutação é feita contra um argumento criado por quem está atacando o argumento original; não é uma refutação do próprio argumento preliminar. Para alguém que não esteja familiarizado com a proposição original, a refutação pode parecer válida, como refutação daquele argumento. Assim, comete-se a Falácia do Espantalho ou Homem de Palha quando se atribui a outrem uma opinião fictícia ou se deturpam as suas afirmações de modo a terem outro significado.

Segundo o site Your Logical Fallacy, o comportamento conhecido como o  Homem de Palha é uma das 24 mais comuns falácias lógicas argumentativas e podemos dizer que a falácia do Homem Espantalho é aquela típica da  pessoa que  desvirtua um argumento ou proferição sobre determinado assunto  para torná-lo mais fácil de atacar. Ao exagerar, desvirtuar ou simplesmente inventar um argumento de alguém, fica bem mais fácil apresentar a sua posição como razoável ou válida. Este tipo de desonestidade não apenas prejudica o discurso racional, como também prejudica a própria posição de alguém que o usa, por colocar em questão a sua credibilidade. Desta forma, se você está disposto a desvirtuar negativamente o argumento do seu oponente, será que você também não desvirtuaria os seus positivamente?

Um exemplo deste tipo de comportamento, de acordo com o site é: depois que João disse que devemos investir mais em saúde e educação, Carlos respondeu dizendo-se estar surpreso de que João odeia tanto o nosso país que quer deixá-lo desprotegido ao cortar o orçamento militar.

Outro dia, eu fui vítima no trabalho, de forma sistemática e sutil, deste tipo de falácia praticado por uma pessoa que para todos apresentava-se como amigável. Porém,  a todo momento, esta pessoa vivia deturpando e distorcendo minhas colocações e comentários; fazendo conclusões apressadas e irreais, com o objetivo de denegrir a minha imagem.  Eu ficava sempre pensando sobre este comportamento. O que estaria por trás disto? Qual o objetivo desta pessoa?  Descobri depois de “dá corda” e observar pacientemente. A princípio, digo que este tipo de comportamento, na verdade, é uma forma infantilizada e  agressivo-passiva de atacar. Em segundo lugar, é  um comportamento de uma pessoa que revela insegurança, inveja, imaturidade, desonestidade e interesse em prejudicar. Em terceiro lugar, são pessoas oportunistas, interesseiras e maldosas.  E   por último, pessoas com esta postura são muito comuns nas relações de trabalho e dentro da família. São conhecidas, também, como aquelas pessoas que colocam “palavras na sua boca” e praticam atos de má-fé com que se procura enganar alguém. Está relacionado a falsidade, superficialidade e indecência.

De acordo com a filosofia, falácia é uma palavra de origem grega utilizada pelos escolásticos para indicar o “silogismo sofistico” de Aristóteles. Segundo Pedro Hispano: “Falácia é a idoneidade fazendo crer que é aquilo que não é, mediante alguma visão fantástica, ou seja, aparência sem existência”. Desta forma, a falácia significa erro de raciocínio, seguida de uma argumentação inconsistente. Está relacionada também com a mentira, engano ou falsidade.  Normalmente, uma falácia é uma ideia errada que é transmitida como verdadeira, enganando outras pessoas.

No âmbito da lógica, uma falácia consiste no ato de chegar a uma determinada conclusão errada a partir de proposições que são falsas. A filosofia de Aristóteles abordou a chamada “falácia formal” como um sofisma, ou seja, um raciocínio errado que tenta passar como verdadeiro, normalmente com o intuito de ludibriar outras pessoas. Assim, as pessoas que se utilizam deste aparato, procuram deturpar as colocações dos colegas de trabalho ou amigos para prejudicar, aniquilar e principalmente ter êxito, de forma desonesta, sobre alguma situação.

Na verdade, dentro dos vários tipos de falácias , a Falácia do Espantalho é aquela que o sujeito  define um termo para favorecimento próprio, utilizando posições defendidas por um opositor(ou um colega invejado). Esta é muito utilizada pela maioria dos políticos, pessoas politiqueiras, babonas e invejosas. Pessoas que se sentem ameaçadas ou ressentidas em alguma situação e tem um padrão típico de imaturidade, crueldade e desonestidade no seu comportamento.  Nas palavras do senso comum, são pessoas que praticam a “baixeza”, ou seja,  aquelas que tem falta de elevação moral e de dignidade nos sentimentos. Enfim, estas não são  boas companhias; nem se quer de longe!

Salvar

O Renascido

The Revenant (O Renascido) ou em português “O Regresso” é um filme norte-americano de 2015 realizado por Alejandro González Iñárritu, escrito por Mark L. Smith e Iñárritu e foi baseado no romance homônimo escrito por Michael Punke. O filme, por sua vez, foi inspirado na história real de Hugh Glass e é estrelado por Leonardo DiCaprio, Tom Hardy, Domhnall Gleeson e Will Poulter.

De acordo com as sinopses, o filme é uma experiência cinematográfica imersiva e visceral que capta uma aventura épica de um homem por sobrevivência e o extraordinário poder do espírito humano. Em uma expedição pelo desconhecido deserto americano em meados de 1822, o lendário explorador Hugh Glass (Leonardo DiCaprio) é brutalmente atacado por um urso e deixado como morto pelos membros de sua própria equipe de caça. Numa luta constante para sobreviver, Glass resiste à dor inimaginável, bem como à traição de seu confidente, John Fitzgerald (Tom Hardy) que o abandona à própria sorte e ainda rouba seus pertences. Guiado pela força de vontade, amor pela própria família e desejo de retaliação por seu filho mestiço de uma relação com uma índia que fora assassinado, Glass teve que navegar um inverno brutal em uma incessante busca por sobrevivência e redenção.

Segundo a crítica, “O Regresso” não passa de mais uma história de vingança pessoal. Marcelo Janot diz que o filme é uma história que se divide em duas: a do homem testado até o seu limite pela natureza e a do sujeito em busca de vingança contra o seu algoz.

O que me chama a atenção aqui é a história do homem testado até o seu limite: a de Glass contra a natureza.

“O Regresso” mostra cenas fortes de sobrevivência extrema e resiliência. Gostei imensamente e recomendo assistir este surpreendente e bonito filme. Ao assisti-lo, fiquei impressionado e pensando sobre a nossa  educação deficiente que nos faz acomoda-se a uma certa zona de conforto. Esta educação repressora que nos aleija, nos deseduca para a vida, nos torna seres frágeis, com medo e sem a criatividade necessária para se defender e sobreviver as adversidades e dificuldades da vida.

Fiquei pensando nas pessoas conhecidas que surtam com tanta facilidade diante de Situações Não Extremas  como chegar em casa e dar de cara com alguma situação de pequenas e temporárias perdas como não conseguir acessar a internet, não ter o carro disponível ou a roupa lavada e comida preferida a seu dispor…

Fiquei pensando nas pessoas cheias de dengos acostumadas a uma vida de conforto e facilidades. São estas pessoas que diante de uma mínima dificuldade ou carência, se deprimem, se tornam histéricas e agridem todos, porque nunca souberam o que significa “passar por necessidades”.

Fiquei pensando em todos nós que estamos vivendo com distonia. Uma limitação imposta pela natureza que maltrata muito e nos deixa impedidos de viver normalmente. Uma doença que desafia o viver em certos aspectos; que requer muito esforço do paciente para se adequar as demandas da vida. Viver com distonia é uma luta contra a natureza, é uma sobrevivência ao limite…

As cenas do filme são impactantes. Um filme que mostra a sobrevivência à fome, à sede, ao abandono dos amigos, ao frio, à dor e aos ferimentos  intensos provocados por um ataque feroz de um urso. Sobrevivência a Situações de Limites Extremos…  Realmente, Hugh Glass renasceu! Ele vivenciou um contexto que poderia levá-lo a um desequilíbrio emocional e mental. Mas, teve uma capacidade resiliente imensa.

Tudo isto me fez refletir também sobre nosso estilo de vida cheio de condicionamentos, ilusões e dependências de tanta rotina e hábitos. Um estilo de vida que nos limita enquanto potencialidades e perspectivas. Que nos faz ficar presos as pequenas comodidades. Que nos torna limitados, acomodados,  sem criatividade e sem vigor para lutar, para improvisar…

Um estilo de vida que mesmo diante de situações de Limites Não Extremos nos faz perder a cabeça e a razão. Pequenas barreiras ou restrições que nos infantiliza e nos faz enlouquecer. Nós fomos erroneamente acostumados a viver uma vida onde pensamos que tudo e todos estão a nossa disposição e na hora que precisamos para atender aos nossos caprichos. Um simples obstáculo é suficiente para deixarmos sair um selvagem que agride, humilha e se desespera. Um selvagem ameaçado que ao invés de buscar superar as dificuldades como Glass, vive uma vida de covardia e de inércia…

A motivação de Glass para lutar destemidamente foi o comportamento de Fitzgerald, que faz parte do mesmo grupo mas sempre implica com Glass por causa da presença do jovem meio-índio entre eles, e a todo instante expressa palavras de ódio contra negros, índios e mestiços. Tanto é que chegou ao ponto de matar seu filho e abandonar o amigo  ferido. Enfim, a motivação de Glass foi, também, o instinto de sobrevivência.

Todos nós temos nossas razões e motivações. Mas, muitas pessoas preferem ficar no comodismo, no anonimato e na indolência: sem enfrentar as dificuldades impostas pela natureza e pela vida!

O Espelho do Homem

 

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No Dia Internacional do Homem – 19 de novembro, eu trago um  hino de Alex Polari  intitulado “O Espelho do Homem” que gostei muito. Ele problematiza com seu estilo lírico o comportamento masculino e sutilmente as relações de poder estabelecidas com o semelhante.

Para ser Homem é ser justo
Franco, leal e amigo,
Assim o Mestre mostrou
Esse tornou tão querido

 

Não é fácil ser homem
Se você acha que é
Lembrem  do  nosso modelo
Meu bom  Jesus de Nazaré.

 

Muitos pensam que Homem
É ser brabo e orgulhoso
Como se fosse virtude
De nos fazer mais viçoso

 

Alguns não mantiveram
Sinceridade com os outros
Fingem ser mais não são
E falam mal do irmão

 

Se disser e não for
Muito pior vai ficar
Quebrou com a palavra do Homem
Que Homem não pode Quebrar

 

Se você mexe com vício
Se arrepende mané
Que homem que se vicia
Um bom exemplo não é

 

Homem que é Homem se humilha
Pra na verdade estar,
E poder bem compreender
Aonde o Daime mostrar

 

Para ser Homem é ser justo
Franco, leal e amigo,
Assim o Mestre mostrou
E se tornou tão querido.

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