O perdão não é um sentimento

Há uns dias atrás, eu estava numa reunião de supervisão de casos clínicos no trabalho onde discutíamos sobre as psicopatologias da atualidade e sobre emoções tóxicas quando alguém me perguntou se a dificuldade de perdoar causa problemas psicológicos. Esta questão me chamou muito a atenção, pois é esta uma temática muito presente nas nossas vidas e bastante privilegiada em vários campo do saber como a filosofia, a teologia e as tradições religiosas. Apenas recentemente é que a psicologia interessou-se também por este assunto que Roberts (1995) alcunhou de forgivingness (perdoabilidade). Para se ter ideia, trabalhos mais sistemáticos da psicologia sobre o perdão surgiram apenas na década de 80 fora do País, enquanto aqui no Brasil, estudos científicos aparecem somente no início dos anos 2000. Então, empolgado e curioso, fiz uma pesquisa breve e a priori encontrei vários textos interessantes direcionados ao senso comum e alguns artigos científicos da chamada Psicologia Positiva que trazem discussões teóricas interessantes para começarmos a refletir sobre este assunto tão polêmico e importante que é a psicologia do perdão. Para começo de conversa, concordo com o psicólogo Emerson Bueno que o perdão não é um sentimento, é uma decisão fundamental para nossa evolução e reitero as palavras de Martin Luther King quando diz que aquele que é desprovido da capacidade de perdoar é desprovido da capacidade de amar. E digo mais: não é fácil como se parece ser empático com o ofensor e firmar compromisso com atos do perdão.

O perdão é definido nos dicionários como remissão de pena, de ofensa ou de dívida; desculpa, indulto. Na verdade, é um processo subjetivo que tem por finalidade cessar o ressentimento tóxico (dentre eles, o principal é a raiva e o sentimento de vingança) contra outra pessoa ou contra si mesmo, decorrente de uma ofensa percebida por diferenças, erros ou fracassos. Trata-se de uma habilidade que precisa de treino. E tem uma importância tanto na dimensão ético-religiosa quanto no enfrentamento de situações de mágoas e injustiças do cotidiano das pessoas. De acordo com os estudiosos do tema não existe ainda uma definição consensual do que seja o perdão. Do ponto de vista etimológico, o verbo perdoar origina-se do latim perdonum que significa dar ou entregar um dom completamente (per-donum) sem querer nada em troca. Neste caso, dar ou conceder clemência e tolerância àquele que comete alguma ofensa. Por outro lado, existem outros aspectos da perdoabilidade como a capacidade de auto perdoar-se e a capacidade de reconhecimento do seu próprio erro. A expressão “pedir perdão”, por exemplo significa aceitar ou pedir desculpas, reconhecer e se redimir em relação a algo de errado.

No tocante ao ato de perdoar, segundo Santana e Lopes (2012), existem pelo menos três linhas de estudo com algumas divergências sobre o tema perdoabilidade na tentativa de uma conceituação adequada. O primeiro ponto de divergência diz respeito a questão se o perdão é um fenômeno intrapessoal ou interpessoal. O segundo ponto investiga se o perdão está mais relacionado a abrir mão de pensamentos, sentimentos e comportamentos negativos ou se inclui também elementos positivos e por último, os estudiosos buscam respostas sobre  se o perdão é um evento extraordinário ou se trata de uma experiência comum no cotidiano das pessoas. Estes pontos são interessantes para entendermos a dimensão que envolve o tema perdão. Desta forma, podemos observar que em todos este pontos de divergências se a ideia de que perdoar envolve mais do que livrar-se dos aspectos negativos, a linha que separa o perdão da reconciliação pode ser muito mais tênue e conflituosa do que se pensa. A facilidade ou dificuldade de perdoar pode estar intrinsecamente relacionada ao um percurso que vai das violações muito intensas até as ofensas menores como injurias e insultos, assim como a motivação e resiliência do injustiçado.

De acordo com o professor Paulo Vieira (2017), quando você perdoa, automaticamente, assume a responsabilidade por como você se sente. Você recupera a sua força e reassume o pleno controle sobre seu destino. Perdão é para você e não para o autor da afronta pois perdoar é remédio para a cura da sua mágoa e não para a cura ou impunidade da pessoa que lhe fez sofrer. Perdoar é a paz que você aprende a sentir quando libera quem lhe fez mal. Ao perdoar você se ajuda a ter mais controle sobre seus pensamentos, além de obter melhora em sua saúde física e mental. Perdão é também se tornar uma pessoa feliz e não uma vítima sofredora. Perdão é uma escolha, uma decisão, uma restituição… É perdoando que se rompe as correntes do sofrimento e passa-se a dar passos livres na própria vida.

Na perspectiva psicológica, portanto, as definições do perdão trazem alguns aspectos essenciais como o reconhecimento de que a ofensa foi injusta, o direito de estar ferido, e a desistência de algo a que se tinha direito (cólera, ressentimento) em favor da magnanimidade do perdão. Neste sentido, Subkoviak et al. (1992), afirma que no processo do perdão podemos perceber: a dor de quem foi ofendido e que se pode traduzir em ressentimento; o direito a sentir ressentimento mas, também, a ultrapassá-lo; a resposta ao ofensor através da compaixão, sem a obrigação de o fazer. O perdão é interpretado, então, como a capacidade de ultrapassar a mágoa, o ressentimento ou a vingança que o ofensor merecia, através da compaixão ou da benevolência.

O fenômeno da perdoabilidade que é um processo gradual com fases distintas deve ser estudado com mais aprofundamento. A disposição para se permitir mergulhar neste processo do perdão significa crescer psicológica e espiritualmente a partir do sofrimento que nos foi infligido. Vários estudos científicos já comprovaram o quanto o ódio, a tristeza e a falta de perdão assolam nosso bem-estar psicossomático e a nossa existência como um todo. É importante ter consciência de que perdoar não é somente um ato de benevolência para com o outro, mas sobretudo de inteligência e maturidade emocional para consigo mesmo. Este raciocínio advém do fato de que é contraproducente continuarmos reverberando este mal de forma sistemática, pois muitas vezes aquele que causou um dano, sequer está lembrando do fato. Em outras palavras, o único prejudicado somos nós mesmos. Enright (2008) propõe um modelo de como é o processo do perdão, constituído de vinte etapas pelas quais as pessoas podem passar, divididas em quatro fases distintas: fase de descoberta, fase de decisão, fase de trabalho e fase de resultados e benefícios. Portanto, o melhor a fazer é trabalhar cada aspecto negativo das “injustiças da vida”, percorrer estas etapas – cada um, no seu tempo – para fechar feridas emocionais que, muitas vezes, estão latentes há anos.

O trabalho terapêutico constante das emoções tóxicas tem o poder de curar nossa vida, pois tiramos um peso das costas. O melhor a fazer por nossa saúde é, portanto, esquecer aquela raiva, trabalhar aquela tristeza, ressignificar algum acontecimento que nos foi direcionado consciente ou inconscientemente, posicionando-nos como agentes ativos do processo. Esta atitude de não-vitimização nos traz outra perspectiva diante do nosso sentimento de impotência, das nossas carências, frustrações e crises existenciais. Sendo assim, precisa ser trabalhada cada mágoa, culpa, ressentimento e descompensações, libertando-nos das amarras que impedem uma vida de qualidade. O perdão é um puro ato da subjetividade, um ato ético incondicional,  uma escolha livre e unilateral.  

Santana & Lopes (2012) concordam, também, que o perdão, citando Enright et al. (1998), é uma atitude moral na qual uma pessoa considera abdicar do direito ao ressentimento, julgamentos e comportamentos negativos para com a pessoa que a ofendeu injustamente, e ao mesmo tempo, nutrir sentimentos imerecidos de compaixão, misericórdia e, possivelmente, amor para com o agressor. De acordo com estes autores, o elemento primordial para se conseguir perdoar é enxergar o culpado ou transgressor com certa compaixão. E, na sua visão, o perdão é um processo que perpassa pelas esferas do comportamento, da cognição e do afeto. Já Worthington(2005), analisa o perdão enquanto um processo que inicia-se com uma decisão ou motivação e evolui até uma mudança emocional significativa por parte da vítima de crimes ou transgressões. E de acordo com Exline & Baumeister (2001), o núcleo do processo do perdão está em abrir mão das emoções negativas, pois perdoar implica em cancelar ou suspender um débito interpessoal.

“Os fracos não podem perdoar. O perdão é um atributo dos fortes”. – Mahatma Gandhi

“Eu te perdoo”. Essas podem ser as três palavras mais difíceis de serem ditas. Apesar de simples, carregam um peso enorme. Todos nós, de alguma forma, guardamos a nossa pequena cota de ressentimento em relação a algo ou alguém e  precisamos ser curados… A pessoa que permanece dia após dia presa no ciclo das recordações, nas garras do ressentimento e no ódio persistente em relação a um evento do passado ou determinada pessoa, desenvolve além da infelicidade um estresse crônico. A lembrança e o contato com o inimigo – pessoa que nos causou mal ou feriu – nos faz bater o coração de forma muito diversa do seu pulsar natural. Ninguém suporta viver por muito tempo dessa maneira porque não há emoção mais tóxica do que a raiva combinada com o ódio e o desejo de vingança.

Pois bem. Diante de qualquer tipo de violência ou ofensa, a grande questão que incomoda a qualquer um é como interagir com a pessoa que nos feriu ou causou alguma dor ou dano. Deve-se incriminar ou perdoar aquele que cometeu um crime grave; que traiu a confiança e o amor; que mentiu, cometeu um insulto ou uma injuria, que nos demitiu do trabalho deixando-nos numa situação difícil ou mesmo que violou algum direito nosso? Como se livrar de lembranças amargas e perdoar palavras duras e imerecidas acusações? A tendência de qualquer pessoa, a priori, é a revolta, a acusação, o menosprezo pelo infrator, atitudes precipitadas decorrentes daqueles pensamentos como: “não levo desaforo para casa”. Mas, diante desta situação é fundamental não julgar mesmo sendo vítima, tentar entender as circunstâncias a partir de várias perspectivas e não se deixar levar pelas emoções nocivas em relação a pessoa delituosa… O perdão, na verdade, é um ato de decisão difícil, um processo gradual e uma postura emocional comedida no qual estão em jogo questões subjetivas que perturbam a paz e tira o sono de qualquer ser ofendido. De acordo com Santana & Lopes (2012), há dois tipos de perdão: o decisional que envolve mudanças nas intenções do comportamento da pessoa que sofreu a afronta em relação ao transgressor; e o perdão emocional que se caracteriza pela substituição das emoções negativas por emoções positivamente orientadas. Quem tem dificuldade para perdoar evidencia um grau de neuroticismo elevado que limita, portanto, as suas possibilidades de amar.

“Aquele que é desprovido da capacidade de perdoar é desprovido da capacidade de amar. Há algo de bom nos piores de nós e algo de mau nos melhores de nós. Quando descobrimos isso, somos menos propensos a odiar os nossos inimigos” (Martin Luther King).

Nos relacionamentos que temos com tantas pessoas que cruzam o nosso caminho, magoamos e somos magoados. Somos grosseiros uns com os outros em vários momentos. Há uma mescla de sentimentos entre as pessoas que convivem num mesmo lar, no trabalho, no local onde estudam, no Templo religioso que frequentam e assim por diante. Enfim, o perdão é o ato de se desprender do ressentimento provocado pelas grosserias. Deve vir do coração, deve ser sincero, generoso e não ferir o amor próprio do ofendido. Não impõe condições humilhantes, tampouco deve ser motivado por orgulho ou ostentação. O verdadeiro perdão se reconhece pelos atos e não pelas palavras. Deve-se perdoar sempre infinitamente, pois precisamos de ser perdoados, também. Ninguém está imune destes enredamentos. Todos precisam ser perdoados e aprender a perdoar. Pois, de acordo com o modelo de perdão interpessoal proposto por Enright, dois dos passos significativos da perdoabilidade são os seguintes: percepção de que o próprio self já necessitou do perdão de outros no passado; e percepção de que não se está sozinho, ou não se é a única pessoa a lidar com a mesma ofensa.

Mas, é importante lembrar que o perdão não significa esquecer algo doloroso ou fingir que não aconteceu; não é necessariamente se reconciliar com o autor da afronta, pois existem muitas pessoas maquiavélicas e narcisistas; não é desculpar o mau comportamento da pessoa que causou algum dano; fechar os olhos aos erros dos outros; não é negar ou minimizar seu sofrimento; desculpar todo e qualquer erro; desculpar todo aparente deslize das pessoas; e permitir que os outros se aproveitem de nossa bondade. E é relevante entender que a mesma situação pode ter que ser perdoada várias vezes, pois é um processo gradual; que não existem pessoas que não merecem perdão; e a outra pessoa não precisa de pedir perdão para você perdoar.

“Perdoar significa deixar ir o passado” (Gerald Jampolsky).

E resumindo, é preciso não desaprender que o perdão é um ato de desapego, compreensão, humildade e amor. Se o amor não flui dentro de nós mesmos, isso significa que a nossa vida pode estar moribunda. Isso impede-nos de se relacionar bem com as pessoas e ter êxito na nossa existência. Desta forma, podemos reafirmar que precisamos estar atentos aos níveis de ressentimentos que são dignos de ser trabalhados pelo perdão como: a indiferença, a mágoa, o rancor, a raiva, o ódio, a acusação e a vingança. Todos estes sentimentos tóxicos guardados no nosso íntimo causa doenças psicossomáticas severas. Segundo Oliveira (2007), embora a vingança ou, ao menos, o ressentimento pareça o mais simples, há muitas razões para perdoar, ganhando o sujeito na saúde física, pois os sentimentos de cólera provocam um aumento de pressão sanguínea e prejudicam o coração; na saúde psíquica, pois o perdão liberta o espírito de pensamentos negativos povoando-os de pensamentos positivos e magnânimos; e ainda nas relações sociais, pois as emoções nocivas azedam as relações interpessoais, enquanto o espírito de tolerância e de perdão constroem a paz e a fraternidade. Diversas pesquisas científicas demonstram que perdoar (e ser perdoado) reduz a ansiedade, a depressão e a pressão arterial, promovendo também a auto-estima. Mas, sobretudo deve-se perdoar por motivo ético incondicional.

Não perdoar é, portanto, um sintoma, o sintoma da sujeição ao outro, e a incapacidade para remediar isso. Egidio T. Errico (Psicanalista Freudiano e Lacaniano de Salerno, Itália

Por isto, podemos asseverar que a falta de perdão das ofensas produz dano maior em quem está ferido do que naquele que feriu. Sem perdão não há cura das mágoas e ressentimentos. A doença interior só se complica, assim como, o bem-estar em geral da pessoa ressentida é seriamente afetada. É preciso haver decisão, habilidade de enfrentamento aos sentimentos perniciosos relacionados as ofensivas e mudança de perspectiva para não ficar preso eternamente nas garras dos ressentimentos e melindres. Pois, uma pessoa que alimenta o ódio e o rancor por causa de insultos denota falta de grandeza, suscetibilidade desconfiada e cheia de fel e, bem como, pouco aprimoramento moral, de acordo com as tradições ético-religiosas. A eliminação destes sentimentos nocivos são consideradas no âmbito religioso como “processo de apuro ou purificação espiritual”. Já para os estudiosos da psicologia da perdoabilidade, aquelas pessoas que não perdoam tem maior dificuldade em serem felizes, em estarem satisfeitas com a vida e em relacionar-se com os outros, podendo a dificuldade ou mesmo a recusa de perdão denotar alguns traços negativos ou mesmo neuróticos da personalidade.

  • 1- ______ A psicologia do Perdãohttp://www.amenteemaravilhosa.com.br, 2017;
  • 2- ______ O poder do perdão: descubra como ele pode mudar a sua vida http://www.psicologiaviva.com.br, 2018.
  • 3- Bueno, Emerson. O perdão não é um sentimento, é uma decisão, 2017;
  • 4- Gonçalves, Sara. Razões para perdoar, 2014;
  • 5- Oliveira, José H. Barros de. Perdão e Optimismo: abordagem intercultural. Faculdade de Psicologia e C.E., Univ. do Porto. Psicologia Educação e Cultura, vol. XI, nº 1, pp.129-146, 2007;
  • 6- Santana, Rodrigo Gomes; Lopes, Renata Ferrarez Fernandes – Aspectos Conceituais do Perdão no campo da Psicologia. Psicologia: ciência e profissão, vol.32, nº3. Brasília,  2012;
  • 7- Vieira, Paulo. Poder e Alta Performance. São Paulo: Gente. pp. 240 a 243, 2017.
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Câimbra do Escritor e as Implicações Emocionais

Você já se deparou, alguma vez, com um problema que não faz a menor ideia de como enfrentá-lo? Ou mesmo já se sentiu como uma pessoa estranha do tipo um mutante ou um Eduard, mãos de tesouras?  Pois é, diante de tanta dificuldade para escrever que é acompanhada de aleijão, dores, câimbras, espasmos e incômodos físicos cada vez mais embaraçosos e diante do desempenho insatisfatório e desfavorável da psicomotricidade fina em algumas tarefas específicas, assim como levando em consideração a necessidade de escrever devido a rotina da profissão, eu tenho pensado muito sobre esta minha condição de saúde que convivo desde a infância e duas circunstâncias são bastante evidentes e categóricas: a sensação de estar lidando com algo estranho que eu ainda não sei como enfrentar e o sofrimento psíquico  inusitado e recorrente desde o meu processo de alfabetização.

Outra realidade é bastante evidente nesta caminhada. É que eu sempre fiz muito esforço durante toda a minha vida para conviver com esta condição crônica de saúde conhecida como distonia focal da mão. E este enfrentamento tem se dado pelo fato de ter que fazer interface com a civilização da escrita,  pelo enorme desafio para conseguir se concentrar no intuito de manter a caneta firme numa postura ideal para escrever, pelo menos, algumas sílabas e, por fim, por ter que enfrentar as complicações e enredamentos emocionais relacionado a este transtorno neurológico incapacitante como:

  • Sensibilidade perspicaz a qualquer pedido ou demanda para escrever, pois esta solicitação ou necessidade passa a ser uma espécie de afronta, um tormento e uma ameaça;
  • Lamúria inteligível e irremediável, processo de enraivecimento e rancorização por tentar e não conseguir escrever;
  • Sentimento de desamparo e exclusão de um padrão social; 
  • Vergonha das mãos deformadas e das garatujas conseguidas com muito esforço;
  • Tendência ao retraimento, sentimento de desespero e insegurança, humor irritadiço;
  • Medo do lápis e do ato de escrever;
  • Busca de afirmação típica de Pessoas Especiais e consequentemente vulnerabilidade da autoestima;
  • Ceticismo ou reação constantemente negativa diante de qualquer tratamento; 
  • Mudança no nível de energia apresentando cansaço e exaustão com frequência, dentre outras. 

É importante salientar que estas evidências e contratempos que compartilho aqui são somente algumas características não-motoras que podem ser comuns e preponderantes a qualquer pessoa com síndrome da câimbra do escritor. Mas, na minha história de vida sempre estiveram me atormentado a todo momento variando de intensidade e de acordo com as ocasiões e épocas específicas da vida. 

Além disso, ainda tem um outro aspecto que interfere consideravelmente na dimensão  emocional de todos nós que vivemos com esta deficiência estranha. Você já foi vítima de comentários inconvenientes que subestima ou menospreza o teu sofrimento?  Pois é,  o sofrimento aumenta cada mais quando convivemos com os julgamentos manifestado pelas pessoas através de atitudes ríspidas, incompreensíveis e não condescendentes. Neste sentido, tenho escutado  palavras ou frases “de efeito” – que, na verdade, aborrece demais qualquer paciente com câimbra do escritor e desconsidera, deverasmente, sua condição de incapaz  – como as seguintes:

  • “Você precisa ser mais forte e resistir”;
  • “Você está criando uma situação para chamar atenção”;
  • “Existem pessoas em piores situações”;
  • “Você está apenas tendo um dia ruim”;
  • “Todo mundo fica cansado”;
  • “A gente faz muitas coisas com as mãos, elas não servem só para escrever”;
  • “Você precisa se divertir mais, fazer exercícios…”;
  • “Não pode ser tão ruim assim”;
  • “Você parece que gosta de sentir pena de si mesmo”.

Atitudes e palavras como estas, das pessoas em geral, podem revelar discriminação,  intransigência, indelicadeza, indiferença, desdém e dificuldade de lidar com a dor insuportável do semelhante de acordo com a situação. Todo aquele que não consegue se enquadrar num padrão social vigente, automaticamente, torna-se inconveniente e passa a ser visto como uma pessoa intolerável. Segundo com minha experiência, tais comportamentos nos enfraquece e nos faz, cada vez mais, perder as esperanças.  E, além disso, podem complicar ou perturbar ainda mais a condição da doença ou  impedimento corporal e a saúde mental do paciente que vive com a Síndrome da Câimbra do Escritor (distonia focal da mão).

Embora eu, geralmente, goste de valorizar as opiniões das pessoas sobre as questões que envolvam a minha vida, elas perdem totalmente o impacto quando se trata desta minha condição crônica de saúde. Para minha própria sanidade, tive que aprender a ser independente da opinião dos outros e viver a minha vida da melhor maneira que conheço e  da forma como fico mais à vontade, independentemente do que os outros pensam ou dizem.

A opinião de alguém sobre nós mesmos não precisa se tornar a nossa realidade. Encontrar alívio deve ser nossa prioridade número um. Não temos que agradar aos outros. Espero que familiares, amigos e colegas de trabalho nos respeitem por isso.   Tom Seaman,  escritor e paciente com distonia generalizada.

Desta forma, a minha luta para viver harmonicamente num padrão civilizatório, em que a escrita é algo natural e espontânea, tem sido cotidiana e nesta odisseia tenho percorrido caminhos muito duros e inflexíveis, pelo fato de, a todo momento, ser confrontado e demandado a escrever. E assim presumo que seja com todo paciente com distonia focal da mão ou membro superior, cada qual com sua peculiaridade. Mas, apesar de tudo, estou aqui sobrevivendo, de forma eremítica, as dificuldades e intempéries do cotidiano. Afinal, consegui estudar, ter uma profissão e, a todo momento, estar sobrevivendo e superando as limitações típicas da doença que me transformou numa Pessoa Especial com uma deficiência física estranha.

Assim sendo, mesmo diante de tanto dificuldade para se enquadrar na civilização da escrita e diante de tanto sofrimento psíquico, posso dizer que aprendi a desenvolver características psicológicas assertivas próprias da pessoa com deficiência como as seguintes: ter um olhar distinto e mais empático para com todos os seres, ter uma maior criatividade e percepção mais refinada do universo subjetivo,  ter uma maior tendência a superação das dificuldades e desenvolvimento de habilidades para compensar uma limitação, busca incansável para ficar melhor ou encontrar alívio,  assim como um padrão mais elevado de resiliência e invulnerabilidade.  Pois bem, tenho percebido que estas características subjetivas tem coexistido,  de forma paradoxal,  àquelas supramencionadas, tornando-me incomum e mais autoconfiante para lidar com as aflições oriundas desta situação. E tenho compreendido como é estranho e sinuoso tudo isto, pois, por um lado,  deparo-me com dificuldades extremas que precipita implicações emocionais fortes todas as vezes quando me esbarro com a necessidade de ortografar  e, por outro lado, defronto-me com habilidades notáveis como que para compensar o impedimento físico e suas complicações.3496ff2d435a74875f7db5409a56a3b7

Mas, mesmo assim, continuo sem saber como enfrentar, de fato, esta deficiência estranha em minha vida. Viver bem com distonia é um desafio, já que muitas vezes não dispomos de  conhecimentos e terapias  necessárias para nos dar um suporte adequado e nem tão pouco encontramos pessoas que possam nos ajudar efetivamente, pelo menos,  minimizando a gravidade da doença nos seus aspectos motores como a limitação física; não-motores como  as alterações das funções psíquicas tais como sensopercepção,  propriocepção,  atenção e  psicomotricidade; e, por fim, tendo uma melhor compreensão de suas implicações emocionais.

Neste aspecto, a importância de algumas instituições de pesquisa, estudo e grupos de apoio ao paciente da distonia pelo mundo afora tem trazido algum suporte e alívio do sofrimento psíquico e  possibilidades de elaboração subjetiva e compreensão interna das dores e tristezas do paciente com distonia.  É preciso que as pessoas se autorizem a sentir plenamente as dores das perdas e do fracasso. O fato de haver um imperativo de uma forma de escrever socialmente estabelecida  só faz com que o paciente se sinta mais culpado por não cumprir este ideal. Porque se a regra é escrever, então a câimbra do escritor é um desvio. E, portanto,  passa a ser socialmente vergonhoso, irritante e que causa constrangimento.  Daí, a relevância do acolhimento de parentes e grupos de apoio para o bem-estar de  todos nós que somos pacientes desta condição de saúde e  de deficiência excêntrica.

O grupo constitui um contexto enriquecido no sentido de proporcionar condições de prevenção e promoção da saúde, sensibiliza os participantes quanto às vivências emocionais, possibilita a expressão das tensões e sentimentos, amplia a percepção e estimula a criatividade. A técnica grupal também se mostra uma forma de intervenção para o cuidado com o sofrimento psíquico e pode auxiliar para a melhora das relações humanas.                                                                Cybele Carolina Moretto – Psicóloga.

Gerenciando os sentimentos associados à distonia

Atualmente, a distonia continua sendo uma condição difícil de tratar. Antes de tudo, chegar a um diagnóstico deste transtorno neurológico é um desafio para todos. Haverá inevitavelmente um processo de ajustamento que para muitos será angustiante. Muitos pacientes de distonia têm que continuar seus trabalhos e responsabilidades diárias e, ao mesmo tempo, tentar lidar com sua condição.  Nesta condição de saúde, as técnicas de dessensibilização sistemática pode ser uma alternativa para ajudar o paciente de distonia a enfrentar os estressores, sentimentos negativos e lidar com a doença em situações cotidianas. Pois, é importante estar ciente de que, embora as condições de saúde mental normalmente não causem distonia, pode haver uma relação importante em alguns casos entre distonia e condições de saúde mental, como estresse, depressão, ansiedade e sintomas do espectro obsessivo-compulsivo.

A dessensibilização sistemática é uma técnica de ajuda que consiste na evocação ou na repetição da vivência real de situações que consideramos ameaçadoras. De forma simultânea, é realizada uma terapia de relaxamento profundo para reduzir os estados de desconforto. Nessa técnica o paciente é treinado a desenvolver a serenidade, é colocado em contato com uma hierarquia de situações geradoras de ansiedade e é solicitado a relaxar enquanto imagina cada uma delas, assim o paciente atinge um estado de completo relaxamento, quando é exposto ao estímulo que provoca a resposta de ansiedade, como por exemplo ter que assinar o nome, mesmo com a limitação física provocado pela distonia da mão ou membro superior.

Por que a Dessensibilização Sistemática é útil para a Síndrome da Câimbra do Escritor?

A distonia é considerada um distúrbio neuromuscular e não psicológico. No entanto, viver com um distúrbio físico crônico, especialmente  como a distonia, que pode fazer você parecer diferente, pode às vezes dar origem a sentimentos de apreensão, ansiedade, medo, desesperança e desamparo. Além disso, como você provavelmente sabe, por experiência própria, a gravidade de sua distonia é frequentemente afetada por fatores psicológicos. Pense nas ocasiões em que esteve estressado e lembre como sua distonia parecia piorar. Quando você soube da natureza de seu transtorno através do diagnóstico, foi natural ter passado por fases como Estado de  Choque, Raiva (por que eu?), Desespero e Depressão. Mas, então a aceitação da doença deve seguir e ultrapassar estes estágios. A evolução através destes estágios pode levar algum tempo, mas você deve trabalhar positivamente em direção ao estágio de aceitar seu transtorno e ver como você pode contorná-lo em sua vida cotidiana. A Dessensibilização Sistemática, então, visa ajudá-lo a aceitar sua distonia e aprender a lidar com as situações difíceis de sua vida cotidiana, quando a distonia parece piorar ou quando você é confrontado com a dificuldade de escrever.

O processo de dessensibilização sistemática está orientado para enfrentar uma situação estressante de forma consciente, revivendo e expressando passo a passo o que você pensa e sente quando é exposto a aquilo que o estressa. O relaxamento vai produzir um efeito tranquilizante e o tempo vai fornecer ferramentas para que você possa adquirir um novo aprendizado, o que reduzirá o estado de angústia e estresse quando diante da limitação ou da impossibilidade de escrever quando a situação exige.

Esta técnica da Psicoterapia Behaviorista procura reforçar um comportamento aprendido de auto domínio, através da repetição, no ritmo que você considerar adequado e respeitando as suas emoções. Trata-se de desaprender as respostas negativas diante de uma situação estressante e de transformar a experiência. Para conseguir isto, é promovido um desenvolvimento de habilidades e recursos para controlar conscientemente as situações que acabam por ser angustiantes, como o ato de escrever. Neste caso, a memória cumpre o papel de recordar o novo aprendizado quando for necessário. Neste sentido, outra técnica similar é o Mindfulness que é um dos princípios da Yoga, do Tai-Chi-Chuan e práticas Taoístas; e por último, existe uma técnica baseada nos princípios da dessensibilização sistemática que se chama de Inoculação do Estresse que é um procedimento cognitivo-comportamental desenvolvido pelo psicólogo canadense Donald Meichenbaum.

O que a Dessensibilização Sistemática envolve?

Geralmente, um paciente com Câimbra do Escritor ou qualquer tipo de distonia pensa assim:
“Eles vão pensar que eu pareço bizarro”.
•”Minha vida está arruinada.”
•”O que eu fiz para merecer isso?”
• “Eu não posso mais tolerar essa dor”.
• “Meu futuro é impossível”.

Na verdade, o que uma pessoa pensa ou diz para si mesmo tem um efeito importante sobre como se sente e se comporta. As frases citadas acima são algumas das declarações autodestrutivas que você pode estar dizendo a si mesmo, sem estar ciente disso, o que interfere em seu funcionamento nas situações cotidianas, enquanto paciente da Câimbra do Escritor ou de outra distonia. Aprender a superar esses pensamentos negativos será um dos objetivos da técnica de dessensibilização. A maioria das pessoas tem que enfrentar e lidar com situações difíceis e estressantes no curso de suas vidas. O enfrentamento bem-sucedido de situações estressantes ou ansiolíticas envolve várias etapas. Qualquer que seja a situação de produção de estresse (por exemplo, escrever em público, assinar seu nome, folhear um livro, cortar as unhas, contar cédulas), você pode se ajudar em cada um desses estágios usando as técnicas deste processo terapêutico.

Uma forma simples da técnica que você pode aprender para ajudá-lo a lidar com situações estressantes da distonia focal do membro superior é a identificação dos seguintes passos:

Identificar suas autodeclarações ou pensamentos negativos e substituí-los por outros  positivos que o prepararão para enfrentar o desafio da situação estressante.

Identificar os primeiros sinais físicos de apreensão, ansiedade e medo, que podem consistir em aumento da tensão em seus músculos, batimentos cardíacos, falta de ar, rubor, ‘frio no estômago’. Então, assim que você detectar esses sintomas físicos, procurar e buscar relaxamento físico usando o método da respiração diafragmática.

• Aprender a substituir o pensamento contínuo sobre eventos passados ​​e preocupar-se com o que pode acontecer no futuro, relaxando mentalmente através do uso de imagens agradáveis.

Durante os três estágios de lidar com uma situação estressante descrita acima, você deve aprender a perceber quaisquer pensamentos autodestrutivos que entrem em sua mente e os sinais físicos de apreensão ou ansiedade que a acompanham. Você deve usá-los como um lembrete ou “campainha” para usar uma conversa interna positiva, fazer respiração diafragmática e pensar em imagens agradáveis ​​para ajudá-lo a lidar com a situação estressante. Em suma, fazer uma lista hierárquica de pensamentos ansiosos, identificar qual parte do corpo fica tensa e aplicar relaxamento muscular relacionando os pensamentos estímulos de ansiedade e estimular uma reestruturação cognitiva.

Eis a técnica em si!

O efeito de pensamentos autodestrutivos e autoafirmações negativas sobre como você pode avaliar situações estressantes e como isso afeta a gravidade de sua distonia, sua atitude em relação a seu transtorno e como você se sente e age pode ser mostrado através dos seguintes passos:

• Ativação ou criação de um evento ou situação estressante. Nesta primeira fase, cria-se um situação e desenvolve-se habilidades de confronto com o objetivo de ajudar o paciente a entender  o problema e seus efeitos nas emoções e comportamento. Um exemplo pode ser escrever na frente de estranhos.

• Crenças não assertivas significa a cadeia de pensamentos e autoafirmações que passam pela sua mente em reação a situação estressante. Um exemplo disso pode ser o pensamento “Ele vai pensar que pareço estranho”.

• Consequências que significa as emoções e comportamentos que resultam da minha crença ou pensamentos.

Pensamentos negativos e autoafirmações podem se tornar tão automáticos e habituais que você nem os percebe e muito menos os seus efeitos em sua distonia e como você geralmente se sente e se comporta. Então o primeiro grande passo é se tornar consciente deles. Você pode fazer isso ouvindo-se com uma espécie de “terceiro ouvido”. Ao pegar-se pensando negativamente e, assim que puder, escreva esses pensamentos em uma folha de papel para que você não os esqueça. Esse ato de auto monitoramento, ou de escrever seus pensamentos negativos em um bloquinho de papel, o treinará para se tornar um bom ouvinte para o seu “diálogo interno”; é o que você pensa e diz para si mesmo. As autoafirmações ou pensamentos negativos podem estar relacionados a diferentes aspectos de você como pessoa, seu futuro, reações de outros à sua distonia.

Agora trago alguns pensamentos gerais não assertivos relacionados a sentimentos para exemplificar o primeiro processo que é Ativação ou confrontação de um evento ou situação estressante.

  1. Raiva – Pensamentos de ser vítima e  punição como:  “Por que eu?”, “O que eu fiz para merecer isso?”
  2. Ansiedade Social – Pensamentos sobre o que os outros pensam de você como: “Eles pensam que sou estranho”, “Eu vou perder o controle e me fazer de bobo”
  3. Auto-estima – Pensamentos sobre você enquanto pessoa como: “Eu sou bom para nada”; “Eu não posso fazer as coisas mais simples para mim mesmo”
  4. Desamparo –  Pensamentos de ser incapaz de lidar como: “Eu não posso mais tolerar essa dor”, “O que acontecerá comigo se não houver ninguém para cuidar de mim?”
  5. Desesperança – Pensamentos sobre o futuro como: “Eu não tenho futuro com essa desordem”, “Minha vida está arruinada”.

O segundo passo, depois de ter identificado e escrito suas autoafirmações negativas, é examiná-las de perto e logicamente revisar, aprender e treinar estratégias de confronto. Essas estratégias vão  permitir ao paciente abordar as situações geradoras de estresse que foram detectadas na primeira fase. Você provavelmente descobrirá que a maioria dos pensamentos negativos ou autoafirmações são baseadas em suposições erradas e raciocínio “preto e branco”. Por exemplo, a  autoafirmação “Ele vai pensar que pareço estranho” é baseada em uma série de suposições erradas. Estas suposições erradas estão baseadas nas seguintes questões: 1) Você pode prever o que as outras pessoas pensam? 2) Outras pessoas irão julgá-lo apenas com base em como você escreve? 3) O seu valor como pessoa é determinado pela forma que outra pessoa pensa sobre você? 4) Você deve ser aceito e amado por todos que conhece?

O terceiro passo importante, depois de ter examinado de perto seus pensamentos negativos e descoberto que eles se baseiam em suposições erradas, é substituí-los por afirmações positivas alternativas ou pensamentos assertivos e construtivos que você poderia usar para ajudá-lo a lidar com situações estressantes. Pense em autoafirmações positivas e assertivas que sejam apropriadas à situação e que sejam significativas e convincentes para você. Repita as autoafirmações positivas para si mesmo com força e convicção, e com o tempo elas irão deslocar seus pensamentos negativos. Por exemplo, o pensamento negativo “Ele vai pensar que pareço estranho” quando encontro um estranho pode ser substituído pela autoafirmação positiva “Vou explicar o que o meu problema de distonia é para ele.” De forma semelhante, você pode exercitar ‘falar para você mesmo’ quando estiver diante de uma situação estressante, usando uma conversa assertisa apropriada. O objetivo desta etapa é, então, colocar em prática as estratégias aprendidas em situações reais, comprovar a utilidade das habilidades adquiridas e corrigir os problemas que vão surgindo durante o processo de exposição ao problema que no nosso caso é o ato de escrever com limitação corporal.

Na verdade, o paciente com Síndrome da Câimbra do Escritor não deve escrever,  pois o ato de escrever é um desrespeito a sua limitação e deficiência, é uma violação de direitos e, na verdade, é um insulto a sua pessoa. É a mesma coisa que pedir para um cadeirante dar uma carreira de qualquer distância entre dois pontos. Mas, nas situações em que o paciente precisa escrever onde precipitam estresse com sentimentos e pensamentos negativos latentes e em situações de comprometimento da saúde mental típicos desta doença/deficiência é necessário a prática de técnicas como a Dessensibilização Sistemática e práticas Taoístas, da Yoga e da medicina chinesa como a acupuntura. Neste aspecto, estas técnicas apenas alivia o sofrimento emocional como os medos e a ansiedade oriundos da exposição ao ato de escrever, o medo do lápis e da caneta; e busca o relaxamento muscular, a reestruturação cognitiva e a possibilidade de viver melhor com a doença.  A doença continua sem cura e maltratando muito o paciente.

DEPOIS DA QUEDA, O COICE

Este é o título de uma música do álbum “Hey na na” (1998) da banda brasileira de rock Os Paralamas Do Sucesso que nos remete ao conhecido ditado português “além da queda, o coice”.  Esta expressão popular tem o significado de dois castigos ao mesmo tempo, quando ocorrem duas situações desagradáveis simultaneamente. Ela origina-se da situação em que o cavaleiro, além de ser derrubado da montaria ainda recebe desta um coice. E é muito comum na linguagem popular do nordeste brasileiro.

Este ano que está terminando me trouxe algumas coisas bacanas como boas amizades e conquistas importantes; ganho expressivo em conhecimento e experiência; amadurecimento pessoal e desenvolvimento da espiritualidade; e envolvimento nos serviços devocional e amoroso transcendentais. Assisti alguns filmes muito interessantes, li cerca de dez livros, escrevi alguns posts de blog, fiz três cursos de aprimoramento profissional, atuei veementemente na clínica psicológica e o mais significativo de tudo foi a publicação do ebookCâimbra do Escrivão: uma deficiência incomum” juntamente com Maristela Zamoner. Mas, apesar disso, eu diria que a frase que mais designa o ano de 2018 para mim foi exatamente esta: “Depois da queda, o coice”.

Isto porque tenho vivido e caminhado entre quedas e coices neste ano que termina agora. Neste sentido, ao mesmo tempo que atravessei o ano experimentando o amargor de pequenas injúrias e calúnias; atitudes maquiavélicas e inveja; alijamento social e assédio moral – às vezes, de forma grosseira e nítida e, às vezes, de forma subliminar e sorrateira –   enfrentei um revés financeiro penoso no trabalho e padeci, concomitantemente, de complicações árduas devido a minha doença neurológica. E como se não bastasse, fui vítima de um assalto a mão arma na sexta dia 30/11 onde levaram o carro da nossa família, celular e documentos pessoais. Contexto este que trouxe consequências severas, contratempos e complicações na minha vida. Eis, o coice! Eis, o selo do castigo!

Diante disto, paira no ar uma sútil atmosfera de estar bem rende ao precipício, usando as palavras de  Herbert Viana nesta sua belíssima canção. Sinto que a dor virou meu vício diante de tanta aflição e de tanto açoite. Tenho me perguntado: será que são provações, expiações ou meros pesadelos…  Diante de tanto martírio e tanta fragilidade, eu não compreendo, não acho relevante e não importa a explicação… Só sei que, infelizmente, eu não sou o único privilegiado destas situações inconvenientes e perniciosas neste mundo material.  Este é o cotidiano de toda as pessoas que a todo instante estar susceptível a ser vítima de todo tipo de violência e sofrimento no seu dia a dia como o roubo, a cobiça, a falsidade, a descortesia, a traição, a trapaça, o infortúnio, a desavença, a vaidade e uma infinidade de princípios irreligiosos ou não bramânicos como afirma o Srimad-Bhagavatam.

Neste aspecto, é preciso entender que todos os movimentos de nossa vida nada mais são do que um espelho do nosso passado, de acordo com os grandes eruditos do yoga. Através do karma, a dinâmica lei da ação e reação, o cosmos exerce sobre nós sua profunda pedagogia, permitindo que possamos nos deparar com os nossos velhos enganos e corrigi-los. Desta forma, por trás de todo incidente negativo, de toda situação desagradável e lamentável, existe uma valiosa lição, esperando para ser descoberta e aprendida. Portanto para a tradição espiritual do yoga todos aqueles que de alguma forma nos prejudicam, traem nossa confiança e nos decepcionam são apenas agentes do nosso próprio karma. Um verdadeiro yogi sabe que todos os adversários externos são apenas projeções de suas próprias falhas internas e que seu maior esforço deve residir em combater sua própria ignorância, vícios e falta de misericórdia. Nós atraímos energias por magnetismo que sintonizam com energias profundas do nosso psiquismo ou do nosso passado imortal para que sejamos curados das nossas máculas. Eis o que se intitula de resgate de dívidas de uma entidade comprometida!

Sempre que está aflito ou passa dificuldades, o devoto sabe que o Senhor está tendo misericórdia dele. Ele pensa: “ por causa das minhas más ações passadas, eu deveria sofrer muitíssimo mais do que estou sofrendo agora. Portanto, é pela misericórdia do Senhor Supremo que não estou recebendo todo castigo que mereço. Pela graça da Suprema Personalidade de Deus minha punição é pequena”.
Por isso, ele é sempre calmo, quieto e paciente, apesar de muitas condições aflitivas. (…) Srila Prabhupada, no significado de O Bhagavad Gita 12: 13-14.

Aqui está o ponto chave e o outro lado da moeda. Exercitar a misericórdia e compaixão por estas pessoas que estão cheias de maldades através de suas atitudes para conosco nada mais é do que ter uma atitude nobre e transcendental em relação a elas que, devido a suas ações condicionadas e contaminadas pela energia nociva e perniciosa, estão cada vez mais aumentando seu enredamento  no cativeiro da plataforma material: um enredamento pecaminoso e kármico  horripilante. E mais ainda, de acordo com o Evangelho Segundo o Espiritismo, nas instruções do Capítulo VII, devemos ser indulgentes para com as injustiças e faltas dos homens, devemos suportar com coragem as humilhações e calúnias das pessoas, pois desta forma seremos humildes e agiremos com benevolência.

“Nunca enganes a ninguém. A vida é grande cobradora e exímia retribuidora. O que faças aos outros, sempre retornará a ti.” Divaldo Franco pelo Espírito Joanna de Ângeles.

Mas, como estou no mundo material num processo de busca para alcançar a plataforma espiritual da autorrealização, confesso que tenho sorrido a contragosto, pois o meu sentimento é de desalento… A história tem se repetido, onde vivencio falta amor e de bondade, de forma persistente, na civilização pós-moderna. A crueldade humana, o ódio, os interesses egoístas, a soberba, a falsidade, a falta de respeito, a dissimulação e a vida de aparências, como em épocas remotas, imperam a minha volta. Cenário denso que tem me assustado… Ainda estou aprendendo sobre a melhor maneira de como lidar com tudo isso.  Nas marcas do meu rosto e do meu corpo estão o cansaço, o desânimo e a desilusão depois de tanto lutar e só levar topadas e coices. As minhas mãos tremem, não só por causa da doença, mas devido a constatação de tanto desamor e indiferença; de tanta miséria existencial maquiada por diversas formas. Mas, apesar de tudo, estou vivendo e procurando encontrar forças para se erguer e seguir em frente. Afinal, depois da noite de tanto dissabores, aborrecimentos e desgostos sempre vem a expectativa refletida na luz de um outro dia. Nas voltas da vida, percebo que as relações humanas nos espaços sociais são um imenso laboratório espiritual e psíquico que nos permite desenvolver-se e aperfeiçoar-se quando nos permitimos e nos esforçamos para tal.

Até cortar nossos próprios defeitos pode ser perigoso. Nunca se sabe qual é o defeito que sustenta nosso edifício inteiro.    Clarice Lispector

Amós e as injustiças sociais

 

Quando eu vejo uma pessoa com intenção de se candidatar a um cargo político sempre me vem  a seguinte questão: “será que esta pessoa está interessada, realmente, no bem-estar e na comodidade da sociedade, no desenvolvimento humano e na administração do serviço público em favor da população ou preocupado meramente com interesses particulares como  obter benefícios e oportunidades de crescer em termos de poder, riqueza e domínio?”. Neste sentido, podemos dizer que a ganância e desejo pelo poder; a corrupção; as diferenças sociais; a luta contra o domínio hegemônico de ideologias dominantes; os privilégios e distinções não são realidades exclusivas de hoje. Na época do profeta Amós já existia tudo isso que estamos vivenciando hoje no nosso país e muito mais: tribunais a favor dos ricos, discriminação, carestia, cobrança de impostos exorbitantes, avareza, vida de luxo e ostentação as custas da exploração da população mais carente e desprovida…  Na verdade, quem envereda nesta seara deve fazer uma reflexão dos seus reais propósitos dentro de uma perspectiva ética. Não dá mais para acreditar em tanta farsa e invencionice! Este modelo de política que representa classes, grupos, conveniências precisa ser repensado. 

De acordo com os historiadores, por volta do ano 760 A.C., o profeta Amós que era um vaqueiro, agricultor e cultivador de sicômoros  (um fruto comestível) vivia em Teqoa (Técua), nos limites do deserto de Judá, perto de Belém passou a ser considerado o profeta em favor da minorias e contra as injustiças cometidas pelos governantes da época. Este homem simples conhecido como um dos profetas menores residia neste povoado que ficava situado a menos de 20 km ao sul de Jerusalém.  Indignado com tanta injustiça na região, ele deixou sua vida tranquila e foi anunciar e denunciar as injustiças sociais cometidas contra os mais pobres e mais fracos, durante o reinado de Jeroboão II  no Reino de Israel Setentrional (787-747 AC) e no Reino de Ozias em Judá (781-740 AC), que existiam já naquela época. De acordo com a literatura sagrada, naquele período, um leão começava a rugir: era o divino que colocava em polvorosa todo um regime de iniquidades.

Menos de um século antes da missão, ensinamentos e pregações de Amós, tinha acontecido no Reino de Israel Setentrional um golpe militar, promovido por um antepassado de Jeroboão II, o general Jeú, que, ao romper os acordos com os vizinhos, jogara o país em profunda dependência, especialmente, da grande rival Damasco, que era governada pelos Arameus. O Reino de Israel Setentrional levou muito tempo para recuperar a sua autonomia. E isto começou com o rei Joás, pai de Jeroboão II, que governou entre 797 e 782 AC. Conta a história que o reinado de Jeroboão II (783 – 743 AC) ao se recuperar da ditadura militar tornou-se uma época aparentemente gloriosa para o Reino de Israel Setentrional que ampliava seus domínios e enriquecia, entretanto, o sistema administrativo, o que provocou a concentração da renda nas mãos de poucos privilegiados com o consequente empobrecimento da maioria da população e endividamentos dos pequenos agricultores. Estes ficavam tão endividados que chegavam à escravidão para pagar suas dívidas. Os tribunais, que teoricamente deveriam defendê-los da exploração dos mais poderosos, bem pagos por quem podia, decidiam sempre a favor dos ricos.

Nesse contexto, o luxo dos ricos insultava a miséria dos oprimidos e o esplendor dos cultos disfarçava a ausência de uma religião verdadeira. O que não é diferente de hoje com a ostentação dos templos e a ambição pelo poder e riqueza do homem pós-moderno. Desta forma, Amós denunciava essa situação com a rudeza simples e altiva e com a riqueza de imagens típicas de um homem do campo. A palavra de Amós incomodava porque ele anunciava que o julgamento de Deus iria atingir não só as nações pagãs, mas também, e principalmente, o povo escolhido já que se consideravam pessoas corretas, honradas e de bons costumes religiosos, mas na prática era pior do que os pagãos. Amós não se contentava em denunciar genericamente a injustiça social, ele denunciava especificamente:

  • Os ricos que acumulavam cada vez mais, para viverem em mansões e palácios (3:13-15; 6:1-7), criando um regime de opressão (3:10);
  • As mulheres ricas que, para viverem no luxo, estimulavam seus maridos a explorar os fracos (4:1-3);
  • Os que roubavam e exploravam e depois iam ao santuário rezar, pagar dízimo, dar esmolas para aplacar a própria consciência (4:4-12; 5:21-27);
  • Os juízes que julgavam de acordo com o dinheiro que recebiam dos subornos (2:6-7; 4:1; 5:7.10-13);
  • Os comerciantes ladrões e os atravessadores sem escrúpulo que deixavam os pobres sem possibilidades de comprar e vender as mercadorias por preço justo (8:4-8).

No livro de Amós, podemos ver denúncias contra as nações vizinhas como Damasco, a nordeste; Gaza, no oeste; Tiro, a noroeste; Edom, a sudeste e Amon e Moab no leste, por suas crueldades entre si e até mesmo, o mais extenso deles, contra Israel. Há, também, nos seus discursos, reprovações contra Judá e Israel, por sua idolatria e alienação coletiva. E ainda, podemos ver nos capítulos de 3 a 6 condenação a Israel por sua hipocrisia, a injustiça social, o orgulho e as falsas promessas de segurança da população.  Tudo isto se parece com o nosso contexto atual? Comportamentos político-sociais como ditadura militar, apropriação indébita e peculato, propina, enriquecimento ilícito, mentiras, interesses, partidarismo são peculiares ao tempo de hoje ou já era um costume característico desde aquele época remota?

Se as pessoas ricas de hoje construíssem como as pessoas do tempo do profeta Amós, certamente os elefantes já estariam extintos. Um sinal de riqueza era ter decorações com marfim nas paredes em suas casas. Amós 3.15.

Pois é. De acordo com Dionísio Pape,  os crimes de Israel apontados por Amós, uma pessoa simples, sem interesse de enriquecer através de cargos políticos são os seguintes:

  • “Vendem o justo (tsaddîq) por prata”: desprezo ao devedor; “E o indigente (‘ebyôn) por um par de sandálias”: escravização por dívidas ridículas;
  • “Esmagam sobre o pó da terra a cabeça dos fracos (dallîm)”: humilhação/opressão dos pobres;
  • “Tornam tortuoso e injusto o caminho dos pobres (‘anawim)”: desprezo pelos humildes;
  • “Um homem e seu filho são levados à mesma punição”: opressão dos fracos (das empregadas/escravas);
  • “Se estendem sobre vestes penhoradas, ao lado de qualquer altar”: falta de misericórdia nos empréstimos;
  • “Bebem vinho daqueles que estão sujeitos a multas, na casa de seu deus”: mau uso dos impostos (ou multas).

Amós, com os termos tsaddîq (justo), ‘ebyôn (indigente), dal (fraco) e ‘anaw (pobre), designa as principais vítimas da opressão na sua época. Sob estes termos Amós aponta o pequeno camponês, pobre, com o mínimo para sobreviver e que corre sério risco de perder casa, terra e liberdade com a política expansionista de Jeroboão II. É em sua defesa que Amós vai profetizar:  “ouvi esta palavra vacas de Basã, que estais no monte de Samaria, que oprimis os pobres, que quebrantais os necessitados…”. O apelo por justiça é o tema mais conhecido deste livro, porque evidencia a condenação de Deus aos que ficaram ricos através da corrupção. A partir desse contexto  é difícil dizer-se cristão, não é? Onde é que fica o exemplo prático? Enriquecendo às custas dos impostos da população tão indefesa? Discriminando os mais fracos e excluídos? Roubando, mentindo, disseminando o ódio, a falta de compaixão, a tirania, etc.? Mentiras e mais mentiras…   Para ser eleito e não perder as regalias, vale tudo! Considerando este contexto, fica muito difícil dar crédito aos discursos e promessas de pessoas candidatas a cargos políticos diante de tanta ganância, alianças ambiciosas, falta de honestidade, politicagem e manobras maquiavélicas. Aqueles eram tempos tão difíceis e sombrios quanto os de hoje? Parece que tudo se repete num novo formato.

De tanto ver triunfar as nulidades; de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça. De tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar-se da virtude, a rir-se da honra e a ter vergonha de ser honesto.  Rui Barbosa

Todas estas características dos governantes da época de Amós delineiam o homem não virtuoso na perspectiva socrática que é aquele caracterizado como indecente, corrupto, corrompido e desonesto. Para Sócrates as pessoas deveriam concentrar os seus esforços em serem virtuosos para si mesmos, seus familiares, amigos e para a comunidade a que pertencem, pois, a virtude deve ser conquistada também por todo o grupo humano, pela polis. Assim, segundo o filósofo, a melhor forma do homem virtuoso viver é esforçando-se pelo desenvolvimento da sua razão e do seu conhecimento e não buscando somente riquezas materiais que geralmente desviam o homem do caminho da virtude. Segundo ele, a virtude, portanto, é o bem mais precioso que a pessoa pode ter. 

O homem virtuoso, na minha opinião,  deveria ocupar todas as esferas da sociedade e principalmente a política. Nesta perspectiva, viveríamos numa sociedade mais harmoniosa, mais igualitária e justa,  menos egoísta e que garantisse os direitos humanos de todos.  Um político virtuoso e humanitário seria, portanto, antônimo do conhecido “politiqueiro” e um cidadão de bem seria aquele não corruptível! Esta é a ideia primordial e o grande desafio. Mas para isto, é preciso avançar nos valores morais, na qualidade das relações pessoais e conduta do homem na sociedade; na mudança deste contexto degradado das instituições  como a política que mais parece um balcão de negócios desabonando a dignidade humana, no zelo pela coisa pública, pelo Bem Comum (?), visando o desenvolvimento da comunidade em detrimento dos interesses particulares e, enfim, não permanecer na repetição dos mesmos padrões ancestrais de modelos primitivos de vida.

E para que isto aconteça é imprescindível o envolvimento de todos na construção de uma vida melhor e próspera para todos. Segundo o jornalista Sebastião Nery, só a participação  consciente da sociedade pode exigir políticas públicas fundadas na construção de uma realidade mais justa e com oportunidades iguais para todos. Todos que fogem da política e do supremo ato de lutar pelo interesse comum, garantem a sobrevivência e vida longa para os dilapidadores do interesse público.

“As funções públicas não podem ser consideradas como sinais de superioridade, nem como recompensa, mas como deveres públicos. Os delitos dos mandatários do povo devem ser severa e agilmente punidos.” Robespierre (1793).

Bibliografia:

ALMEIDA, João Ferreira de.  Bíblia Sagrada. Versão Revista e Atualizada.  2ª edição. Sociedade Bíblica do Brasil. 2008. Barueri  – SP;

PAPE, Dionísio. JUSTIÇA E ESPERANÇA PARA HOJE: A Mensagem dos Profetas Menores.  Primeira Edição. ABU EDITORA. 1982. São Paulo – SP.

 

O que me resta…

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Nestes últimos tempos, percebo a piora considerável da doença. No desejo de adiantar o serviço no meu trabalho, tento escrever…  Mas, não consigo fazê-lo, mesmo depois de tanto esforço e tanta paciência.

O que me resta, então, são sentimentos desagradáveis, desconcertantes, desesperadores…

O que me resta é pedir ajuda aos colegas de trabalho por causa deste embaralho.

O que me resta é esperar que alguém me empreste a mão, que me dê uma mão.

O que me resta é a decepção, a frustração, a limitação…

O que me resta é entender que esta é muito mais que uma doença; é, sem dúvida, uma sinistra deficiência.

Nesta efervescência causada pela percepção de uma mão defeituosa, lembro-me, de sobressalto, de um comentário feito por uma amiga da Comunidade Distonia, há algum tempo atrás:

Ai, ai, ai… fazia tempo que não me sentia tão angustiada! Isto é terrivelmente frustrante!
Pedir para um paciente de distonia escrever deveria ser considerado crime!

Nunca vi algo com a magia de desconcertar e desalinhar tanto como esta aberração chamada de “Câimbra do Escrivão”.

Tríade obscura

De vez em quando, eu dou de cara com pessoas que tem tendência a comportamentos cuja as características são a esperteza e a manipulação. As primeiras questões que vem a minha cabeça, de imediato, são as seguintes: por que motivo as pessoas se deixam levar por energias tão nocivas e perigosas? E por que colocar a pessoa ou colega numa situação difícil para atingir um objetivo? Não seria isto maldade extrema ou mesmo falta de amor?

Incomodado com este tipo de atitude, na tentativa de compreender fiz uma pequena pesquisa e descobri um artigo interessante publicado no site “A mente é maravilhosa” que enquadra este comportamento no que os autores chamam de tríade obscura.

Segundo o artigo, aqueles que não têm a capacidade de se conectar com os outros ou têm a capacidade de se desconectar deliberadamente das suas emoções podem fazer parte dessa tríade que é composta pelo:  narcisismo, maquiavelismo e psicopatia.

Delroy Paulhus e Kevin-Williams, psicólogos da Universidade da Colúmbia Britânica, foram os responsáveis ​​por batizar como tríade obscura a parte mais negativa das relações humanas. Para eles, nos casos mais extremos, os indivíduos que compartilham as características dessa tríade chegam a se transformar em criminosos ou se perdem no amplo espectro das doenças mentais. No entanto, é preciso estar atento e ter precaução com aqueles que tem esta tendência de comportamento ou transtorno psiquiátrico e convivem diariamente conosco, muitas vezes disfarçando. A manipulação do semelhante para benefícios e interesses próprios é considerada o lado mais sombrio e pernicioso das interações sociais, segundo estes autores.

Assim, as pessoas que apresentam tais traços e formas de comportamento são chamadas de personalidades obscuras por causa das suas tendências insensíveis, egoístas e malévolas nos seus relacionamentos com os outros. Para Helena Moura, membro da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP), “o maquiavelismo costuma ser normal entre os narcisistas, que manipulam para conseguir o que querem, geralmente admiração e superioridade, coisas mais subjetivas. O psicopata, ao contrário, quer vantagens materiais. São problemas difíceis de entender e diagnosticar porque não existe uma alteração biológica por trás desses transtornos, o que significa que também não existem medicamentos próprios para eles”.

Averiguemos, então, a caracterização desta tríade obscura cujas pessoas manipuladoras estão inseridas:

  O Narcisismo ou Pessoas narcisistas

“Tudo é permitido para mim” ou “Os outros só existem para me adorar”, são exemplos típicos de pensamentos dominados pelo narcisismo. São pessoas egoístas, com um sentido de direito egocêntrico e uma autoimagem positiva, embora pouco realistas se considerarmos a opinião das pessoas ao seu redor.

Os narcisistas são “encantadores de serpentes”. No início são muito queridos para os outros, seus comportamentos são agradáveis ​​e atraentes, mas com o passar do tempo, podem se tornar muito perigosos. Eles podem até, sem querer, mostrar quais são as suas verdadeiras intenções: obter mais admiração e poder.

Eles geralmente ficam entediados com a rotina, por isso procuram desafios difíceis. A maioria dos narcisistas procura uma posição de liderança, advocacia ou qualquer outra profissão que envolva altos níveis de estresse. De acordo com o psicanalista Michael Maccoby, o narcisismo é um distúrbio cada vez mais frequente nos níveis superiores do mundo empresarial e está diretamente relacionado com a competição, ao salário e o glamour.

Um dos seus pontos fortes é a grande capacidade de convencimento que possuem. Graças a isso, eles se cercam de um grande número de seguidores, são capazes de convencer sem fazer nenhum esforço. Em suma, conseguem sempre o que eles se propõem. Além disso, como não são empáticos, não são escrupulosos com os meios e as estratégias que utilizam para alcançar os seus objetivos.

O interesse e a preocupação dos narcisistas com os outros é zero, apesar da sua grande teatralidade. Eles não sentem remorso e são impassíveis às necessidades e sentimentos das pessoas ao seu redor.

Agora, o seu calcanhar de Aquiles é a sua autoestima. Os narcisistas, muitas vezes, têm uma autoestima muito baixa, que é acompanhada de uma vulnerabilidade interna e uma certa instabilidade. Por isso, geralmente procuram se relacionar com pessoas que consideram inferiores para exercerem o seu domínio e se sentirem poderosos.

O Maquiavelismo ou Pessoas  manipuladoras

Para os “maquiavélicos”, o fim justifica os meios, independentemente das consequências que possam surgir. Geralmente são pessoas muito calculistas e frias, destruindo qualquer tipo de conexão emocional verdadeira com os outros. Embora possuam traços em comum com os narcisistas, como o egoísmo e o uso dos outros, há uma característica que os diferencia: são realistas nas percepções e estimativas que fazem das suas habilidades e dos relacionamentos que mantêm.

Os “maquiavélicos” não tentam impressionar ninguém, pelo contrário. Eles se mostram como são e preferem ver as coisas claramente, porque dessa maneira podem manipular melhor o outro. Na verdade, eles se concentram nas emoções das pessoas que querem manipular para obter o que querem. Se conhecerem os seus sentimentos, será mais fácil escolher a melhor estratégia para manipulá-lo.

De acordo com o psicólogo Daniel Goleman, as pessoas com características maquiavélicas podem ter uma menor empatia com os outros. A sua frieza parece derivar de uma falta no processamento tanto das próprias emoções quanto das dos outros.

Na verdade, para eles as emoções são tão desconcertantes que, quando sentem ansiedade, geralmente não sabem diferenciar se estão tristes, cansados ou simplesmente não estão se sentindo bem. No entanto, possuem uma grande capacidade de perceber o que os outros pensam. Mas, como diz Goleman, “mesmo que a sua cabeça saiba o que fazer, o seu coração não tem a menor ideia”.

Confira nesse texto outras formas de identificar uma pessoa manipuladora e mentirosa e  nesse outro artigo  leia os tipos mais comuns de comportamentos maquiavélicos.

A psicopatia, a personalidade mais perigosa da tríade

Os psicopatas consideram as outras pessoas como objetos com os quais podem  jogar e usar de acordo com a sua vontade. No entanto, ao contrário das outras personalidades da tríade obscura, quase nunca experimentam ansiedade e até mesmo parecem ignorar o que significa sentir medo.

Segundo os psicólogos Delroy Paulhus e Kevin-Williams, a frieza do psicopata é extrema, por isso pode tornar-se muito mais perigoso do que as outras personalidades da tríade obscura.

Como não sentem medo, podem permanecer serenos mesmo em situações emocionalmente intensas, perigosas e aterrorizantes. Eles não se importam com as consequências das suas ações e são os melhores candidatos para se tornarem presidiários.

Os circuitos neuronais desse tipo de pessoas dessensibilizam o segmento do espectro emocional associado ao sofrimento. Por isso, a sua crueldade parece insensibilidade porque eles não conseguem detectá-lo. Além disso, o remorso e a vergonha não existem para eles.

No entanto, os psicopatas têm algumas facilidades para “se colocar no lugar do outro” e, assim, pressionar os botões apropriados para alcançar o seu objetivo. Eles são muito persuasivos. No entanto, esse tipo de pessoas, apesar de se destacarem na cognição social, caracterizam-se pela compreensão das relações e do comportamento dos outros apenas a partir de uma perspectiva lógica ou intelectual.

Como vemos, parece que o lado negro praticado pelos Sith em Star Wars não é tão irreal quanto pensávamos. A presença desta tríade obscura nos relacionamentos íntimos leva a maus-tratos através da violência psicológica. São personalidades tóxicas que estabelecem círculos de poder, controle, hostilidade e aprisionam mentalmente as suas vítimas.

O artigo do site termina sugerindo que a chave para não cair nas armadilhas destas pessoas é trabalhar a nossa independência emocional. É preciso, em primeiro lugar, saber estabelecer limites claros nos nossos relacionamentos e não permitir que ninguém os ultrapasse, pois nos protegermos deve ser a nossa prioridade em todos os tipos de relacionamentos.  Penso que as pessoas como as maquiavélicas são doentias por que não tem relações saudáveis. As pessoas que mentem, roubam, dão um jeitinho para se dar bem, usam o outro para se promover sofrem de problemas psicológicos da mais alta gravidade e não são pessoas virtuosas. É preciso, também, revermos nossa base emocional e moral que implica em avaliar como estamos lidando com os sentimentos, como estamos nos relacionando com o nosso semelhante e como estamos exercendo as virtudes.