Triste Época

Triste Époque é o nome de uma música do álbum “So What”, ano 2016,  de DUB Inc. A letra é muito interessante e retrata nossa condição atual nesta sociedade louca.

Mas como ficar insensível quando o mundo balança?
Quando o mal está na multidão de forma inequívoca?
Sem aumentar a pressão, ele se desenvolve,
E aqueles que têm dinheiro são os que tem voto!
Orgulhosos de suas convicções, duros como a pedra,

Todo mundo está em guarda, tudo pronto para chocar

Sombrio é o cotidiano, triste é o tempo,
Sombrio  é o cotidiano, triste é a hora!

Não acredito em tudo o que é dito, tudo o que se relaciona,
A cada uma de suas versões, a cada uma de suas verdades,
Alguns gostariam de guerra, alguns gostariam de esquecer,
Tudo o que nos reúne é todos os esforços de paz.
Quando tudo parece perdido, eles se certificam
Deixam tudo ficar confuso, deixam cada palavra ficar presa
Quanto mais a atmosfera estiver tensa, mais o homem ficará insano.

Mas como  manter a calma quando o mundo destrava?
Quando o mal está dentro da multidão de forma inequívoca?
Sem aumento da pressão, ele se desenvolve,
E aqueles que têm dinheiro são os que tem vez!
Orgulhosos de suas convicções, duros como a pedra,

Todo mundo está em guarda, tudo pronto para chocar

Sombrio é o cotidiano, triste é o tempo,
Sombrio  é o cotidiano, triste é a hora!

Entre o horror e os golpes de estado que você foge,
Uma terra violenta e condenada.
Entre a praga e a cólera que você é,
Pronto para desafiar a humanidade.
Entre o ódio e a ira, aqui,
Olhos no céu para guiá-lo.
Entre minhas rimas e meus pensamentos eu descrevo:
Um mundo de pessoas loucas e manipuladas.
Fanático você volta!
Agora que sua voz está aumentando, nós o ouvimos todos os dias.
Cada novo ataque que seus valores ganham terreno.
Todos  paranoicos quando o terror direcionar nossos destinos,
Sua luta não é minha.
Você deve sair deste porão,

O medo nos espera e nos divide.
Um tempo triste, amargo e vazio
E apesar do choque: permanecemos unidos.

Mas como ficar insensível quando o mundo destrava?
Quando o mal está dentro da multidão de forma inequívoca?
Sem aumentar a pressão, ele se desenvolve,
E aqueles que têm dinheiro são os que tem voto e vez!
Orgulhosos de suas convicções, duros como a pedra,
Todo mundo está de guarda, tudo pronto para chover,
Sombrio é o dia a dia, o tempo triste é o tempo,
Sombrio é o dia a dia, o tempo é triste!

Como soldado,
Defendo o verbo e o que o impulsiona,
A liberdade é um direito,
E você se recusa a desenhá-la,
Como você, eu corro uma légua!
Sobre a ignorância e seus crimes
As imagens permanecerão gravadas!

Prontos para fazer o que dizem, tire a glória,
O medo tem o estrangulamento, feche sua porta!
E o fogo que piora amplifica os estoques,
Loucos que dizem que não querem aceitar,
Todas as nossas diferenças, têm medo da liberdade,
Há apenas um significado, um caminho a seguir.
Você não terá chance se você não seguir suas ideias,
Deixe-me recusar, vou voltar a cantar!!!

Porque temos que ficar legal se o mundo desbloquear!
Venha falar com a multidão de forma inequívoca!
Quando nossos corações e almas estão em choque,
Eu ouço um amálgama, mas não me importo!
E apesar da pressão que nos rodeia
Devemos ficar juntos e bloquearmos!
Para alegrar o amanhã, vamos mudar a era,
Para alegrar o amanhã, vamos mudar o tempo!

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Falácia do Espantalho

A Falácia do Espantalho ou Falácia do Homem de Palha é um argumento em que a pessoa ignora a posição do adversário no debate ou discussão e a substitui por uma versão distorcida, que representa de forma errada esta posição.  A falácia se produz por distorção proposital, com o objetivo de tornar o argumento mais facilmente refutável, ou por distorção acidental, quando a pessoa ou debatedor que a produz não entendeu o argumento que pretende refutar.

Nessa falácia, a refutação é feita contra um argumento criado por quem está atacando o argumento original; não é uma refutação do próprio argumento preliminar. Para alguém que não esteja familiarizado com a proposição original, a refutação pode parecer válida, como refutação daquele argumento. Assim, comete-se a Falácia do Espantalho ou Homem de Palha quando se atribui a outrem uma opinião fictícia ou se deturpam as suas afirmações de modo a terem outro significado.

Segundo o site Your Logical Fallacy, o comportamento conhecido como o  Homem de Palha é uma das 24 mais comuns falácias lógicas argumentativas e podemos dizer que a falácia do Homem Espantalho é aquela típica da  pessoa que  desvirtua um argumento ou proferição sobre determinado assunto  para torná-lo mais fácil de atacar. Ao exagerar, desvirtuar ou simplesmente inventar um argumento de alguém, fica bem mais fácil apresentar a sua posição como razoável ou válida. Este tipo de desonestidade não apenas prejudica o discurso racional, como também prejudica a própria posição de alguém que o usa, por colocar em questão a sua credibilidade. Desta forma, se você está disposto a desvirtuar negativamente o argumento do seu oponente, será que você também não desvirtuaria os seus positivamente?

Um exemplo deste tipo de comportamento, de acordo com o site é: depois que João disse que devemos investir mais em saúde e educação, Carlos respondeu dizendo-se estar surpreso de que João odeia tanto o nosso país que quer deixá-lo desprotegido ao cortar o orçamento militar.

Outro dia, eu fui vítima no trabalho, de forma sistemática e sutil, deste tipo de falácia praticado por uma pessoa que para todos apresentava-se como amigável. Porém,  a todo momento, esta pessoa vivia deturpando e distorcendo minhas colocações e comentários; fazendo conclusões apressadas e irreais, com o objetivo de denegrir a minha imagem.  Eu ficava sempre pensando sobre este comportamento. O que estaria por trás disto? Qual o objetivo desta pessoa?  Descobri depois de “dá corda” e observar pacientemente. A princípio, digo que este tipo de comportamento, na verdade, é uma forma infantilizada e  agressivo-passiva de atacar. Em segundo lugar, é  um comportamento de uma pessoa que revela insegurança, inveja, imaturidade, desonestidade e interesse em prejudicar. Em terceiro lugar, são pessoas oportunistas, interesseiras e maldosas.  E   por último, pessoas com esta postura são muito comuns nas relações de trabalho e dentro da família. São conhecidas, também, como aquelas pessoas que colocam “palavras na sua boca” e praticam atos de má-fé com que se procura enganar alguém. Está relacionado a falsidade, superficialidade e indecência.

De acordo com a filosofia, falácia é uma palavra de origem grega utilizada pelos escolásticos para indicar o “silogismo sofistico” de Aristóteles. Segundo Pedro Hispano: “Falácia é a idoneidade fazendo crer que é aquilo que não é, mediante alguma visão fantástica, ou seja, aparência sem existência”. Desta forma, a falácia significa erro de raciocínio, seguida de uma argumentação inconsistente. Está relacionada também a mentira, engano ou falsidade.  Normalmente, uma falácia é uma ideia errada que é transmitida como verdadeira, enganando outras pessoas.

No âmbito da lógica, uma falácia consiste no ato de chegar a uma determinada conclusão errada a partir de proposições que são falsas. A filosofia de Aristóteles abordou a chamada “falácia formal” como um sofisma, ou seja, um raciocínio errado que tenta passar como verdadeiro, normalmente com o intuito de ludibriar outras pessoas. Assim, as pessoas que se utilizam deste aparato, procuram deturpar as colocações dos colegas de trabalho ou amigos para prejudicar, aniquilar e principalmente ter êxito, de forma desonesta, sobre alguma situação.

Na verdade, existem vários tipos de falácias e a Falácia do Espantalho é aquela que o sujeito  define um termo para favorecimento próprio, utilizando posições defendidas por um opositor(ou um colega invejado). Esta é muito utilizada pela maioria dos políticos, pessoas politiqueiras, babonas e invejosas. Pessoas que se sentem ameaçadas ou ressentidas em alguma situação e tem um padrão típico de imaturidade, crueldade e desonestidade no seu comportamento.  Nas palavras do senso comum, são pessoas que praticam a “baixeza”, ou seja,  aquelas que tem falta de elevação moral e de dignidade nos sentimentos. Enfim, estas não são  boas companhias; nem se quer de longe!

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O Renascido

The Revenant (O Renascido) ou em português “O Regresso” é um filme norte-americano de 2015 realizado por Alejandro González Iñárritu, escrito por Mark L. Smith e Iñárritu e foi baseado no romance homônimo escrito por Michael Punke. O filme, por sua vez, foi inspirado na história real de Hugh Glass e é estrelado por Leonardo DiCaprio, Tom Hardy, Domhnall Gleeson e Will Poulter.

De acordo com as sinopses, o filme é uma experiência cinematográfica imersiva e visceral que capta uma aventura épica de um homem por sobrevivência e o extraordinário poder do espírito humano. Em uma expedição pelo desconhecido deserto americano em meados de 1822, o lendário explorador Hugh Glass (Leonardo DiCaprio) é brutalmente atacado por um urso e deixado como morto pelos membros de sua própria equipe de caça. Numa luta constante para sobreviver, Glass resiste à dor inimaginável, bem como à traição de seu confidente, John Fitzgerald (Tom Hardy) que o abandona à própria sorte e ainda rouba seus pertences. Guiado pela força de vontade, amor pela própria família e desejo de retaliação por seu filho mestiço de uma relação com uma índia que fora assassinado, Glass teve que navegar um inverno brutal em uma incessante busca por sobrevivência e redenção.

Segundo a crítica, “O Regresso” não passa de mais uma história de vingança pessoal. Marcelo Janot diz que o filme é uma história que se divide em duas: a do homem testado até o seu limite pela natureza e a do sujeito em busca de vingança contra o seu algoz.

O que me chama a atenção aqui é a história do homem testado até o seu limite: a de Glass contra a natureza.

“O Regresso” mostra cenas fortes de sobrevivência extrema e resiliência. Gostei imensamente e recomendo assistir este surpreendente e bonito filme. Ao assisti-lo, fiquei impressionado e pensando sobre a nossa  educação deficiente que nos faz acomoda-se a uma certa zona de conforto. Esta educação repressora que nos aleija, nos deseduca para a vida, nos torna seres frágeis, com medo e sem a criatividade necessária para se defender e sobreviver as adversidades e dificuldades da vida.

Fiquei pensando nas pessoas conhecidas que surtam com tanta facilidade diante de Situações Não Extremas  como chegar em casa e dar de cara com alguma situação de pequenas e temporárias perdas como não conseguir acessar a internet, não ter o carro disponível ou a roupa lavada e comida preferida a seu dispor…

Fiquei pensando nas pessoas cheias de dengos acostumadas a uma vida de conforto e facilidades. São estas pessoas que diante de uma mínima dificuldade ou carência, se deprimem, se tornam histéricas e agridem todos, porque nunca souberam o que significa “passar por necessidades”.

Fiquei pensando em todos nós que estamos vivendo com distonia. Uma limitação imposta pela natureza que maltrata muito e nos deixa impedidos de viver normalmente. Uma doença que desafia o viver em certos aspectos; que requer muito esforço do paciente para se adequar as demandas da vida. Viver com distonia é uma luta contra a natureza, é uma sobrevivência ao limite…

As cenas do filme são impactantes. Um filme que mostra a sobrevivência à fome, à sede, ao abandono dos amigos, ao frio, à dor e aos ferimentos  intensos provocados por um ataque feroz de um urso. Sobrevivência a Situações de Limites Extremos…  Realmente, Hugh Glass renasceu! Ele vivenciou um contexto que poderia levá-lo a um desequilíbrio emocional e mental. Mas, teve uma capacidade resiliente imensa.

Tudo isto me fez refletir também sobre nosso estilo de vida cheio de condicionamentos, ilusões e dependências de tanta rotina e hábitos. Um estilo de vida que nos limita enquanto potencialidades e perspectivas. Que nos faz ficar presos as pequenas comodidades. Que nos torna limitados, acomodados,  sem criatividade e sem vigor para lutar, para improvisar…

Um estilo de vida que mesmo diante de situações de Limites Não Extremos nos faz perder a cabeça e a razão. Pequenas barreiras ou restrições que nos infantiliza e nos faz enlouquecer. Nós fomos erroneamente acostumados a viver uma vida onde pensamos que tudo e todos estão a nossa disposição e na hora que precisamos para atender aos nossos caprichos. Um simples obstáculo é suficiente para deixarmos sair um selvagem que agride, humilha e se desespera. Um selvagem ameaçado que ao invés de buscar superar as dificuldades como Glass, vive uma vida de covardia e de inércia…

A motivação de Glass para lutar destemidamente foi o comportamento de Fitzgerald, que faz parte do mesmo grupo mas sempre implica com Glass por causa da presença do jovem meio-índio entre eles, e a todo instante expressa palavras de ódio contra negros, índios e mestiços. Tanto é que chegou ao ponto de matar seu filho e abandonar o amigo  ferido. Enfim, a motivação de Glass foi, também, o instinto de sobrevivência.

Todos nós temos nossas razões e motivações. Mas, muitas pessoas preferem ficar no comodismo, no anonimato e na indolência: sem enfrentar as dificuldades impostas pela natureza e pela vida!

O Espelho do Homem

 

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No Dia Internacional do Homem – 19 de novembro, eu trago um  hino de Alex Polari  intitulado “O Espelho do Homem” que gostei muito. Ele problematiza com seu estilo lírico o comportamento masculino e sutilmente as relações de poder estabelecidas com o semelhante.

Para ser Homem é ser justo
Franco, leal e amigo,
Assim o Mestre mostrou
Esse tornou tão querido

 

Não é fácil ser homem
Se você acha que é
Lembrem  do  nosso modelo
Meu bom  Jesus de Nazaré.

 

Muitos pensam que Homem
É ser brabo e orgulhoso
Como se fosse virtude
De nos fazer mais viçoso

 

Alguns não mantiveram
Sinceridade com os outros
Fingem ser mais não são
E falam mal do irmão

 

Se disser e não for
Muito pior vai ficar
Quebrou com a palavra do Homem
Que Homem não pode Quebrar

 

Se você mexe com vício
Se arrepende mané
Que homem que se vicia
Um bom exemplo não é

 

Homem que é Homem se humilha
Pra na verdade estar,
E poder bem compreender
Aonde o Daime mostrar

 

Para ser Homem é ser justo
Franco, leal e amigo,
Assim o Mestre mostrou
E se tornou tão querido.

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Lembranças de um Diálogo Imperfeito

Uma vez uma colega que vive com distonia generalizada me disse que eu não devia me preocupar tanto pois a minha distonia focal não é tão devastadora quanto a dela. Segundo ela, a sua condição causa mais sofrimento psíquico e mais acanhamento devido às posturas bizarras e a complexidade da doença. Percebi que ela disse isto num tom de desprezo ao meu sofrimento, finalizando a conversa.

Eu até entendo este tipo de tendência e postura das pessoas de tentar aliviar o sofrimento de um amigo comparando a uma outra situação pior. Mas, eu entendo também que este é um comportamento defensivo e não acrescenta em nada. Muito pelo contrário, não considera o sofrimento do paciente ou amigo moribundo; não possibilita um diálogo, estabelece uma barreira e um silêncio. Esta atitude de não escutar e não apoiar, na verdade, abafa e cala todos os sentimentos e não possibilita uma interação.

A esperança de encontrar um apoio existencial, um calor humano é abolida abruptamente… Pois é, diante deste contexto me senti reduzido a uma nulidade, a um vazio, a um “não-ser”, pois a minha palavra e o meu sentimento não teve muita validade, não significou nada. Instalou-se, então uma relação de poder onde tive que   emudecer e não se estabeleceu mais nenhuma conversa.

A expectativa do paciente que vive com um distúrbio neurológico incapacitante como a distonia é encontrar este apoio e suporte para não sentir-se o único e neste sentido a Comunidade Distonia nas mídias sociais deve ser um sustentáculo afetivo para abrandar a consternação do paciente. Mas, neste diálogo obstruído, me deparei com o que Michel Foucault chama de uma micro relação de poder instituída compulsoriamente.  Estas relações de micro poder são comuns nas várias situações sociais e cotidiano das pessoas; e caracteriza-se, dentre outras, por uma postura não dialógica e uma descontinuidade do bate-papo que pode aumentar mais o sofrimento, o ensimesmar-se e o estado mórbido do paciente.

…ficou só a lembrança de um diálogo imperfeito!

Distonia – Minha companheira “Quasímodo”!

Um membro assíduo num grupo de apoio aos pacientes com distonia numa pequena cidade Alemã descreve aqui a sua vida com muito humor em relação à sua doença que é a distonia.

Ela compara a distonia a Laughton Quasímodo que é o personagem central do romance medieval “O Corcunda de Notre Dame” de autoria do poeta romântico francês Victor Hugo, publicado em 1831.

Quasímodo nasceu com uma notável deformação física: uma enorme verruga que cobre seu olho esquerdo e uma grande corcunda. De acordo com o livro, este personagem habita o campanário da Catedral de Notre-Dame, afastado da sociedade e temido pelos habitantes locais.

Na verdade, Quasímodo é um indivíduo monstruoso, é uma aberração. É bom frisar que ele não tem distonia. Mas, achei interessante a metáfora do colega que escreveu o texto abaixo. Ela faz uma relação com este personagem para falar de sua crise existencial com as posturas de um corpo com distonia.

Laughton Quasimodo

A.S. começa sua crônica com as seguintes palavras:

Antes de tudo, devemos ter uma maneira mais positiva e branda para conviver com as limitações…

Então … Vamos ver a doença de outra maneira, tá certo!

Atualmente, eu tenho um outro significado dela.

Para que você entenda logo é preciso ficar claro, antes de tudo, que:

Ela não é minha parceira e eu estou muito longe de  amá-la.

Mas eu vou tolerá-la, temporariamente.

Eu posso aceitá-la, por instantes.

Ela nunca vai me deixar, provavelmente. É extremamente leal e não tem nenhum interesse  de separar-se de mim.

A este respeito, ela  não me  fornece muita coisa boa.

Digamos, então eu tenho que me acostumar com isso…

Deve ser por que ela seja como  uma  companheira de vida grudada ao meu lado e provavelmente permanecerá para sempre. Que chato!

Um outro ponto é que ela precisa de um nome, é claro!

Minha parceira, eu  batizei de ”Quasímodo” porque ela garante que o meu corpo tenha posturas bizarras e de forma extremamente excêntrica, atípica e não natural.

Executa movimentos sem minha permissão.

Me faz sentir um vivo Quase morto…

Ninguém sabe de onde “Quasímodo” veio, mas ela já é uma Quase realidade, mesmo sendo uma quase raridade…

Também não se sabe a língua que fala.

Meu idioma, ela não fala de qualquer maneira.

Isto tem uma vantagem:  em um dia ruim com ela e sobre ela eu posso queixar-se sem que ela  entenda.

A desvantagem, no entanto, é que eu não posso argumentar com “Quasímodo”.

Não posso se comunicar. “Quasímod(a)” não é muito cooperativa e, portanto, não está interessada em aprender o meu idioma.

Assim, eu tento agora compreendê-la, Quase elegantemente, como língua estrangeira.

Uma vez que não tenho nem livros, nem  outros materiais de aprendizagem, eu faço apenas  progressos muito lentos.

Por conseguinte, levo provavelmente ainda um tempo considerável para tentar se comunicar com “Quasímodo”.

Pelo menos para mim, é tanto trabalho gasto  em vão que me faz sentir-se frustrado…

Conflitos vêm… Conflitos vão! Sinto-me só…

Será que meus esforços valerão a pena?

Finalmente,  a minha companheira de vida fiel irá provavelmente  sempre ficar comigo.

Como é importante que eu aprenda a se comunicar com ela – a distonia –  de forma  Quase perfeita.

Bem, se você tem uma inquilina com um tempo longo de vida dentro de você, ela tem direito a habitação.

Você tem que de algum modo organiza-se com ela  – mesmo se ela, como “Quasímodo”, seja cada vez mais intrusiva.

Portanto, faz sentido para o tempo ver se esta inquilina não é só irritante à vida,  mas, também, tenha algo que implica em  positividade.

Minha  “Quasímod(a)” é, de fato, em parte, uma desviante, uma incapacitante, uma Quase aberração, uma cadela tortuosa – mas ela também é uma professora.

Ela ensina a diferença entre a dor e o sofrimento.

Para entender melhor  ambos, ela abre uma perspectiva diferente sobre o mundo e a vida.

Essa é a coisa positiva da minha parceira.

Todo mundo tem que suportar seu burro (sua burra) de carga, talvez até mesmo vários…

Eu tenho outras burras de carga – além da minha  “Quasímod(a)”.

Mas, eu confesso que é, muitas vezes, desagradável ​​para mim mesmo

Afinal de contas, ela não quer perder o contato.

“Quasímod(a)” tem me causado dor, mas ela não  não me matou…

Eu repreendo e insulto   “Quasímod(a)”, mas eu ainda não a consegui eliminá-la.

Nós – eu e “quasímodo” – não podemos mesmo matar um ao outro, nós poderíamos apenas compartilhar e erradicar o que quer que seja…

Assim, nós preferimos fazer, a maior parte do tempo, uma conveniência ou ter um diálogo, mesmo que seja forçado,entendeu!

Acredito que nós – eu e minha companheira – provavelmente, nunca iremos ser amigos.

Quasimodo

A vida continua – mesmo com deficiência!   Foto de A.S.

Texto enviado pelo amigo Franz Kramer.   Tradução do alemão e adaptação:  HB – Eu mesmo.

A Boçalidade Nossa de Cada Dia

presumptionEu fico impressionado com o grande número de pessoas boçais na nossa sociedade. Estão em todos os espaços; família, trabalho, em casa e na rua. Parece que é uma epidemia de comportamentos rudes que incomodam e espalham venenos. A grande questão diante de tal boçalidade é a seguinte: O que estes comportamentos revelam? Uma atitude defensiva, uma imaturidade afetiva ou um transtorno de personalidade latente?

De acordo com os dicionários da língua portuguesa, boçal significa rude, grosseiro, imbecil ou ignorante. Na gíria brasileira, boçal é também aquele indivíduo exibicionista, esnobe e chato, que age com arrogância normalmente por ter melhores condições financeiras ou por se sentir superior aos outros. Um boçal demonstra pouca inteligência, nenhuma educação e falta de delicadeza em seus atos.

A expressão boçal era usada para designar os escravos negros, ainda não ladinos (nome dado aos escravos que já sabiam falar o português, tinham noções de religião e trabalhavam em algum ofício), recém-chegados da África e desconhecedor da língua do país. O sentido generalizou-se para o indivíduo sem instrução, sem cultura, ignorante.

Boçal também exprime algo que acontece sem sentido ou sem motivação. Uma situação estúpida, ridícula, boçal. A tradução da palavra “boçal” para a língua francesa é “grossier” que significa grosseiro e indelicado.

Como é chato e inconveniente conviver com pessoas boçais e sem um mínimo de humanização ou humildade. Alguém já ouviu falar na seguinte frase: “a(o) rainha(doutor) não pode ser incomodada(o) ou contrariada(o)”. Pois é, este é o típico boçal. Eu penso que este é um dos comportamentos doentios mais comuns no cotidiano das relações sociais na nossa sociedade e passível de acompanhamento psicológico.

Este tipo de comportamento é na verdade um mecanismo agressivo de defesa. Os que se colocam na defensiva através da agressividade não querem se sentir expostos (e por isso criam uma barreira de medo que afasta as pessoas) ou desejam impressionar de alguma forma àqueles que deles se aproximam. É uma forma infantilizada de marcar território, de não se misturar, de mostrar e impor poder. Está relacionada com autoestima baixa, insegurança, sensação de desamparo, fragilidade e impotência, presentes em muitos de nós. Na verdade, o boçal não é superior. Ele é inseguro, sente-se ameaçado e precisa pisar, humilhar ou nocautear o semelhante para se sentir bem ou superior.

“A cultura da boçalidade é parte do processo capitalista e em crises como a atual assume níveis assustadores. Tem que impingir o medo e o pânico nas pessoas, transformá-las em zumbis apavorados e assim se lhes obter a docilidade diante dos fatos e da barbárie que soam e ecoam em todo o mundo..” disse Laerte Braga. E eu acho que no Brasil, a boçalidade tem uma relação intrínseca com a cultura do “senhor de engenho” muito enraizada na nossa educação e no nosso inconsciente coletivo.

Historicamente, a boçalidade está muito relacionada ao universo masculino e representa um mecanismo para impor poder sobre o outro. Neste processo, a pessoa boçal se utiliza da mentira, conta vantagens, privilegia aparências, é intolerante e tem que ser sempre o melhor. As pequenas manifestações de boçalidade no cotidiano são infinitas e perpassa por atos de rudeza até atitudes sofisticadas de controle nas micro relações de poder do tipo: “conheça o seu lugar” e “você sabe com quem está falando”. Palavras como estas trazem disfarçados e ocultos um veneno perigoso rasgando qualquer relação dialógica.

Mas, será que existe uma boçalidade do bem? Será que não faz bem para o nosso ego se mostrar um pouco ou ser um pouco orgulhoso? Não será esta uma forma torpe de manter o equilíbrio e harmonia interna tão necessária a nossa sobrevivência? Eu penso que não faz mal a ninguém ser um pouco boçal de vez em quando, no momento oportuno. Porém, quando a boçalidade passa a ser um traço de caráter ou um mecanismo sempre usado então estamos diante de um problema grave: um quadro psicopatológico.

Sim porque a boçalidade está relacionada com a soberba que é nada mais do que o desejo distorcido de grandeza e com o com conceito elevado ou exagerado de si próprio. “O típico boçal tem uma imagem de si inflada, aumentada, nem sempre correspondendo à realidade. Surge com isso a necessidade de aparecer, de ser visto, passando inclusive por cima de padrões éticos e vendo as outras pessoas minimizadas”, de acordo com Rosemeire Zago.

Enfim, eu acredito que a boçalidade, seja do bem ou do mal, está muito distante da humildade, do crescimento espiritual e é uma máscara para esconder muitos conflitos do eu humano. Boçalidade é soberba! O boçal é aquela pessoa que se acha melhor do que as outras. Então, ela se torna arrogante, aumentando a voz para impor dominação e desprezar o semelhante com o objetivo de se dá bem em alguma situação específica. Neste jogo social pode estar ameaçada sua autoestima, a perda de algum bem material ou posição social.