La Crampe de L’écrivain

Crampe de l’écrivain é o nome na língua francesa para a doença/deficiência neurológica conhecida no Brasil com o nome de câimbra do escrivão.  Na verdade, a tradução do francês para as línguas inglesa e portuguesa é “câimbra do escritor”, assim como  para qualquer outra língua é desta forma; na língua espanhola, por exemplo, CE é “calambre del escritor”.

A língua portuguesa é complexa; tanto faz um termo quanto o outro. Mas, eu penso que “Câimbra do escritor”, assim como está na língua francesa, é mais adequado –  e etimologicamente correto –  para categorizar este tipo de Distonia de Tarefa Específica. De acordo com o dicionário Aurélio a palavra “Escrivão” é sinônimo de “Escriba” e significa: “oficial público encarregado de escrever autos, atas, termos de processo e outros documentos legais junto a diversas autoridades, tribunais, corpos administrativos, etc”.  Com relação a palavra “Escritor“, a definição mais plausível é: “a pessoa que se expressa através da arte da escrita”. Por isso que, daqui em diante, ao se referir a esta condição de saúde, eu irei sempre falar em  “CE – Câimbra do Escritor“.

Na língua francesa,  a câimbra do escritor é descrita como Dystonie de fonction que significa distonia focal ou distonia de função específica. Esta categorização é usada na literatura médica brasileira, também.

Quando se tem uma limitação ou “impedimento corporal” desta natureza,  o primeiro impulso é buscar informação sobre a doença e alguma forma para minimizar o sofrimento; e depois procurar pessoas com a mesma condição de saúde para compartilhar as experiências de vida com distonia. Pois, além das limitações físicas, a distonia afeta a autoestima, provocando graus de ansiedade e depressão. E em alguns casos, a doença leva ao isolamento do convívio social e de acordo com os neurologistas, os impactos no trabalho podem ser ainda mais prejudiciais, já que os portadores da câimbra do escritor apresentam a impossibilidade da escrita e da digitação.

Com este Blog, eu pretendo criar um espaço informativo, de conscientização e educação  sobre esta doença estranha que é considerada o 3ª distúrbio neurológico do movimento mais comum depois da Doença de  Parkinson e do Tremor Essencial. Almejo, também, ajudar a desmistificá-la e encorajar a todos que vivem com distonia a sair do ANONIMATO e do CASULO.  Na verdade, a motivação para tal façanha surgiu depois de  ter participado da Comunidade  “Dystonia Neuro Movement Disorder”  no WegoHealth.

Eu acho que a nossa motivação maior deve ser a seguinte: (1º) buscar uma articulação de  todos os pacientes para sermos Defensores das pessoas com distonia e desenvolver relações diplomáticas com nossos líderes legislativos para sensibilizá-los com relação a nossa condição de saúde e ajudá-los a compreender os desafios de todos aqueles que vivem com distonia; (2º) buscar sensibilizar a população e os políticos com relação a um esforço global para investir nas pesquisas em busca da cura da distonia e outros transtornos neurológicos do movimento como a doença de Parkinson.

Nas minhas pesquisas para entender mais sobre a Câimbra do Escritor, tenho visto que em alguns países do chamado primeiro mundo as pessoas que sofrem de distonias tem um melhor suporte em todos os sentidos e estão mais organizadas a exemplo da Dystonia Advocacy Network, Amadys, Deutsche Dystonie Gesellschaft, The Dystonia Society e outras associações sem fins lucrativos; grupos de apoio e fundações de pesquisas como a DMRF.

Para que o leitor tenha noção da gravidade desta doença, eu escolhi esta foto abaixo de uma pessoa com câimbra do escritor que encontrei no site alemão Entwicklungsgruppe Klinische Neuropsychologie (Desenvolvimento de Neuropsicologia Clínica) e que mostra exatamente como é  uma das  posturas compensatórias da mão(sintoma)  ao tentar escrever:

Buscando adequar-se

A vida não é fácil para ninguém. Cada um tem seu quinhão e sua história. Cada um se vira como pode; com as ferramentas que dispõe. Cada um usa os recursos que tem para sobreviver da melhor forma possível diante das dificuldades e intempéries… Desse modo, depois de mais de meio século tentando me adaptar a civilização da escrita, convivendo penosamente com essa doença neurológica de características incapacitantes e que a cada dia que passa tem se complicado consideravelmente, acontece algo que vem contrabalançar e elevar a minha autoestima. Contingencialmente, dentro desses dois últimos anos encontrei um jeito inusitado e esquisito para conseguir ter uma certa destreza no ato de escrever pelo menos um pouco. Escrever, pelo menos, o necessário…

Como você pode ver no vídeo, associado a esta adequação, tenho usado dois tipos de caneta adaptada para ajudar nesta proeza. Uma delas, emborrachada que ganhei do departamento de fisioterapia/neurologia do Hospital Sarah Kubitschek de Brasília há mais de dez anos atrás e a outra feita de tampas de garrafa confeccionada pelo colega artesão Alexandre Limeira do CAPS I onde trabalho. Estas canetas são dispositivos adaptadores que facilitam a pegada e o ato de escrever. O jeito incomum de pegar a caneta com as duas mãos é uma forma compensatória que tem como objetivo primordial dar firmeza na mão que segura a própria caneta buscando uma melhor versatilidade e um desempenho satisfatório da escrita.

Não, é que vivo em eterna mutação, com novas adaptações a meu renovado viver e nunca chego ao fim de cada um dos modos de existir. Vivo de esboços não acabados e vacilantes. Mas equilibro-me como posso, entre mim e eu, entre mim e os homens, entre mim e o Deus. Clarice Lispector

E assim, tenho resistido e se virado como posso no tocante a tentar escrever por mera conveniência do trabalho, pelas obrigações que devem ser cumpridas e, intimamente, para superar os sentimentos de impotência, invalidez e inadequação. Este processo de transmutação do jeito de escrever tem sido aflitivo e desafiante. Não recomendo este tipo de façanha para ninguém. Pode significar um desrespeito a própria limitação. Afinal, a toda pessoa com distonia focal da mão é dada o direito de “não escrever” ou infringir deslavadamente as obrigações de escrever. Mas, no meu caso, a escrita acaba sendo uma ferramenta do meu trabalho. Será que sou teimoso demais? Será que não estou respeitando os meus limites? Então, se sim, quais seriam as minhas opções? Desistir do trabalho ou da escrita? Ou mesmo contratar alguém para ser meu escrevente particular, como sugeriu um amigo psiquiatra? Já tentei de tudo; medicações, botox, natação, acupuntura, Yoga taoísta e outros. Todas estas técnicas tiveram – e tem – sua eficácia, mas, por enquanto, estou enfrentando a deficiência desta forma, sem esquecer, sobretudo, de praticar o Tai Chi e as meditações. De qualquer forma, é preciso avaliar bem as peculiaridade da condição de saúde e dos seus impactos psicossociais em cada pessoa; saber acolher e aceitar as limitações e os desajustes causados por este transtorno neurológico; e por último procurar alternativas para, pelo menos, minimizar os estragos causados pela doença e, quando possível, se adequar a civilização da escrita, adaptando-se as mudanças ou, melhor dizendo, realocando-se.

“Luto com os lutos que já me doeram. Me desalojo e me realoco. Não tenho o que perdi. Tenho as cicatrizes que restaram para preencher de coragem o meu prosseguir”. Gabriel Chalita

2020 continua em 2021!

Dois mil e vinte foi um ano inusitado, um ano que a terra parou, um ano que todos tiveram que desacelerar, um ano de inseguranças e incertezas… Foi um ano de um jeito adaptativo, de tempos áridos de afeto, de uma pandemia, de muitos conflitos… Um ano de rever nossos propósitos, de mudanças, de apuração espiritual que implica na busca por um sentido de vida. Enfim, 2020 foi o ano difícil , como disse a pedagoga Mirtes Cordeiro no Blog Falou & Disse.

Dois mil e vinte foi um ano tenso, com muita gente sofrendo por causa da crise sanitária e econômica que assolou o mundo. Um ano para revermos nossos valores… Foi o começo de uma grande transformação e de uma crise ética que adentrou 2021 e segundo os especialistas vai perdurar por um bom tempo.

Enfim, o ano que passou foi um ano inusitado, indefinido e de histórias sem fim

Na pandemia do Corona Vírus, eu fui diagnosticado com Covid 19 assintomático no final do ano. Tanto é que não tive nenhum sintoma. Fui imunizado em fevereiro de 2021. Foi um ano do medo de ser infectado e infectar as pessoas. Nesta pisada, perdi pelo menos três amigos para a Covid 19. Um ano de calamidade e flagelo sem fim!

No confinamento tive mais tempo para ler e ficar com a família. Consegui ler quatorze livros e terminei o ano começando a ler mais dois: “Mulheres que correm com lobos” de Clarissa Pinkola Estés (psicóloga Junguiana, poeta e escritora norte-americana especializada em traumas pós-guerra) e o romance “A Viagem de Théo” da escritora e filósofa francesa Catherine Clement. Leituras ilimitadas e sem fim!

Na distonia focal, aprendi a escrever de um jeito adaptativo. Desta forma, consegui ter um melhor desempenho no meu trabalho no tocante a escrever algumas linhas ou assinar o nome, apesar das dificuldades enormes. Usar a caneta e o computador é uma tortura. As mãos estão cada vez mais rígidas e aleijadas apresentando dores, incômodos, causando um sutil descontrole emocional, precipitando irritação, confusão mental e descontentamento. Mas, mesmo assim, recebi uma benesse e uma pequena cura ou reabilitação parcial que tem me ajudado a dar conta do meu trabalho e garantir o zelo pela sobrevivência… Fiquei mais entusiasmado. Esta é uma doença sem cura. Um sofrimento sem fim!

No que diz respeito a BlogMania, escrevi quatro artigos para o Blog Homens de Bem e oito artigos para o Blog Estação Psicossocial. Histórias que não acabam; sem fim!

Nas artes taoistas do Tai Chi Chuan, eu encontrei a serenidade num cenário de tensões e medo, assim como busquei a harmonia e a quietude; o equilíbrio e a alquimia interna; o silêncio e a mente calma. Apesar do incômodo e aleijamento das mãos tenho buscado exercitar o Tai Chi diariamente e investido em práticas afins. É um estilo de vida, um universo sem fim!

No Santo Daime encontrei o caminho a ser seguido e a alquimia da transformação para o crescimento espiritual e a metamorfose da alma. Participei do I Encontro de Pesquisadores do Santo Daime: Homenagem ao Centenário do Padrinho Sebastião. Um caminho sem fim!

Na profissão, eu fiz dois cursos sobre Saúde Mental e Enfrentamento da Covid 19 pela FioCruz. O conhecimento é ilimitado. Só o começo de tudo.

Na clínica psicológica, eu vi crescer exponencialmente o número de pessoas com desajustes e perturbações emocionais. Um verdadeiro “boom” de transtorno do humor e descompensações agudas. Muitas mentiras, revoltas e insatisfações… Foi o ano que a falsidade e a mentira disfarçada de “fake news” começaram a reinar. E tem causado conflitos e transtornos subjetivos sem fim.

No aprendizado de línguas, eu investi no francês. Gosto muito do estudo das línguas, fala e linguagem. Gosto da Linguística e de idiomas. Tenho tido contato com o sânscrito devido as leituras dos livros sagrados védicos.

Na sétima arte, eu assisti a 9ª Mostra EcoFalante de Cinema de São Paulo que é um evento anual, que acontece desde 2012, sempre no primeiro semestre. O ano de de 2020 foi um tempo de muitas “lives” e encontro virtuais. O começo de uma nova era!

Dentre os vários filmes que assisti, destaco “O Poço” que retrata bem os tempos de 2020 onde vivemos um distanciamento social, não só por diferenças políticas, mas também pela já conhecida estrutura socioeconômica que afasta cada vez mais a população de um mundo que batalha por mais igualdade. O filme retrata, de maneira abstrata, nosso mundo de uma maneira tão assustadora quanto atual. A ganância e o egoísmo continua e é sem fim…

E as preocupações com a sobrevivência? São capazes de desestruturar qualquer um… O estresse ocasionado pelas apreensões e obrigações da rotina diária tem acentuado minha estabilidade e minha condição neurológica de saúde, consideravelmente e infinitamente…

Escrevinhando de um jeito inusitado

Antes do réveillon, eu fui na casa de uma amiga comprar um livro que ela publicou recentemente sobre a trajetória do tatalorixá Vicente Mariano. Ao vê-la autografá-lo fiquei boquiaberto e percebi dentro de mim uma discreta inquietação… Como de praxe nestas ocasiões, na verdade senti uma mistura de sentimentos como surpresa, admiração, chateação e incômodo com a facilidade que ela escreveu. Pensei no mesmo instante: como pode alguém escrever tão rápido e com tanta destreza? Sim, porque desde a infância eu sempre ensaiei para rabiscar qualquer coisa e nos momentos que conseguia escrever, ao menos uma pequena frase, sempre foi com um jeito bizarro e um desgaste desmedido.  Escrevinhar ou escrever de fato sobre algum recorte da experiencia de vida com a Síndrome da Câimbra do Escrivão como este é, na verdade, uma tentativa de desinquietar-se e compreender-se melhor neste contexto de não conseguir escrever com desembaraço e fluidez.

Não escrevo para agradar, nem para desagradar. Escrevo para desassossegar. Fernando Pessoa

A surpresa  apresentou-se porque o meu universo tem sido outro: vivendo uma vida quase sem escrever, à margem da normalidade que é a civilização da escrita.  A chateação ou “estado de choque” está relacionada a não conseguir me enquadrar ou nunca ter me adequado ao meio, no tocante a escrita. Então, perceber-me diferente, com um impedimento corporal ou uma espécie de deficiência incomum e excêntrica incomoda bastante, chateia demasiadamente e desencadeia uma circunstância enfadonha. Situações como presenciar alguém escrevendo ou mesmo estar diante de um cenário que necessite escrever sempre me fizeram olhar para dentro de mim mesmo e tentar responder a antigas questões que sempre convivi devido a esta condição tais como: o que está acontecendo comigo; o que é isto;  como viver com isto; e o que faço para me ajustar.  Assim, diante desta conjuntura de aflição eu sempre evitei tentar escrever em público e consequentemente me deparei com um medo horrível do fracasso com relação a não dar conta de uma coisa simples que é escrever. Desta forma, podemos dizer que os momentos de inevitabilidade da escrita sempre foi um cenário de medo, sofrimento, incerteza e insegurança…

“…todo o ser humano, independentemente do grau de sua deficiência, aprende e se desenvolve”. Lev Vygotsky 

Confesso que perdi muito tempo e desenvolvi algumas dificuldades e mecanismos compensatórios tentando me enquadrar na civilização da escrita. Todo este contexto causou empecilhos para aceitação e acolhimento do estado real que é uma deficiência inusitada. Bem como, trouxe implicações psicológicas e sociais no meu desenvolvimento e ajustamento. Segundo Amiralian (1997), “a deficiência é intolerável, não só por fazer ressurgir insuportáveis angústias de castração, destruição e desmoronamento, mas também por lembrar que o deficiente é sempre um sobrevivente que escapou de um cataclismo, de uma catástrofe que já ocorreu, o que poderá acontecer a qualquer um”.  E, na verdade, a deficiência funciona como um espelho perturbador que pode fazer reviver angústias primitivas tanto para o paciente como para as pessoas próximas a ele. Assim, é preciso compreender as vicissitudes causadas pela deficiência no desenvolvimento e ajustamento da pessoa na interação com o ambiente.  Enquanto não compreendermos que a pessoa com a “Síndrome da Câimbra do Escritor” é, também, uma pessoa com deficiência – e não meramente alguém com um transtorno neurológico – assim como não encará-la como tal nunca aprenderemos a ter uma aceitação efetiva e nunca deixaremos de sermos acometidos por dificuldades de encarar os novos desafios com todas as possibilidades de fracasso e sucesso que terá na vida.

“A deficiência cria exigências incomuns em relação à assertividade, à tomada de decisões e ao
estabelecimento de objetivos bem como em relação à coordenação da vida e da família.” (Vash, 1988)

O foco do paciente com distonia deve ser, portanto, uma busca incessante por uma qualidade de vida, visando a possibilidade de conseguir adaptar-se a sua nova realidade e a saúde mental. Para Emílio Figueira, a pessoa que tem ou adquiriu uma deficiência, em seu processo de enfrentamento da nova realidade, precisará dispor de recursos físicos, psicológicos, cognitivos e sociais para preservar a integridade somática e psíquica. Estes recursos buscam alcançar a adaptação à organização psíquica, à capacidade de procurar ajuda, ao planejamento para o futuro, manter a angústia em limites toleráveis, incrementar relações pessoais significativas e recuperar as funções físicas. Neste aspecto, uma primeira questão para o paciente com Síndrome da Câimbra do Escritor envolve o respeito a própria pessoa possibilitando sua autonomia através de dispositivos adaptativos e controle sobre sua própria forma de escrever já que está fora de cogitação a recuperação da função física. Um outro ponto implica em acatar o seu tempo e ritmo na articulação da escrita, respeitar os seus momentos que não conseguir escrever, proporcionar o direito de não escrever, acolher o sentimento de impotência e frustração, não se deixar atormentar pelo simples jeito desajeitado, mãos contorcidas, deformadas e nem pela imprecisão da escrita; em terceiro lugar, não se preocupar em dar explicações e não se atormentar com olhares de espanto; e por último participar de grupos de apoio ou interagir com pessoas que saibam o que significa conviver com esta doença incapacitante.

O enfrentamento desta realidade e aceitação da nossa própria natureza com mãos deformadas que não querem se adequar a um padrão vigente da escrita é o ponto central para se ter sanidade mental e equilíbrio interior. Todos os recursos buscados pelo paciente para ajudá-lo na sua vida com distonia são de suma importância e determinantes na sua saúde mental.

“A deficiência não deve ser considerada como a causa de manifestação de perturbações psíquicas, mas como uma condição dificultadora para as interações com o ambiente”, segundo Amiralian 

Síndrome da Câimbra do Escritor e as complicações na Saúde Mental

De acordo com site Dystonia Ireland, apesar de a distonia ser um distúrbio do movimento que afeta o corpo físico, ela também pode afetar a saúde emocional e psicológica. Não apenas a própria natureza da distonia – particularmente aspectos como a dor, o incômodo e a deficiência – é algo extremamente estressante, mas também as áreas do cérebro afetadas pela distonia estão associadas, em parte, ao pensamento e a emoção, assim como acontece no comprometimento do controle neurológico do movimento corporal. Os transtornos neurológicos do movimento afetam, portanto, aspectos não-motores como as emoções podendo complicar a saúde mental.

A culpa, a vergonha e o medo estão implícitos neste processo inerente.

Durante anos, os profissionais de saúde mental reconheceram que lidar com um transtorno crônico como a distonia é semelhante a sofrer uma perda, como uma morte ou divórcio, diz o site. As fases comuns de lidar com a distonia incluem Estado de Choque, Luto, Negação (culpa, vergonha), Raiva, Barganha (medo), Depressão, Defesa, Expectativa de Recuperação e Ajustamento (aceitação). Estas fases se manifestam como um ciclo ou uma linha com altos e baixos em um processo interminável e inerente. Na verdade, para melhor compreendermos qualquer doença e a sua interface com a saúde mental é de suma relevância adotarmos uma abordagem interdisciplinar como a PNEI – Psiconeuroendrocrinoimunologia que melhor descreve as relações entre doenças e emoções. Eu sempre tive grandes dificuldades com a culpa, a vergonha, o medo e a revolta (de forma sutil) e estas emoções, certamente, interferem significativamente na patogênese da doença. Funciona da seguinte forma: assim como qualquer deficiência, ao tentar escrever, um gatilho é acionado por não conseguir executar a tarefa que resulta em raiva, irritação e aborrecimento afetando a dificuldade motora. Para você ter uma ideia, em alguns casos, o ajuste à doença crônica é tão drástico que a experiência de um indivíduo é comparável aos sintomas de transtorno de estresse pós-traumático que afeta sobreviventes de combate ou violência intensa. Realmente, todas estas questões procedem pois a minha experiência enquanto paciente corrobora estes sofrimentos e enredamentos psicológicos que são, geralmente, intensos e contínuos.

“(…) Até o momento, as alterações encontradas nas concentrações de neurotransmissores em corpo estriado na distonia incluem um aumento na noradrenalina e uma diminuição nas concentrações de dopamina.” Jina L Janavs e Michael J Aminoff

No artigo Dystonia and chorea in acquired systemic disorders, os neurologistas Jina Janavs e Michael Aminoff afirmam que a distonia podem resultar de isquemia hipóxica devido à hipoperfusão cerebral global ou hipóxia celular, como na disfunção mitocondrial tóxica. Foi o que aconteceu comigo durante o parto. A causa principal da distonia focal no meu caso foi anoxia – um agravante da hipóxia – perinatal e lesões cérebro vasculares durante o parto. Isto levou a um comprometimento da psicomotricidade fina e ao desenvolvimento da distonia de tarefa específica. Segundo os pesquisadores, a distonia foi correlacionada com lesões do putâmen contralateral, globo pálido externo, tálamo lateral posterior e posterior, núcleo vermelho ou núcleo subtalâmico ou uma combinação dessas estruturas. O resultado é a diminuição da atividade nas vias do pálido medial ao tálamo anterior ventral e ventrolateral e da substância negra reticulada ao tronco cerebral, culminando na desinibição cortical. A entrada sensorial alterada da periferia também pode produzir hiperatividade motora cortical e distonia em alguns casos. Até o momento, as alterações encontradas nas concentrações de neurotransmissores na distonia incluem um aumento na noradrenalina e uma diminuição nas concentrações de dopamina. Em outras palavras, há uma correlação da distonia com as alterações do humor, os processos depressivos, enfim, as emoções.

Para a Sociedade Irlandesa da Distonia, a área do cérebro envolvida na distonia, chamada de gânglios basais, está associada tanto ao controle do movimento muscular como também ao humor e aos comportamentos. Portanto, não é surpreendente que haja alguma evidência de que pessoas com distonia podem estar em um risco maior de transtornos mentais, como depressão e ansiedade, do que a população em geral. Eu já comentei isto no meu livro Câimbra do Escrivão: uma deficiência incomum, publicado em 2018 juntamente com Maristela Zamoner. Vivemos numa linha muito tênue que nos deixa suscetível. É por isso que, neste aspecto, eu venho falando sobre a importância do Tai Chi e da Yoga como uma ferramenta importante para auxiliar a manter o equilíbrio interno e preservar a saúde mental. Ajuda a aprendermos a acolher nossos sentimentos em desajustes.

Um jeito adaptativo

Nos últimos tempos, a distonia tem se complicado demais e atrapalhado muito a minha vida no tocante a escrita. Não consigo se quer grifar uma palavra e muito menos escrever com destreza e normalidade.

E o pior é que esta limitação física provoca ou aumenta o sofrimento psíquico de maneira tão significativa que se não for devidamente acolhida e cuidada tal condição mórbida e de impedimento corporal se torna incontrolável. O desconforto emocional causado pela doença afeta a capacidade de executar atividades cotidianas que envolvem a psicomotricidade fina. Apesar da capacidade humana de se adaptar as transformações, deficiências e o surgimento de adversidades na vida como esta doença, percebo desde criança que a convivência com a distonia focal não tem sido fácil e tem gerado uma sobrecarga de estresse considerável acompanhada de irritação e ansiedade que é preocupante e merece atenção.

Contudo, o interessante é que encontrei um jeito adaptativo para escrever o mínimo quando necessário no meu trabalho. Já faz um tempo que escrevo desta forma. Esta foi umas das melhores formas adaptativas que encontrei. Consiste basicamente em segurar a mão que escrevo com a oposta. Não deixa de ser desagradável e não deixa imperceptível os tremores, a rigidez e travamento do braço, o desconforto e as contorções típicas da deficiência. Mas, este jeito de escrever incomum e compensatório tem me ajudado a cumprir com minhas obrigações, com esforço e determinação.

Esta adaptação impreterível  exige momentos de serenidade e foco, pois, do contrário, a situação se torna incontrolável e embaraçosa na desenvoltura do ato de escrever. É preciso respeitar o tempo, as peculiaridades e os momentos de cada um de nós enquanto paciente, da nossa relação com a doença e da própria doença que, na minha opinião, é excêntrica e tem características relevantes de deficiência.

Além deste processo desgastante de conceber um jeito adaptativo que adeque a mão inválida para produzir uma coisa simples que é a escrita, é imprescindível aprender a conviver com os transtornos socioafetivos como as oscilações do humor, a tendência a ensimesmar-se e um certo acanhamento e embaraço desencadeados por este transtorno neurológico do movimento.

Ainda, como se não bastasse, tem as agonias ou tormentos na “cabeça” que costumam percorrer o corpo inteiro no momento em que a doença ou limitação se apresenta quando se é obrigado a executar a escrita e outras tarefas específicas. Que coisa mais importuna! Bom, só me resta aceitar as circunstâncias e seguir o fluxo. Se não tiver calma e tranquilidade, tudo torna-se sem jeito! A convivência com a doença foi me ensinando, na tora, a como enfrentar as dificuldades e sobreviver as intempéries desta desmesurada limitação corporal.

Se você tem uma deficiência provavelmente não é sua culpa, mas ficar culpando o mundo ou esperar dó de alguém não vai te ajudar em nada. Você deve manter um pensamento positivo e aproveitar o máximo de cada situação. Se você tem um problema físico, não pode se permitir ter um problema psicológico também. Stephen Hawking

Com uma história longa de convivência com uma maneira desajeitada de pegar no lápis, passei, com o decorrer do tempo, a ser desjeitoso com pequenas tarefas que envolve a mão. E confesso que na tentativa de escrever sobre um recorte de uma das minhas experiências com esta doença incapacitante senti-me sem jeito e sem palavras certas para expressar os meus sentimentos da forma mais inteligível. Tanto é que editei este texto várias vezes depois que publiquei. A natureza desta doença é tão singular e séria que ao escrever e reescrever este texto me senti tanto estabanado quanto me sinto ao segurar o lápis!

Vivendo bem apesar da deficiência

Vivendo bem com distonia

Passa a ser um grande desafio

Tendo uma vida de agonia

E vivendo por um fio

Uma vida de incerteza

Convivendo com a desesperança

Precisando ter sempre a esperteza

De coexistindo com a doença não perder a perseverança

Depois de ter vivido

Tanto tempo com obstáculo

Você vai ficando, às vezes, comedido

Outras vezes, tornando-se desalentado

Parecendo ser improvável

Viver bem sem escrever

E ser, na civilização da escrita, aceitável

Vivendo sem sofrer

Pois aqui eu vou dizendo

Que mesmo com os aperreios

Ser imperturbável, eu estou aprendendo

Para, diante da caligrafia, se adequar aos anseios

Que saco,

O que mais tem é gente

Dando pitaco

No que não sabe sobre uma mão doente

Que tamanha chateação

Além dos infortúnios do impedimento corpóreo

Ainda tem a distinção e a falta de compreensão

Forçando-me ser mais do que estentóreo

Como pode viver bem desta maneira

Alguém irritado me perguntou uma vez

Eu disse que é preciso muita destreza

Para aguentar tanta lassidão e tamanha morbidez

Pois, além da deformidade e dos espasmos da musculatura

Esta rara doença interfere no humor

Ficando, na escrita, com pouca desenvoltura

E na vida como um autismo com discreto temor

Esta é a verdadeira natureza

De uma pessoa com câimbra do escritor

Com tanta suscetibilidade e delicadeza

Apesar da latente injucundidade  e do indiscreto dissabor

Help! 2019 – 2020

No ano de 2019 eu vi crescer, assustadoramente, muitas mentiras; muita disseminação de ódio e baixa cobiça invejosa pelo poder; inúmeras discriminações e preconceitos; diversas ambições para subjugar o próximo, injustiças sociais e a violação dos direitos. Presenciei tanta arrogância e retrocesso; tanto descaso com o meio ambiente e desrespeito a todos os seres vivos; e assisti a ascendência ao poder de diferentes líderes rudes, frios, portanto, insanos e sociopatas. Vi muito roubo dos impostos pagos pelo cidadão para usufruto próprio; encontrei muito egoísmo, ostentação, ganância, superficialidade, alienação e muita imoralidade; vivenciei muita truculência, fundamentalismo político-religioso, violências e ignorâncias. E como consequência cresceu o número de atendimentos na clinica psicológica e psiquiátrica de muitas pessoas mergulhadas em imensos sofrimentos, inseguranças, dores psíquicas e desilusões… Valei-me, meus protetores espirituais!  Que ano foi esse, com tantas atitudes desvirtuosas, tantas mazelas e tanta loucura?

No ano que se foi, com certeza, faltou mais compaixão, compreensão, empatia, seriedade e serenidade; presenciei muita gente com dificuldade de acolhimento do sofrimento e dores dos irmãos; vi poucas atitudes de gentileza e preocupação com o bem comum… Percebi uma escassez de mais amparo aos necessitados! Vi muita gente querendo viver uma vida boa sem se esforçar, vi muita preguiça mental e descaso para com sua própria evolução em todos os aspectos. Percebi falta de Harmonia, Amor, Verdade e Justiça nos governantes, assim como, testemunhei muitas atitudes de menosprezo e comportamentos impulsionados pelo Ressentimento, no geral. Uma questão que não sai da minha cabeça: aonde existe lugar para o amor, a verdade e a justiça no nosso mundo contemporâneo? Por outro lado, percebi que muita gente ao meu redor se esforçou para sobreviver e alguns procuraram melhorar suas vidas nas condições econômicas, nas relações pessoais, no aperfeiçoamento das virtudes, no crescimento e refinamento pessoal. Esforços muito nobres!

Se compararmos a personalidade humana com uma grande casa, a maioria das pessoas não conhece nem mesmo a sala de visitas do seu próprio ser.

Augusto Cury

“Mundo moderno, as pessoas não se falam
Ao contrário, se calam, se pisam, se traem, se matam”

Larissa Alves

Com relação aos pacientes da distonia, senti falta de maior articulação para lutar pelos investimentos de pesquisas em prol da cura ou de terapias complementares; senti timidez e desinteresse nas ações em geral. Mas, apesar de tudo, gostei da atuação da Comunidade de Pacientes com Distonia como a Dystonia Medical Research Foundation e do suporte disponibilizado pelas associações Fundación Distonía, Fundación Distonía Venezuela, The European Dystonia Federation e Amadys.

Com relação a minha pessoa, apesar das limitações impostas pela doença, consegui com esforço descomunal cumprir com meu dever na profissão e na vida como um todo. Senti muitas dores, incômodos, espasmos incontroláveis e dificuldades enormes para escrever e executar qualquer tarefa que envolve a psicomotricidade fina. Senti alguns desconfortos consideráveis no aspecto emocional e social devido a distonia focal. Tudo isso, tem me acompanhado expressivamente desde a alfabetização e me causado um pungente sofrimento. Ah, se não fosse a prática da yoga e do tai-chi-chuan desde minha adolescência. Help! Tenho sobrevivido!

Foi um ano difícil com relação a convivência com esta doença neurológica, com relação a sobrevivência e com relação a vida como um todo. Tive muitos prejuízos e inúmeras dificuldades para pagar as contas diárias e até me esquivei de um acidente automobilístico onde uma carreta quase passara por cima de mim quando eu viajava de moto certo dia. Manter-me firme, sereno e entender as perturbações e insanidades mentais típicas da sociedade pós-moderna assim como compreender as inúmeras neuroses do cotidiano que vi crescer em demasia foi um grande desafio.

A ignorância, a cobiça e a má fé também elegem seus representantes políticos. Carlos Drummond de Andrade

De tanto ver triunfar as nulidades; de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça. De tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar-se da virtude, a rir-se da honra e a ter vergonha de ser honesto.
Rui Barbosa

Foi um dos anos que conquistei muitas coisas interessantes como o desenvolvimento e apuração na autorrealização, autoconhecimento e mudanças subjetivas, melhorei a minha consciência energética, investimento nas atividades relacionadas ao serviço devocional transcendental, associação ritualística a Doutrina da Floresta, sendo iniciado e me tornado adepto oficial do Santo Daime depois de quatro anos frequentando assiduamente o Céu da Campina. Uma das coisas que me atraiu e tem sido bastante agradável para mim enquanto paciente com distonia é que a combinação da musicalidade, cânticos com configurações mântricas e bailados típicos dos rituais desta doutrina musical tem trazido muitos benefícios para esta minha condição de saúde. Associado a isto, a minha prática de técnicas taoistas como a meditação (mindfulness) e o Tai-Chi tem contribuído consideravelmente para um melhor desempenho na vida, tentando Viver Bem com Distonia. Enfim, adquiri mais maturidade e sabedoria para lidar com as adversidades, privações e inconveniências!

Consegui produzir bastante em termos de conhecimento: li em torno de vinte livros na área de comportamento e espiritualidade; escrevi cinco artigos para o blog; fiz dois cursos de aperfeiçoamento e atualização na área de saúde mental; dei algumas palestras e entrevistas para o Rádio Cidade de Sumé sobre comportamento humano nas diversas dimensões; tive um melhor desempenho no trabalho; retomei as aulas de francês; e tive um aprofundamento na prática do Reiki e nas leituras das tradições de cura orientais como acupuntura, meditação taoísta e yoga. E ainda, colaborei com alguns projetos de caridade social, cultivei algumas amizades importantes, investi mais intensamente na Yoga, Tai-Chi e caminhada, estive mais refinado nas minhas escolhas, além de atender uma demanda grande na clínica de psicologia.

Tempos Modernos,
Belezas De Concreto…
E O Que Há De Concreto
Neste Mundo Moderno?
E Se O Amor Que Está Bem
Perto For Incerto?
Tempos Modernos,
Belezas De Concreto…

Josyas

Em suma, conquistei mais e mais experiências! Consegui, finalmente, chegar em 2020! Que alívio! Estes 365 dias foram, na verdade, uma grande caminhada de aprendizado onde estive sempre atento, com os pés no chão, procurando compreender todas as intempéries peculiares a nossa vida e buscando resolver todos os problemas do cotidiano. Nesta jornada, poderia dizer que uma das coisas que me marcou, imensamente, foi a lembrança repentina e insistente de trechos de uma canção de John Lennon como: “imagine se pudéssemos construir uma irmandade de pessoas sem precisar de ganância e nem de fome. Imagine todo o mundo vivendo em paz, vivendo só para o momento atual”. Analisando a história da humanidade, estou convicto que este pensamento estar muito mais para uma “utopia” do que para uma realidade. Eu sei que este é um pensamento contra cultural… Mas, eu tenho uma esperança, apesar das perspectivas não serem boas.

Depôis de conhecer a humanidade
suas perversidades e
suas ambições
Eu fui envelhecendo
E perdendo
as ilusões.
O que predomina é a
maldade
porque a bondade:
Ninguem pratica
Humanidade ambiciosa
E gananciosa
Que quer ficar rica!
Quando eu morrer…
Não quero renascer
É horrivel, suportar a humanidade
Que tem aparência nobre
Que encobre
As péssimas qualidades
.

Notei que o ente humano
É perverso, é tirano
Egoista interesseiros
Mas trata com cortêzia
Mas tudo é ipocresia
São rudes, e trapaçêiros

Carolina Maria de Jesus, Meu estranho diário

É por esta razão que eu compreendo e concordo com meu padrinho – fã dos Beatles como eu sou – que sussurrou no meu ouvido no intervalo de um trabalho daimista no final do ano que passou: “help, New Year!”. Então, grito: “socorro”, porque vivemos numa sociedade que se diz cristã, mas muitas pessoas tem a tendência a fazer usufruto da falsidade, da ladroíce e da usurpação, da desonestidade, do egoísmo e da hipocrisia para se dar bem na vida. Digo em voz alta: “socorro”, porque, no momento, parece que algumas pessoas estão ocupadas somente em sobreviver e outras em enriquecer fácil, em dominar os mais fracos para servir aos interesses obtusos, assim como envolvidos em buscar uma felicidade efêmera. Alguém me ajude, pois, parece que tudo é “pose”, tudo é máscara social, tudo é descartável e tudo é fingimento. Muita gente vivendo uma vida virtual nas redes sociais que não condiz com a realidade. Na nossa sociedade há uma glorificação da figura do ser bonito, rico e perfeito e aquele que não se enquadrar nesta lógica passa a sofrer com sua autoestima abalada excessivamente. Valei-me, meu Deus, é muita gente querendo ser importante e melhor que o semelhante… Tudo isso dá a impressão que estamos vivendo tempos difíceis de inversão de valores, desumanização, ignomínia, enfim, de um adoecimento profundo e coletivo da alma humana.

E, por fim, quase esqueci o mais importante para nós, os pacientes da câimbra do escritor. “Help”, cadê a cura da distonia ou pelo menos, um recurso paliativo que alivie ou minimize o sofrimento causado por esta doença rara e esquisita. Para se ter uma ideia, estima-se que existam dois casos de distonia generalizada, para cada milhão de pessoas e cerca de 24 casos por milhão de pessoas para as formas focais. Atualmente existem vários grupos de pesquisadores no Brasil, envolvidos em pesquisa na área de doenças neurológicas do movimento, mas nada tão consistente e promissor em termos de cura da distonia. No ano passado começou a ganhar cada vez mais espaço nos noticiários, nas revistas e principalmente, na internet medicamentos como o óleo a base de cannabidiol com proposta de tratamento para doenças neurológicas do movimento, inclusive a distonia. Porém, até o momento, não temos nada consistente com relação ao uso terapêutico desta erva para das distonias em geral no universo da medicina neurológica tradicional. Só relatos de melhoras em alguns casos. Mas, apesar das dificuldades, de acordo com o “Dystonia News & Updates February 2020” da DMRF o ano 2020 será promissor, pois graças ao apoio financeiro e de pesquisadores todo empenho da fundação resultará num mundo melhor para os pacientes: um Futuro sem Distonia.

Todas as formas de violência com que nos defrontamos constituem consequência e reação, à nossa forma de viver: falta de autorreflexão e de autoconhecimento, perda progressiva de contato com a natureza, conflitos humanos, crise de confiança uns nos outros, relacionamentos disfuncionais, competição, vazio emocional, crises existenciais, stress, ansiedade, melancolia, sofrimento e dor…

É flagrante a falta de um solo de conexão humana que nos conduza à reflexão e a um significado de vida mais profundo…

A mudança é interior, começa no coração. O mundo exterior é um reflexo da nossa dimensão interior…

Reiki- Toque Terapêutico

 

Paralítico das Mãos

 

 

Oh, que mãos entrevadas,

Sem movimentos e sem agilidade,

Paradas e paralisadas.

Ineficientes em seus fazimentos e sua atividade.

 

Percebo-me como um paralítico inexplicável e inusitado…

Com as mãos sem algumas funções e funcionalidades

Escrever é algo desconfortável e bizarro

Que me faz pensar em evasões e obliquidades.

 

Sinto-me um deficiente esquisito e excêntrico

Com mãos inválidas para a escrita

Diante do lápis, o empecilho e o desalento

Contorção que a paralisia acirra e incita.

 

Mãos deformadas que me fazem lembrar

Dos desatinos e de tantos erros

Que me torturam e vieram para frear

As extravagâncias e desacertos.

 

Resta transmudar o desespero e as dores

As mãos doentes e desoladas

Em braços fortes e idealizadores

Com mãos leves e desenroladas…

 

Se for preciso escrever e gesticular; eu consigo, não!

Nem sequer do embaraço me livrar

Nem tão pouco me expressar com as mãos

Resta aos ânimos, sofrear

 

Ah… minhas mãos, que aperreação!

Sois tão desajeitadas e desgraciosas

Tu me fazes acometer por um desprazer e uma inadequação

Mesmo me esforçando por transmutar-vos em talentosas

 

Um sentimento de desânimo e esmorecimento

Invade meu frágil e pequeno ser

Cada momento é um desafio e um atrevimento

Fantasiando que sei e posso escrever.

 

Ah… Câimbra dos Escritores, como pode tua paralisia

Afetar a minha tão imprescindível psicomotricidade

Ah… Grafoespasmo, como és conhecida na psicopedagogia

Como podes bagunçar tanto meu grafismo e minha emotividade.

O perdão não é um sentimento

Há uns dias atrás, eu estava numa reunião de supervisão de casos clínicos no trabalho onde discutíamos sobre as psicopatologias da atualidade e sobre emoções tóxicas quando alguém me perguntou se a dificuldade de perdoar causa problemas psicológicos. Esta questão me chamou muito a atenção, pois é esta uma temática muito presente nas nossas vidas e bastante privilegiada em vários campo do saber como a filosofia, a teologia e as tradições religiosas. Apenas recentemente é que a psicologia interessou-se também por este assunto que Roberts (1995) alcunhou de forgivingness (perdoabilidade). Para se ter ideia, trabalhos mais sistemáticos da psicologia sobre o perdão surgiram apenas na década de 80 fora do País, enquanto aqui no Brasil, estudos científicos aparecem somente no início dos anos 2000. Então, empolgado e curioso, fiz uma pesquisa breve e a priori encontrei vários textos interessantes direcionados ao senso comum e alguns artigos científicos da chamada Psicologia Positiva que trazem discussões teóricas relevantes e curiosas para começarmos a refletir sobre este assunto tão polêmico e importante que é a psicologia do perdão. Para começo de conversa, concordo com o psicólogo Emerson Bueno que o perdão não é um sentimento, é uma decisão fundamental para nossa evolução e reitero as palavras de Martin Luther King quando diz que aquele que é desprovido da capacidade de perdoar é desprovido da capacidade de amar. E digo mais: não é fácil, como se parece, ser empático com o ofensor e firmar compromisso com atos do perdão.

Perdoar não é esquecer; isso é amnésia. Perdoar é se lembrar sem se ferir, sem sofrer. Por isso é uma decisão, não um sentimento. (Pensador desconhecido)

O perdão é definido nos dicionários como remissão de pena, de ofensa ou de dívida; desculpa, indulto. Na verdade, é um processo subjetivo que tem por finalidade cessar o ressentimento tóxico (dentre eles, o principal é a raiva e o sentimento de vingança) contra outra pessoa ou contra si mesmo, decorrente de uma ofensa percebida por diferenças, erros ou fracassos. Trata-se de uma habilidade que precisa de treino. E tem uma importância tanto na dimensão ético-religiosa quanto no enfrentamento de situações de mágoas e injustiças do cotidiano das pessoas. De acordo com os estudiosos do tema não existe ainda uma definição consensual do que seja o perdão. Do ponto de vista etimológico, o verbo perdoar origina-se do latim perdonum que significa dar ou entregar um dom completamente (per-donum) sem querer nada em troca. Neste caso, seria dar ou conceder clemência e tolerância àquele que comete alguma ofensa. Por outro lado, existem outros aspectos da perdoabilidade como a capacidade de auto perdoar-se e a capacidade de reconhecimento do seu próprio erro. A expressão “pedir perdão”, por exemplo significa aceitar ou pedir desculpas, reconhecer e se redimir em relação a algo de errado.

No tocante ao ato de perdoar, segundo Santana e Lopes (2012), existem pelo menos três linhas de estudo com algumas divergências sobre o tema perdoabilidade na tentativa de uma conceituação adequada. O primeiro ponto de divergência diz respeito a questão se o perdão é um fenômeno intrapessoal ou interpessoal. O segundo ponto investiga se o perdão está mais relacionado a abrir mão de pensamentos, sentimentos e comportamentos negativos ou se inclui também elementos positivos e por último, os estudiosos buscam respostas sobre  se o perdão é um evento extraordinário ou se trata de uma experiência comum no cotidiano das pessoas. Estes pontos são bastante pertinentes para entendermos a dimensão que envolve o tema perdão. Desta forma, podemos observar que em todos este pontos de divergências se a ideia de que perdoar envolve mais do que livrar-se dos aspectos negativos, a linha que separa o perdão da reconciliação pode ser muito mais tênue e conflituosa do que se pensa. A facilidade ou dificuldade de perdoar pode estar intrinsecamente relacionada ao um percurso que vai das violações muito intensas até as ofensas menores como injurias e insultos, assim como a motivação e resiliência do injustiçado.

De acordo com o professor Paulo Vieira (2017), quando você perdoa, automaticamente, assume a responsabilidade por como você se sente. Você recupera a sua força e reassume o pleno controle sobre seu destino. Perdão é para você e não para o autor da afronta pois perdoar é remédio para a cura da sua mágoa e não para a cura ou impunidade da pessoa que lhe fez sofrer. Perdoar é a paz que você aprende a sentir quando libera quem lhe fez mal. Ao perdoar você se ajuda a ter mais controle sobre seus pensamentos e sentimentos, além de obter melhora em sua saúde física e mental. Perdão é também se tornar uma pessoa feliz e não uma vítima sofredora. Perdão é uma escolha, uma decisão, uma restituição… É perdoando que se rompe as correntes do sofrimento e passa-se a dar passos livres na própria vida. Neste aspecto, o psiquiatra e psicanalista Moises Groisman afirma que o perdão é uma atitude realizada em relação a pessoa que nos causou algum dano ou nos prejudicou de alguma forma, esteja ela interessada ou não na manutenção da convivência, para podermos viver melhor conosco e com ela. Segundo ele, para perdoar é preciso entender a história da pessoa que nos ofendeu ou causou algum dano e o que a levou a agir de tal forma. Da mesma forma, é necessário compreender de que modo, nós, que fomos magoados, colaboramos, mesmo sem perceber para que tal situação acontecesse.

Na perspectiva psicológica, portanto, as definições do perdão trazem alguns aspectos essenciais como o reconhecimento de que a ofensa foi injusta, o direito de estar ferido, e a desistência de algo a que se tinha direito (cólera, ressentimento) em favor da magnanimidade do perdão. Neste sentido, Subkoviak et al. (1992), afirma que no processo do perdão podemos perceber: a dor de quem foi ofendido e que se pode traduzir em ressentimento; o direito a sentir ressentimento mas, também, a ultrapassá-lo; a resposta ao ofensor através da compaixão, sem a obrigação de o fazer. O perdão é interpretado, então, como a capacidade de ultrapassar a mágoa, o ressentimento ou a vingança que o ofensor merecia, através da compaixão ou da benevolência. Perdoar implica, também, em compreender a ignorância do ofensor e restaurar o relacionamento.

Perdoar é adotar medidas de defesa de forma a conter o agressor para que ele não nos continue ferindo. Contudo, essa atitude defensiva deve basear-se num sentimento de compaixão e não de ódio, pois, a finalidade é educar quem nos ofende, para que ele não continue a nos ferir. Dalai Lama

O fenômeno da perdoabilidade que é um processo gradual com fases distintas e uma jornada árdua deve ser estudado com mais aprofundamento. A disposição para se permitir mergulhar neste processo do perdão significa crescer psicológica e espiritualmente a partir do sofrimento que nos foi infligido. Vários estudos científicos já comprovaram o quanto o ódio, a tristeza e a falta de perdão assolam nosso bem-estar psicológico e a nossa existência como um todo. É importante ter consciência de que perdoar não é somente um ato de benevolência para com o outro, mas sobretudo de inteligência e maturidade emocional para consigo mesmo. Este raciocínio advém do fato de que é contraproducente continuarmos reverberando este mal de forma sistemática, pois muitas vezes aquele que causou um dano, sequer está lembrando do fato. Em outras palavras, o único prejudicado somos nós mesmos. Enright (2008) propõe um modelo de como é o processo do perdão, constituído de vinte etapas pelas quais as pessoas podem passar, divididas em quatro fases distintas: fase de descoberta, fase de decisão, fase de trabalho e fase de resultados e benefícios. Portanto, o melhor a fazer é trabalhar cada aspecto negativo das “injustiças da vida”, percorrer estas etapas – cada um, no seu tempo – para fechar feridas emocionais que, muitas vezes, estão latentes há anos.

O trabalho terapêutico constante das emoções tóxicas tem o poder de curar nossa vida, pois tiramos um peso das costas. O melhor a fazer por nossa saúde é, portanto, desconstruir ou reelaborar sentimentos como raiva e tristeza, ressignificar algum acontecimento que nos foi direcionado consciente ou inconscientemente, posicionando-nos como agentes ativos do processo. Esta atitude de não-vitimização nos traz outra perspectiva diante do nosso sentimento de impotência, das nossas carências, frustrações e crises existenciais. Sendo assim, precisa ser trabalhada todas as mágoas, culpas, ressentimentos e descompensações, libertando-nos das amarras que impedem uma vida de qualidade. O perdão é um puro ato da subjetividade, um ato ético incondicional,  uma escolha livre e unilateral.   E a pessoa que demonstra dificuldades para perdoar apresenta uma personalidade rígida e intransigente, que não admite falhas, sendo muito severo consigo mesmo e com o comportamento alheio.

Santana & Lopes (2012) concordam, também, que o perdão, citando Enright et al. (1998), é uma atitude moral na qual uma pessoa considera abdicar do direito ao ressentimento, julgamentos e comportamentos negativos para com a pessoa que a ofendeu injustamente, e ao mesmo tempo, nutrir sentimentos imerecidos de compaixão, misericórdia e, possivelmente, amor para com o agressor. De acordo com estes autores, o elemento primordial para se conseguir perdoar é enxergar o culpado ou transgressor com certa compaixão. E, na sua visão, o perdão é um processo que perpassa pelas esferas do comportamento, da cognição e do afeto. Já Worthington(2005), analisa o perdão enquanto um processo que inicia-se com uma decisão ou motivação e evolui até uma mudança emocional significativa por parte da vítima de crimes ou transgressões. E de acordo com Exline & Baumeister (2001), o núcleo do processo do perdão está em abrir mão das emoções negativas, pois perdoar implica em cancelar ou suspender um débito interpessoal.

“Os fracos não podem perdoar. O perdão é um atributo dos fortes”. – Mahatma Gandhi

“Eu te perdoo”. Essas podem ser as três palavras mais difíceis de serem ditas. Apesar de simples, carregam um peso enorme. Todos nós, de alguma forma, guardamos a nossa pequena cota de ressentimento em relação a algo ou alguém e  precisamos ser curados… A pessoa que permanece dia após dia presa no ciclo das recordações, nas garras do ressentimento e no ódio persistente em relação a um evento do passado ou determinado indivíduo, desenvolve além da infelicidade um estresse crônico. A lembrança e o contato com o inimigo – pessoa que nos causou mal ou feriu – nos faz bater o coração de forma muito diversa do seu pulsar natural. Ninguém suporta viver por muito tempo dessa maneira porque não há emoção mais tóxica do que a raiva combinada com o ódio e o desejo de vingança.

Pois bem. Diante de qualquer tipo de violência ou ofensa, a grande questão que incomoda a qualquer um é como interagir com a pessoa que nos feriu ou causou alguma dor ou dano. Deve-se incriminar ou perdoar aquele que cometeu um crime grave; que traiu a confiança e o amor; que mentiu, cometeu um insulto ou uma injuria; que nos demitiu do trabalho deixando-nos numa situação difícil ou mesmo que violou algum direito nosso? Como se livrar de lembranças amargas e perdoar palavras duras e imerecidas acusações? A tendência de qualquer pessoa, a priori, é a revolta, a acusação, o menosprezo pelo infrator, atitudes precipitadas decorrentes daqueles pensamentos como: “não levo desaforo para casa”. Mas, diante desta situação é fundamental não julgar mesmo sendo vítima, tentar entender as circunstâncias a partir de várias perspectivas e não se deixar levar pelas emoções nocivas em relação a pessoa delituosa… O perdão, na verdade, é um atitude de decisão difícil, um processo gradual e uma postura emocional comedida no qual estão em jogo questões subjetivas que perturbam a paz e tira o sono de qualquer ser ofendido. Atos como abuso, trapaça financeira e infidelidade são imperdoáveis segundo Moisés Groisman. Para ele, perdoamos a pessoa que praticou o ato, caso queiramos manter a convivência com ela. Mas, o ato, em si, é imperdoável. Ao decidir perdoar, entramos numa fase onde estão processos que Enright chama de enquadramento e compaixão em relação ao ofensor. E neste transcurso, de acordo com Santana & Lopes (2012), há dois tipos de perdão: o decisional que envolve mudanças nas intenções do comportamento da pessoa que sofreu a afronta em relação ao transgressor; e o perdão emocional que se caracteriza pela substituição das emoções negativas por emoções positivamente orientadas. Quem tem dificuldade para perdoar evidencia um grau de neuroticismo elevado que limita, portanto, as suas possibilidades de amar.

“Aquele que é desprovido da capacidade de perdoar é desprovido da capacidade de amar. Há algo de bom nos piores de nós e algo de mau nos melhores de nós. Quando descobrimos isso, somos menos propensos a odiar os nossos inimigos” (Martin Luther King).

Nos relacionamentos que temos com tantas pessoas que cruzam o nosso caminho, magoamos e somos magoados. Somos grosseiros uns com os outros em vários momentos. Há uma mescla de sentimentos entre as pessoas que convivem num mesmo lar, no trabalho, no local onde estudam, no Templo religioso que frequentam e assim por diante. Enfim, o perdão é o ato de se desprender do ressentimento provocado pelas grosserias. Deve vir do coração, deve ser sincero, generoso e não ferir o amor próprio do ofendido. Não impõe condições humilhantes, tampouco deve ser motivado por orgulho ou ostentação. O verdadeiro perdão se reconhece pelos atos e não pelas palavras. Deve-se perdoar sempre infinitamente, pois precisamos ser perdoados, também. Ninguém está imune destes enredamentos. Todos precisam ser perdoados e aprender a perdoar. Pois, de acordo com o modelo de perdão interpessoal proposto por Enright, dois dos passos significativos da perdoabilidade são os seguintes: percepção de que o próprio self já necessitou do perdão de outros no passado; e percepção de que não se está sozinho, ou não se é a única pessoa a lidar com a mesma ofensa.

Mas, é importante lembrar que o perdão não significa esquecer algo doloroso ou fingir que não aconteceu; não é necessariamente se reconciliar com o autor da afronta, pois existem muitas pessoas maquiavélicas e narcisistas; não é desculpar o mau comportamento da pessoa que causou algum dano; fechar os olhos aos erros dos outros; não é negar ou minimizar seu sofrimento; desculpar todo e qualquer erro; desculpar todo aparente deslize das pessoas; e permitir que os outros se aproveitem de nossa bondade. E é relevante entender que a mesma situação pode ter que ser perdoada várias vezes, pois é um processo gradual; que não existem pessoas que não merecem perdão; e a outra pessoa não precisa pedir perdão para você perdoar.

“Perdoar significa deixar ir o passado” (Gerald Jampolsky).

E resumindo, é preciso não desaprender que o perdão é um ato de desapego, compreensão, humildade e amor. Se o amor não flui dentro de nós mesmos, isso significa que a nossa vida pode estar moribunda. Isso impede-nos de se relacionar bem com as pessoas e ter êxito na nossa existência. Desta forma, podemos reafirmar que precisamos estar atentos aos níveis de ressentimentos que são dignos de ser trabalhados pelo perdão como: a indiferença, a mágoa, o rancor, a raiva, o ódio, a acusação e a vingança. Todos estes sentimentos tóxicos guardados no nosso íntimo causa doenças psicossomáticas severas. Segundo Oliveira (2007), embora a vingança ou, ao menos, o ressentimento pareça o mais simples, há muitas razões para perdoar, ganhando o sujeito na saúde física, pois os sentimentos de cólera provocam um aumento de pressão sanguínea e prejudicam o coração; na saúde psíquica, pois o perdão liberta o espírito de pensamentos negativos povoando-os de pensamentos positivos e magnânimos; e ainda nas relações sociais, pois as emoções nocivas azedam as relações interpessoais, enquanto o espírito de tolerância e de perdão constroem a paz e a fraternidade. Diversas pesquisas científicas demonstram que perdoar (e ser perdoado) reduz a ansiedade, a depressão e a pressão arterial, promovendo também a auto-estima. Mas, sobretudo deve-se perdoar por motivo ético incondicional.

Não perdoar é, portanto, um sintoma, o sintoma da sujeição ao outro, e a incapacidade para remediar isso. Egidio T. Errico (Psicanalista Freudiano e Lacaniano de Salerno, Itália

Por isto, podemos asseverar que a falta de perdão das ofensas produz dano maior em quem está ferido do que naquele que feriu. Sem perdão não há cura das mágoas e ressentimentos. A doença interior só se complica, assim como, o bem-estar em geral da pessoa ressentida é seriamente afetada. É preciso haver decisão, habilidade de enfrentamento aos sentimentos perniciosos relacionados as ofensivas e mudança de perspectiva para não ficar preso eternamente nas garras dos ressentimentos e melindres. Pois, uma pessoa que alimenta o ódio e o rancor por causa de insultos denota falta de grandeza, suscetibilidade desconfiada e cheia de fel e, bem como, pouco aprimoramento moral, de acordo com as tradições ético-religiosas. A eliminação destes sentimentos nocivos são consideradas no âmbito religioso como “processo de apuro ou purificação espiritual”. Já para os estudiosos da psicologia da perdoabilidade, aquelas pessoas que não perdoam tem maior dificuldade em serem felizes, em estarem satisfeitas com a vida e em relacionar-se com os outros, podendo a dificuldade ou mesmo a recusa de perdão denotar alguns traços negativos ou mesmo neuróticos da personalidade.

E além disso, tais pessoas perdem a oportunidade de sensibilizar e tentar educar quem praticou a ofensa ou dano a não permanecer no erro com o mesmo comportamento, disseminando contratempos, agressões e ressentimentos. Pois, o perdão inclui a educação ou esclarecimento com relação as brutalidades. A sujeição passiva as grosserias e insolências pode potencializar os processos de força e agressividade do contraventor. Esta disponibilidade da pessoa para o processo educativo, apesar de ter sido vítima, revela a nobreza de sentimentos e virtudes como a capacidade de se colocar no lugar do outro, afabilidade, capacidade de suportar, serenidade e, enfim, o tão difícil processo da compaixão em relação ao ofensor descrito por Enright.

  • 1- ______ A psicologia do Perdãohttp://www.amenteemaravilhosa.com.br, 2017;
  • 2- ______ O poder do perdão: descubra como ele pode mudar a sua vida http://www.psicologiaviva.com.br, 2018.
  • 3- Bueno, Emerson. O perdão não é um sentimento, é uma decisão, 2017;
  • 4- Gonçalves, Sara. Razões para perdoar, 2014;
  • 5- Oliveira, José H. Barros de. Perdão e Optimismo: abordagem intercultural. Faculdade de Psicologia e C.E., Univ. do Porto. Psicologia Educação e Cultura, vol. XI, nº 1, pp.129-146, 2007;
  • 6- Santana, Rodrigo Gomes; Lopes, Renata Ferrarez Fernandes – Aspectos Conceituais do Perdão no campo da Psicologia. Psicologia: ciência e profissão, vol.32, nº3. Brasília,  2012;
  • 7- Vieira, Paulo. Poder e Alta Performance. São Paulo: Gente. pp. 240 a 243, 2017.

Câimbra do Escritor e as Implicações Emocionais

Você já se deparou, alguma vez, com um problema que não faz a menor ideia de como enfrentá-lo? Ou mesmo já se sentiu como uma pessoa estranha do tipo um mutante ou um Eduard, mãos de tesouras?  Pois é, diante de tanta dificuldade para escrever que é acompanhada de aleijão, dores, câimbras, espasmos e incômodos físicos cada vez mais embaraçosos e diante do desempenho insatisfatório e desfavorável da psicomotricidade fina em algumas tarefas específicas, assim como levando em consideração a necessidade de escrever devido a rotina da profissão, eu tenho pensado muito sobre esta minha condição de saúde que convivo desde a infância e duas circunstâncias são bastante evidentes e categóricas: a sensação de estar lidando com algo estranho que eu ainda não sei como enfrentar e o sofrimento psíquico  inusitado e recorrente desde o meu processo de alfabetização.

Outra realidade é bastante evidente nesta caminhada. É que eu sempre fiz muito esforço durante toda a minha vida para conviver com esta condição crônica de saúde conhecida como distonia focal da mão. E este enfrentamento tem se dado pelo fato de ter que fazer interface com a civilização da escrita,  pelo enorme desafio para conseguir se concentrar no intuito de manter a caneta firme numa postura ideal para escrever, pelo menos, algumas sílabas e, por fim, por ter que enfrentar as complicações e enredamentos emocionais relacionado a este transtorno neurológico incapacitante como:

  • Sensibilidade perspicaz a qualquer pedido ou demanda para escrever, pois esta solicitação ou necessidade passa a ser uma espécie de afronta, um tormento e uma ameaça;
  • Lamúria inteligível e irremediável, processo de enraivecimento e rancorização por tentar e não conseguir escrever;
  • Sentimento de desamparo e exclusão de um padrão social;
  • Sentimento de inadequação;
  • Vergonha das mãos deformadas e das garatujas conseguidas com muito esforço;
  • Tendência ao retraimento, sentimento de desespero e insegurança, humor irritadiço;
  • Medo do lápis e do ato de escrever;
  • Busca de afirmação típica de Pessoas Especiais e consequentemente vulnerabilidade da autoestima;
  • Ceticismo ou reação constantemente negativa diante de qualquer tratamento; 
  • Mudança no nível de energia apresentando cansaço e exaustão com frequência, dentre outras. 

É importante salientar que estas evidências e contratempos que compartilho aqui são somente algumas características não-motoras que podem ser comuns e preponderantes a qualquer pessoa com síndrome da câimbra do escritor. Mas, na minha história de vida sempre estiveram me atormentado a todo momento variando de intensidade e de acordo com as ocasiões e épocas específicas da vida. 

Além disso, ainda tem um outro aspecto que interfere consideravelmente na dimensão  emocional de todos nós que vivemos com esta deficiência estranha. Você já foi vítima de comentários inconvenientes que subestima ou menospreza o teu sofrimento?  Pois é,  o sofrimento aumenta cada mais quando convivemos com os julgamentos manifestado pelas pessoas através de atitudes ríspidas, incompreensíveis e não condescendentes. Neste sentido, tenho escutado  palavras ou frases “de efeito” – que, na verdade, aborrece demais qualquer paciente com câimbra do escritor e desconsidera, deverasmente, sua condição de incapaz  – como as seguintes:

  • “Você precisa ser mais forte e resistir”;
  • “Você está criando uma situação para chamar atenção”;
  • “Existem pessoas em piores situações”;
  • “Você está apenas tendo um dia ruim”;
  • “Todo mundo fica cansado”;
  • “A gente faz muitas coisas com as mãos, elas não servem só para escrever”;
  • “Você precisa se divertir mais, fazer exercícios…”;
  • “Não pode ser tão ruim assim”;
  • “Você parece que gosta de sentir pena de si mesmo”.

Atitudes e palavras como estas, das pessoas em geral, podem revelar discriminação,  intransigência, indelicadeza, indiferença, desdém e dificuldade de lidar com a dor insuportável do semelhante de acordo com a situação. Todo aquele que não consegue se enquadrar num padrão social vigente, automaticamente, torna-se inconveniente e passa a ser visto como uma pessoa intolerável. Segundo com minha experiência, tais comportamentos nos enfraquece e nos faz, cada vez mais, perder as esperanças.  E, além disso, podem complicar ou perturbar ainda mais a condição da doença ou  impedimento corporal e a saúde mental do paciente que vive com a Síndrome da Câimbra do Escritor (distonia focal da mão).

Embora eu, geralmente, goste de valorizar as opiniões das pessoas sobre as questões que envolvam a minha vida, elas perdem totalmente o impacto quando se trata desta minha condição crônica de saúde. Para minha própria sanidade, tive que aprender a ser independente da opinião dos outros e viver a minha vida da melhor maneira que conheço e  da forma como fico mais à vontade, independentemente do que os outros pensam ou dizem.

A opinião de alguém sobre nós mesmos não precisa se tornar a nossa realidade. Encontrar alívio deve ser nossa prioridade número um. Não temos que agradar aos outros. Espero que familiares, amigos e colegas de trabalho nos respeitem por isso.   Tom Seaman,  escritor e paciente com distonia generalizada.

Desta forma, a minha luta para viver harmonicamente num padrão civilizatório, em que a escrita é algo natural e espontânea, tem sido cotidiana e nesta odisseia tenho percorrido caminhos muito duros e inflexíveis, pelo fato de, a todo momento, ser confrontado e demandado a escrever. E assim presumo que seja com todo paciente com distonia focal da mão ou membro superior, cada qual com sua peculiaridade. Mas, apesar de tudo, estou aqui sobrevivendo, de forma eremítica, as dificuldades e intempéries do cotidiano. Afinal, consegui estudar, ter uma profissão e, a todo momento, estar sobrevivendo e superando as limitações típicas da doença que me transformou numa Pessoa Especial com uma deficiência física estranha.

Assim sendo, mesmo diante de tanto dificuldade para se enquadrar na civilização da escrita e diante de tanto sofrimento psíquico, posso dizer que aprendi a desenvolver características psicológicas assertivas próprias da pessoa com deficiência como as seguintes: ter um olhar distinto e mais empático para com todos os seres, ter uma maior criatividade e percepção mais refinada do universo subjetivo,  ter uma maior tendência a superação das dificuldades e desenvolvimento de habilidades para compensar uma limitação, busca incansável para ficar melhor ou encontrar alívio,  assim como um padrão mais elevado de resiliência e invulnerabilidade.  Pois bem, tenho percebido que estas características subjetivas tem coexistido,  de forma paradoxal,  àquelas supramencionadas, tornando-me incomum e mais autoconfiante para lidar com as aflições oriundas desta situação. E tenho compreendido como é estranho e sinuoso tudo isto, pois, por um lado,  deparo-me com dificuldades extremas que precipita implicações emocionais fortes todas as vezes quando me esbarro com a necessidade de ortografar  e, por outro lado, defronto-me com habilidades notáveis como que para compensar o impedimento físico e suas complicações.

Mas, mesmo assim, continuo sem saber como enfrentar, de fato, esta deficiência estranha em minha vida. Viver bem com distonia é um desafio, já que muitas vezes não dispomos de  conhecimentos e terapias  necessárias para nos dar um suporte adequado e nem tão pouco encontramos pessoas que possam nos ajudar efetivamente, pelo menos,  minimizando a gravidade da doença nos seus aspectos motores como a limitação física; não-motores como  as alterações das funções psíquicas tais como sensopercepção,  propriocepção,  atenção e  psicomotricidade; e, por fim, tendo uma melhor compreensão de suas implicações emocionais.

Neste aspecto, a importância de algumas instituições de pesquisa, estudo e grupos de apoio ao paciente da distonia pelo mundo afora tem trazido algum suporte e alívio do sofrimento psíquico e  possibilidades de elaboração subjetiva e compreensão interna das dores e tristezas do paciente com distonia.  É preciso que as pessoas se autorizem a sentir plenamente as dores das perdas e do fracasso. O fato de haver um imperativo de uma forma de escrever socialmente estabelecida  só faz com que o paciente se sinta mais culpado por não cumprir este ideal. Porque se a regra é escrever, então a câimbra do escritor é um desvio. E, portanto,  passa a ser socialmente vergonhoso, irritante e que causa constrangimento.  Daí, a relevância do acolhimento de parentes e grupos de apoio para o bem-estar de  todos nós que somos pacientes desta condição de saúde e  de deficiência excêntrica.

O grupo constitui um contexto enriquecido no sentido de proporcionar condições de prevenção e promoção da saúde, sensibiliza os participantes quanto às vivências emocionais, possibilita a expressão das tensões e sentimentos, amplia a percepção e estimula a criatividade. A técnica grupal também se mostra uma forma de intervenção para o cuidado com o sofrimento psíquico e pode auxiliar para a melhora das relações humanas.                                                                Cybele Carolina Moretto – Psicóloga.