La Crampe de L’écrivain

Crampe de l’écrivain é o nome na língua francesa para a doença/deficiência neurológica conhecida no Brasil com o nome de câimbra do escrivão.  Na verdade, a tradução do francês para as línguas inglesa e portuguesa é “câimbra do escritor”, assim como  para qualquer outra língua é desta forma; na língua espanhola, por exemplo, CE é “calambre del escritor”.

A língua portuguesa é complexa; tanto faz um termo quanto o outro. Mas, eu penso que “Câimbra do escritor”, assim como está na língua francesa, é mais adequado –  e etimologicamente correto –  para categorizar este tipo de Distonia de Tarefa Específica. De acordo com o dicionário Aurélio a palavra “Escrivão” é sinônimo de “Escriba” e significa: “oficial público encarregado de escrever autos, atas, termos de processo e outros documentos legais junto a diversas autoridades, tribunais, corpos administrativos, etc”.  Com relação a palavra “Escritor“, a definição mais plausível é: “a pessoa que se expressa através da arte da escrita”. Por isso que, daqui em diante, ao se referir a esta condição de saúde, eu irei sempre falar em  “CE – Câimbra do Escritor“.

Na língua francesa,  a câimbra do escritor é descrita como Dystonie de fonction que significa distonia focal ou distonia de função específica. Esta categorização é usada na literatura médica brasileira, também.

Quando se tem uma limitação ou “impedimento corporal” desta natureza,  o primeiro impulso é buscar informação sobre a doença e alguma forma para minimizar o sofrimento; e depois procurar pessoas com a mesma condição de saúde para compartilhar as experiências de vida com distonia. Pois, além das limitações físicas, a distonia afeta a autoestima, provocando graus de ansiedade e depressão. E em alguns casos, a doença leva ao isolamento do convívio social e de acordo com os neurologistas, os impactos no trabalho podem ser ainda mais prejudiciais, já que os portadores da câimbra do escritor apresentam a impossibilidade da escrita e da digitação.

Com este Blog, eu pretendo criar um espaço informativo, de conscientização e educação  sobre esta doença estranha que é considerada o 3ª distúrbio neurológico do movimento mais comum depois da Doença de  Parkinson e do Tremor Essencial. Almejo, também, ajudar a desmistificá-la e encorajar a todos que vivem com distonia a sair do ANONIMATO e do CASULO.  Na verdade, a motivação para tal façanha surgiu depois de  ter participado da Comunidade  “Dystonia Neuro Movement Disorder”  no WegoHealth.

Eu acho que a nossa motivação maior deve ser a seguinte: (1º) buscar uma articulação de  todos os pacientes para sermos Defensores das pessoas com distonia e desenvolver relações diplomáticas com nossos líderes legislativos para sensibilizá-los com relação a nossa condição de saúde e ajudá-los a compreender os desafios de todos aqueles que vivem com distonia; (2º) buscar sensibilizar a população e os políticos com relação a um esforço global para investir nas pesquisas em busca da cura da distonia e outros transtornos neurológicos do movimento como a doença de Parkinson.

Nas minhas pesquisas para entender mais sobre a Câimbra do Escritor, tenho visto que em alguns países do chamado primeiro mundo as pessoas que sofrem de distonias tem um melhor suporte em todos os sentidos e estão mais organizadas a exemplo da Dystonia Advocacy Network, Amadys, Deutsche Dystonie Gesellschaft, The Dystonia Society e outras associações sem fins lucrativos; grupos de apoio e fundações de pesquisas como a DMRF.

Para que o leitor tenha noção da gravidade desta doença, eu escolhi esta foto abaixo de uma pessoa com câimbra do escritor que encontrei no site alemão Entwicklungsgruppe Klinische Neuropsychologie (Desenvolvimento de Neuropsicologia Clínica) e que mostra exatamente como é  uma das  posturas compensatórias da mão(sintoma)  ao tentar escrever:

Destaques no campo da Distonia

Depois do relatório preparado pelo WordPress.com e publicado neste blog, fiquei pensando sobre tantas coisas que me chamaram a atenção no tocante ao ativismo da distonia no ano de 2014. Trago aqui uma pequena retrospectiva das colaborações de pessoas, blogs e organizações  no tocante ao bem estar dos pacientes com distonia e no que diz respeito ao avanço das pesquisas neste campo. Estes destaques  são recortes de minhas vivências e lembranças de um ano que passou e que  foi muito produtivo no ativismo da distonia.  Penso que este novo ano teremos muitas conquistas e avanços nesta área. Com relação às pessoas que contribuíram de alguma forma para os pacientes com distonia, eu destaco as seguintes:

  • Lars-Bo Breyen Hilker com a página no Facebook: Lars-Bo’s Pictures about Dystonia With and without text.
  • Pamela Sloate com uma lista interessante de Blogs sobre distonia na página do Facebook: Dystonia BloggerMania.
  • Ana Raquel Périco Mangili com seu depoimento concedido a este blog.
  • Gerson Silveira com seus contatos para articular entrevistas na mídia – Grupo de auto ajuda “Câimbra do Escrivão” no Facebook.
  • Tatiana Lima Santos com o grupo “distonia” no Facebook.
  • Brenda Currey Lewis com o livro: A Twisted Fate: My Life With Dystonia.
  • Mike Beck com o livro: A Body With a Mind of its Own.
  • Patrice Arnould  com o livro: Dystonies: nos corps en désaccord.
  • Franz Krämer com sua entrevista concedida a este blog.
  • Cybelle Saffa com a Petição Pública: Portadores de Câimbra do Escrivão também são cidadãos.
  • Entrevista de Beka Serdans ao site Everyday Health – I Solved My Medical Mystery and Found Relief for My Twisted Neck. 
  • Maristela Zamoner com o artigo: Perante a Lei a Câimbra do Escrivão é uma deficiência física do tipo monoparesia  

Com relação a Campanhas importantes, eu destaco as seguintes:

Com relação aos destaques do Blog:

  • Indicação para concorrer ao prêmio Herói Ativista da Saúde do WegoHealth
  • Página do Facebook: Vivendo com Distonia

Com relação a uma música, eu destaco:

  • Ser Diferente É Normal – Música de Vinicius Castro e Adilson Xavier.

Com relação a Blogs brasileiros sobre a Síndrome da Câimbra do Escritor que descobri no ano de 2014, destaco:

  • Relatos de Distonia – Denise Santos
  • Distonia – Valquiria Corder

Com relação às pesquisas no campo da distonia, destaco:

  • As descobertas e avanços nas investigações científicas feitas pelos pesquisadores financiados pela DMRF.

Com relação a página no estilo “site de saúde” do Facebook, destaco:

Um amiga que sempre contribuiu com comentários questionadores e que nos levam a refletir e pensar:   Olga María González Arias.

Um centro de tratamento e pesquisa no campo da distonia, destaco: Unineuro.

Um destaque especial vai para: As pessoas que contribuíram financeiramente para o avanço das pesquisas e todos os blogs sobre distonia do grupo “Dystonia BloggerMania” no Facebook.

Os números de 2014

Os duendes de estatísticas do WordPress.com prepararam um relatório para o ano de 2014 deste blog.

Aqui está um resumo:

A sala de concertos em Sydney, Opera House tem lugar para 2.700 pessoas. Este blog foi visto por cerca de 27.000 vezes e Se fosse um show na Opera House, levaria cerca de 10 shows lotados para que muitas pessoas pudessem vê-lo.

Eu sou grato as pessoas que tem acompanhado o blog e  interagido de alguma forma.  Precisamos fortalecer o movimento mundial de conscientização da distonia através da “Comunidade Global da Distonia” e se engajar na campanha “É bom ser do Bem”.

The concert hall in Sydney Opera House can seat 2,700 people. This blog was viewed about 27,000 times and If it was a show at the Opera House, it would take about 10 sold-out shows that many people could see it.
I am grateful the people who have followed the blog and interacted in some way. We need to strengthen the worldwide movement of dystonia awareness by “Dystonia Global Community” and engage in campaign: “It’s good to be the Well“.

Clique aqui para ver o relatório completo

Não aguento mais

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Não aguento mais esta tal de distonia.

Não aguento mais este papo de esperança pela cura.

Não aguento  mais este impedimento para escrever.

Não aguento mais conviver com  os transtornos sociais e psicológicos causados pela doença na minha vida.

Não aguento mais saber que o tempo passa e eu nunca vou saber o que é escrever naturalmente, normalmente…

Não aguento mais tanta especulação, tanta teoria, tanto “blá,blá,blá”.

Não aguento mais tanta gente dando sugestão de como lidar com esta doença devastadora do movimento…

Não aguento mais a omissão do governo para investir em pesquisas

Não aguento mais a falta de articulação dos pacientes deste país.

Não aguento mais esta desilusão…

Não aguento mais viver com distonia.

Distonia Mioclônica da Escrita

 

Você já ouviu falar sobre este tipo de distonia? Não. Pois é, este é um transtorno neurológico do movimento raro caracterizado por uma distonia leve ou moderada associado a tremores mioclônicos rápidos e fulgurantes. A Síndrome de Distonia Mioclônica (MDS) é mais evidente nos músculos distais e  permanece confinada mais nas extremidades superiores, às vezes envolvendo o tronco. Como conseqüência disso, a deficiência afeta mais as mãos.

De acordo com o Dr Christoph Kamn, a Mioclonia é irregular no tempo e têm geralmente uma distribuição segmentar. Ela afeta principalmente o pescoço, os braços e às vezes o  tronco. As manifestações dos sintomas são geralmente desencadeadas por estímulos auditivos, visuais ou cinestésicos. Muitas vezes, suficientemente intensos para interferir na escrita, no ato de beber ou alimentar-se.

Para o neurologista Dr. Carlos Medina da Pontifícia Universidade Católica do Chile,  “a mioclonia é caracterizada por um espasmo muscular involuntário, como um relâmpago, abrupto, instantâneo, não associado a perca da consciência e cuja origem, por definição, se encontra no  Sistema Nervoso Central”

A Síndrome da Câimbra do Escritor Mioclônica é, portanto,  caracterizada por tremores musculares visíveis muito distinto dos espasmos distônicos e em  70% dos casos apresentam mioclonias em repouso.  Esta é uma diferença básica da distonia focal que durante o sono desaparece, conforme descreve a literatura médica.

Memórias de um Tratamento

Lembranças do meu 1º tratamento para a distonia de tarefa específica – escrita

My 1st treatment’ memories for specific task dystonia - writing

Antes da 1ª aplicação da toxina botulínica - 16/07/2009

Antes da 1ª aplicação da toxina botulínica – 16/07/2009 Before the 1st application of botulinum toxin injections.

Depois da 1ª aplicação do botox - 25/08/2009

Depois da 1ª aplicação do botox – 25/08/2009 After the 1st application of botox injections.

Obs.: Fotos de Dr. Jovany Medeiros, Neurologista.  Photos by Dr Jovany Medeiros, Neurologist.

Uma infância com Distonia Paroxística

208699_520466291325077_2059074590_nEu tenho o maior prazer em trazer mais um Recorte de uma Vida com Distonia. Nesta 9ª edição abro espaço para a minha mais nova amiga da “Comunidade Distonia”, Ana Raquel Périco Mangili. Ela tem 19 anos e mora em Barra Bonita, interior  de São Paulo e vive com Distonia Paroxística desde a infância. Ana faz o curso de Jornalismo na UNESP e trabalha na ADAP.

Ela me disse que decidiu relatar sua experiência com este tipo raro de Transtorno do Movimento para, de alguma forma, poder ajudar a divulgar este transtorno neurológico do movimento que ainda é muito pouco conhecido, mas afeta drasticamente a vida de aproximadamente 500 mil brasileiros. O texto escrito por ela foi publicado também no Blog Relatos de Distonia da colega blogueira Denise Santos. Ana me perguntou se poderia publicar sua história em ambos os blogs. Eu disse que não tinha problema, pois o alcance para a conscientização e a educação sobre a distonia seria maior.

Ela disse que sempre procurou se adaptar às circunstâncias de modo que a Distonia não a impedisse de atingir seus objetivos. E afirma  que  teve muitas frustrações e alguns desejos não realizados na sua história devido a sua condição física, mas jamais apagaria o seu passado, pois com ele aprendeu lições valiosas que carrega por toda sua vida e que agradece a todos que sempre a incentivaram para o desenvolvimento de suas potencialidades, que lhe mostraram o quanto ela é igual a qualquer outra pessoa e em especial aos seus pais que sempre deram o suporte necessário para uma vida de máxima independência possível.

Vamos ao relato da experiência de uma infância com distonia de Ana Raquel:

 Eu nasci prematura, de sete meses e meio de gestação. Por ter tido um bom peso e reagido como qualquer outro bebê na hora do parto, os médicos acharam que eu não precisava ficar na incubadora. Essa decisão só foi vista como um erro seis meses depois, quando minha mãe percebeu que eu não conseguia sustentar meu pescoço sozinha, como era esperado pelo desenvolvimento motor da faixa etária em que eu estava. Meus pais então correram atrás de médicos e exames, e receberam a notícia de que provavelmente eu havia sofrido uma anóxia (falta de oxigênio no cérebro) em algum momento pós-parto, quadro que era nomeado de “encefalopatia crônica não-progressiva” (ou Paralisia Cerebral, um termo que lentamente vem caindo em desuso).

Porém, essa falta de oxigênio que sofri atingiu apenas uma pequeníssima área do cérebro, responsável pela coordenação motora e pelo tônus muscular, coincidentemente a mesma área que é afetada em quem possui o distúrbio neurológico Distonia, de origem genética. Por este motivo, meu diagnóstico (que, de fato, só foi fechado mais tarde) foi de “Paralisia Cerebral Distônica”, ou simplesmente “Distonia adquirida”.

Este é um dos tipos de paralisia menos comuns, assim como é raro a Distonia atingir as pessoas desde o seu nascimento. Portanto, focarei este depoimento na minha infância, mostrando  como é ser uma criança com Distonia e ter que lidar desde cedo com as limitações físicas impostas por este distúrbio neurológico.

Após o diagnóstico, meus pais investiram pesado em tratamentos e fisioterapia, para me possibilitar alcançar o melhor desenvolvimento motor que eu pudesse conseguir. Eu não possuía firmeza no tronco nem no pescoço, pois as crianças distônicas possuem hipotonia (fraqueza muscular) quando pequenas, apenas depois que crescem é que passam a ser hipertônicas (a rigidez muscular típica da Distonia). Sendo assim, demorei um pouco para andar devido ao pouco equilíbrio da cintura para cima, apesar de minhas pernas não terem sido afetadas.

As partes do meu corpo atingidas pela Distonia não se enquadram nas classificações típicas desse distúrbio neurológico. Chama-se de tipo generalizado quando são afetados músculos do corpo inteiro, mas no meu caso, além de minhas pernas não terem sido atingidas, minha audição foi afetada, um acontecimento raríssimo entre os portadores da Distonia. Outro item de diferenciação no meu caso é que não possuo padrões de postura e movimentos fixos, como grande parte dos distônicos. Minhas capacidades físicas alternam segundo meus dois principais padrões, isto é, quando meu cérebro bloqueia os movimentos de um ou outro lado do meu corpo, em períodos alternados. Ou seja, tenho todos os movimentos do corpo, mas em dias diferentes.

Essa mudança de padrão é o que marcou a minha infância (e marca minha vida até hoje). Nasci destra, mas como meu braço direito sempre foi mais afetado pelos meus padrões físicos, tive que aprender a ser canhota. E mesmo assim meu braço esquerdo também não está 100% livre dessas variações. De criança, os padrões mudavam em questão de horas. Acordava com um braço melhor num dia, dormia e no dia seguinte já estava com outro padrão. Portanto, quando tinha algum evento importante em determinado dia, eu fazia tipo uma “tabelinha mental” para saber com qual padrão eu iria estar na ocasião, e ficava extremamente feliz se este favorecesse meu braço esquerdo, de modo que me possibilitasse uma maior independência nas atividades.

Porém, quem tem Distonia sabe que o estado emocional influencia demais no nosso desempenho físico, portanto, bastava eu ficar ansiosa para o meu padrão mudar completamente e meus movimentos endurecerem. Até hoje, tenho que estar calma para conseguir realizar qualquer atividade, por mais simples que ela seja, como digitar no computador, por exemplo. Se eu ficar pensando no movimento a ser feito, o músculo trava completamente e não consigo fazer nada até relaxar de novo. Logo, ter paciência é uma prática que venho exercitando desde pequena. A decepção e a revolta contra o próprio corpo não adianta nada e só piora a situação.

Já em relação ao meu braço direito, eu fui ganhando algum controle sobre ele com o passar do tempo. No começo, só havia movimentos involuntários, o que me rendia alguns “micos” ao esbarrar em objetos ou nas pessoas. Por isso, eu procurava me posicionar sempre com o lado esquerdo ao ficar perto de alguém e evitava segurar utensílios frágeis com as duas mãos.

O curioso é que, apesar de eu ter nascido com este distúrbio motor, levei algum tempo para percebê-lo e defini-lo conscientemente. A criança que já nasce com alguma deficiência só percebe a sua diferença no contato e na comparação com os demais. Até antes de entrar na escolinha, com cinco anos, eu não tinha essa concepção de que eu era “diferente”. Para mim, era normal sentir dores nos músculos, ter sessões diárias de fisioterapia e possuir dificuldade com algumas tarefas motoras. Foi exatamente por me sentir igual ás demais crianças que só fui descobrir minha perda auditiva com oito anos de idade.

Lembro-me de colorir com lápis de cor meus desenhos e achar a pintura perfeita, até olhar para a folha do coleguinha ao lado e ver que, na verdade, eu havia colorido tudo borrado e fora do lugar. Mas, desde que ninguém apontasse essas sutilezas, eu continuava achando o meu desenho bonito. Aprendi a valorizar a diferença desde cedo, e a ver o universal presente em cada particularidade humana. Óbvio que eu não deixava de questionar o porquê de grande parte de meu material escolar receber alguma adaptação, como linhas maiores nos cadernos e engrossadores nos lápis, e às vezes me revoltava ter que entregar tarefas de recortar, colar e pintar todo dia, enquanto meus coleguinhas só as faziam duas vezes por semana. Mas, conforme a gente vai crescendo, percebemos que nada foi à toa e que as recompensas por todo o esforço extra valem a pena.7684_639228726115499_910664248_n

Com o tempo, fui naturalmente me destacando na escola, pois além de minhas particularidades físicas (nem eu mesma conheci pessoalmente outro portador de Distonia até hoje), eu sempre fui muito dedicada aos estudos e era uma das primeiras alunas da classe. Isso acabava provocando o ciúmes e a incompreensão de algumas crianças, e então começou o pesadelo do Bullying. Falavam de mim às minhas costas, tampavam a boca com a mão e riam na minha frente, como se eu não percebesse tudo ao meu redor. Por vezes até imitavam meus movimentos erráticos, e foi aí que a minha diferença física começou a pesar psicologicamente. E por mais que meus pais e eu fôssemos à luta para acabar com a discriminação, a própria escola e alguns professores colaboravam para a perpetuação das injustiças. Recordo-me de uma professora que, para chamar a atenção de um aluno hiperativo, disse em voz alta: “Fulano, senta e copia da lousa, porque até a Ana já terminou de copiar a matéria” (destacando a minha coordenação motora lenta). Inclusive, parei de participar das aulas de Educação Física com 13 anos, porque já não aguentava a discriminação dos colegas que não me queriam nos grupos esportivos deles.

Se na escola a discriminação era motivada pelo ciúmes, fora dela o preconceito ocorria pela descrença em minha capacidade intelectual, como se a incoordenação motora só pudesse existir acompanhada de deficiência mental. Me estressava sair na rua e me tornar o centro das atenções e ser tratada por apelidos como “querida”, “meu bem”, “amorzinho”. Essa era uma das poucas coisas que me faziam perder a paciência já desde a tenra idade, e ainda depois alguns se espantavam quando eu me exaltava, vai entender…

Meus movimentos deram uma melhorada incrível quando comecei o tratamento com a Toxina Botulínica (Botox), aos dez anos de idade. Ouvia, enquanto estava na sala de espera, outras crianças chorando muito pelas dores das agulhadas, e mesmo assim mantive a calma e não reclamei quando chegou a minha vez, pois meus pais me haviam explicado anteriormente os benefícios que este produto poderia me trazer. Lembro-me que o efeito da primeira aplicação durou oito meses, e minha felicidade foi enorme quando consegui realizar certas atividades que nunca tinha feito sozinha antes. “Olha, mãe, eu consigo agora!”, gritei, toda contente ao suspender, com os braços, meu corpo no ar entre duas barras paralelas de ginástica, durante uma visita ao parquinho da cidade. Desde então, espero ansiosamente pelas mais de dez agulhadas que levo no corpo inteiro a cada aplicação de Botox.

Coincidentemente, foi nesse mesmo período que comecei a usar meus aparelhos auditivos (AASI). Desde pequena, assistia à televisão em um volume bem mais alto do que o normal, e sempre olhava para a boca das pessoas (fazendo leitura labial) quando elas vinham falar comigo. Eu, automaticamente, compensava com a visão e com o hábito da leitura as informações que meus ouvidos não compreendiam. Sempre ouvi quase todos os sons, o difícil é compreender a fala humana, pois as palavras chegam “embaralhadas” aos meus ouvidos, como se fossem de uma língua estrangeira que não conheço. Achava isto normal, até que, com oito anos, a professora passou uma atividade envolvendo a escuta de um CD no rádio, e percebi que meus colegas entendiam tudo o que estava sendo dito e eu não. Fiquei indignada e desde aquele momento aceitei que havia algo de errado com a minha audição.

Porém, levou cerca de um ano até eu conseguir convencer meus pais desse fato. Parecia inacreditável para as pessoas ao meu redor que, além de minha deficiência física, eu também possuía algum grau de surdez, e mesmo assim seguia meu desenvolvimento pessoal como qualquer outra criança da minha idade. Após os exames auditivos, foi constatado que eu possuo perda auditiva neurosensorial moderada bilateral. Porém, há uma particularidade no meu caso. Minha perda é estável, mas minha sensação auditiva não. Isso se enquadra em um tipo de Neuropatia Auditiva, ou seja, uma provável oscilação do nervo auditivo, assim como meus variáveis padrões físicos. Resumindo, é a Distonia atingindo minha audição, atrapalhando meu desempenho auditivo (mesmo utilizando os AASI) e trazendo variadas sensações incômodas, desde um zumbido que nunca cessa até a percepção de sons “fantasmas” em determinadas ocasiões.

Beginning to read chapter 5

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Photo by: Gabi Borges

 

Being diagnosed with dystonia musculorum deformans was, to say the least, confusing and frustating. But being seven years old, I wasn’t thinking down the line. I was just having to deal with the now“.  Reading these first few sentences of chapter 5 of the Brenda’s book, I was thrilled because I know it’s not easy being diagnosed with dystonia and living with this devastating disease is the  worst of all.

I think A Twisted Fate is a nice book to read and it has a touch of humor in its narrative of the experiences of a lifetime with dystonia. Worth reading. Indeed, it’s a easy and delicious reading.

I am sharing this book with the Dystonia Community because this is a way to know other experiences with dystonia to feel supported. My friend Brenda is to be congratulated for her efforts and her resilience… 

Edmonton is too far from my city, but when I’m  reading the book I feel so close to Brenda because I know what is born with dystonia and only be diagnosed much later. At last, the narrative leads us to better understand our feelings and real suffering related to our life with dystonia.

Well, this is another one book I’m reading about a life with dystonia and I recommend it to everyone!  For more information about the book visit  “atwistedfate.ca“.

Começando a Ler o Capítulo 5

Ser diagnosticada com dystonia musculorum deformans foi, no mínimo, confuso e frustrante. Mas, tendo sete anos de idade, eu não estava querendo me deprimir. Eu só estava preocupada em como lidar com isto, agora.” Lendo estas primeiras frases do capítulo 5 do livro de Brenda, fiquei emocionado, porque eu sei que não é fácil ser diagnosticado com distonia e viver com esta doença devastadora é o pior de tudo.

Eu acho que “A Twisted Fate” é um bom livro para ler que tem um toque de humor em sua narrativa das experiências de uma vida com distonia. Vale a pena comprar! Na verdade, é uma leitura fácil e agradável.

Eu estou compartilhando este livro com a Comunidade Distonia porque esta é uma maneira de conhecer outras experiências com distonia para se sentir mutuamente apoiado. Minha amiga Brenda está de parabéns pelos seus esforços e sua capacidade de resiliência…

Edmonton é muito longe da minha cidade, mas quando eu estou lendo o livro eu me sinto tão perto de Brenda, porque eu sei o que é nascer com distonia e  ser diagnosticado somente muito mais tarde. Enfim, a narrativa nos leva a compreender melhor os nossos sentimentos e o real sofrimento relacionados a nossa vida com distonia.

Este é mais um livro que estou lendo sobre uma vida com distonia e recomendo a todos! Para saber mais sobre o livro acesse o site “atwistedfate.ca“.