Amós e as injustiças sociais

 

Quando eu vejo uma pessoa com intenção de se candidatar a um cargo político sempre me vem  a seguinte questão: “será que esta pessoa está interessada, realmente, no bem-estar e na comodidade da sociedade, no desenvolvimento humano e na administração do serviço público em favor da população ou preocupado meramente com interesses particulares como  obter benefícios e oportunidades de crescer em termos de poder, riqueza e domínio?”. Neste sentido, podemos dizer que a ganância e desejo pelo poder; a corrupção; as diferenças sociais; a luta contra o domínio hegemônico de ideologias dominantes; os privilégios e distinções não são realidades exclusivas de hoje. Na época do profeta Amós já existia tudo isso que estamos vivenciando hoje no nosso país e muito mais: tribunais a favor dos ricos, discriminação, carestia, cobrança de impostos exorbitantes, avareza, vida de luxo e ostentação as custas da exploração da população mais carente e desprovida…  Na verdade, quem envereda nesta seara deve fazer uma reflexão dos seus reais propósitos dentro de uma perspectiva ética. Não dá mais para acreditar em tanta farsa e invencionice! Este modelo de política que representa classes, grupos, conveniências precisa ser repensado. 

De acordo com os historiadores, por volta do ano 760 A.C., o profeta Amós que era um vaqueiro, agricultor e cultivador de sicômoros  (um fruto comestível) vivia em Teqoa (Técua), nos limites do deserto de Judá, perto de Belém passou a ser considerado o profeta em favor da minorias e contra as injustiças cometidas pelos governantes da época. Este homem simples conhecido como um dos profetas menores residia neste povoado que ficava situado a menos de 20 km ao sul de Jerusalém.  Indignado com tanta injustiça na região, ele deixou sua vida tranquila e foi anunciar e denunciar as injustiças sociais cometidas contra os mais pobres e mais fracos, durante o reinado de Jeroboão II  no Reino de Israel Setentrional (787-747 AC) e no Reino de Ozias em Judá (781-740 AC), que existiam já naquela época. De acordo com a literatura sagrada, naquele período, um leão começava a rugir: era o divino que colocava em polvorosa todo um regime de iniquidades.

Menos de um século antes da missão, ensinamentos e pregações de Amós, tinha acontecido no Reino de Israel Setentrional um golpe militar, promovido por um antepassado de Jeroboão II, o general Jeú, que, ao romper os acordos com os vizinhos, jogara o país em profunda dependência, especialmente, da grande rival Damasco, que era governada pelos Arameus. O Reino de Israel Setentrional levou muito tempo para recuperar a sua autonomia. E isto começou com o rei Joás, pai de Jeroboão II, que governou entre 797 e 782 AC. Conta a história que o reinado de Jeroboão II (783 – 743 AC) ao se recuperar da ditadura militar tornou-se uma época aparentemente gloriosa para o Reino de Israel Setentrional que ampliava seus domínios e enriquecia, entretanto, o sistema administrativo, o que provocou a concentração da renda nas mãos de poucos privilegiados com o consequente empobrecimento da maioria da população e endividamentos dos pequenos agricultores. Estes ficavam tão endividados que chegavam à escravidão para pagar suas dívidas. Os tribunais, que teoricamente deveriam defendê-los da exploração dos mais poderosos, bem pagos por quem podia, decidiam sempre a favor dos ricos.

Nesse contexto, o luxo dos ricos insultava a miséria dos oprimidos e o esplendor dos cultos disfarçava a ausência de uma religião verdadeira. O que não é diferente de hoje com a ostentação dos templos e a ambição pelo poder e riqueza do homem pós-moderno. Desta forma, Amós denunciava essa situação com a rudeza simples e altiva e com a riqueza de imagens típicas de um homem do campo. A palavra de Amós incomodava porque ele anunciava que o julgamento de Deus iria atingir não só as nações pagãs, mas também, e principalmente, o povo escolhido já que se consideravam pessoas corretas, honradas e de bons costumes religiosos, mas na prática era pior do que os pagãos. Amós não se contentava em denunciar genericamente a injustiça social, ele denunciava especificamente:

  • Os ricos que acumulavam cada vez mais, para viverem em mansões e palácios (3:13-15; 6:1-7), criando um regime de opressão (3:10);
  • As mulheres ricas que, para viverem no luxo, estimulavam seus maridos a explorar os fracos (4:1-3);
  • Os que roubavam e exploravam e depois iam ao santuário rezar, pagar dízimo, dar esmolas para aplacar a própria consciência (4:4-12; 5:21-27);
  • Os juízes que julgavam de acordo com o dinheiro que recebiam dos subornos (2:6-7; 4:1; 5:7.10-13);
  • Os comerciantes ladrões e os atravessadores sem escrúpulo que deixavam os pobres sem possibilidades de comprar e vender as mercadorias por preço justo (8:4-8).

No livro de Amós, podemos ver denúncias contra as nações vizinhas como Damasco, a nordeste; Gaza, no oeste; Tiro, a noroeste; Edom, a sudeste e Amon e Moab no leste, por suas crueldades entre si e até mesmo, o mais extenso deles, contra Israel. Há, também, nos seus discursos, reprovações contra Judá e Israel, por sua idolatria e alienação coletiva. E ainda, podemos ver nos capítulos de 3 a 6 condenação a Israel por sua hipocrisia, a injustiça social, o orgulho e as falsas promessas de segurança da população.  Tudo isto se parece com o nosso contexto atual? Comportamentos político-sociais como ditadura militar, apropriação indébita e peculato, propina, enriquecimento ilícito, mentiras, interesses, partidarismo são peculiares ao tempo de hoje ou já era um costume característico desde aquele época remota?

Se as pessoas ricas de hoje construíssem como as pessoas do tempo do profeta Amós, certamente os elefantes já estariam extintos. Um sinal de riqueza era ter decorações com marfim nas paredes em suas casas. Amós 3.15.

Pois é. De acordo com Dionísio Pape,  os crimes de Israel apontados por Amós, uma pessoa simples, sem interesse de enriquecer através de cargos políticos são os seguintes:

  • “Vendem o justo (tsaddîq) por prata”: desprezo ao devedor; “E o indigente (‘ebyôn) por um par de sandálias”: escravização por dívidas ridículas;
  • “Esmagam sobre o pó da terra a cabeça dos fracos (dallîm)”: humilhação/opressão dos pobres;
  • “Tornam tortuoso e injusto o caminho dos pobres (‘anawim)”: desprezo pelos humildes;
  • “Um homem e seu filho são levados à mesma punição”: opressão dos fracos (das empregadas/escravas);
  • “Se estendem sobre vestes penhoradas, ao lado de qualquer altar”: falta de misericórdia nos empréstimos;
  • “Bebem vinho daqueles que estão sujeitos a multas, na casa de seu deus”: mau uso dos impostos (ou multas).

Amós, com os termos tsaddîq (justo), ‘ebyôn (indigente), dal (fraco) e ‘anaw (pobre), designa as principais vítimas da opressão na sua época. Sob estes termos Amós aponta o pequeno camponês, pobre, com o mínimo para sobreviver e que corre sério risco de perder casa, terra e liberdade com a política expansionista de Jeroboão II. É em sua defesa que Amós vai profetizar:  “ouvi esta palavra vacas de Basã, que estais no monte de Samaria, que oprimis os pobres, que quebrantais os necessitados…”. O apelo por justiça é o tema mais conhecido deste livro, porque evidencia a condenação de Deus aos que ficaram ricos através da corrupção. A partir desse contexto  é difícil dizer-se cristão, não é? Onde é que fica o exemplo prático? Enriquecendo às custas dos impostos da população tão indefesa? Discriminando os mais fracos e excluídos? Roubando, mentindo, disseminando o ódio, a falta de compaixão, a tirania, etc.? Mentiras e mais mentiras…   Para ser eleito e não perder as regalias, vale tudo! Considerando este contexto, fica muito difícil dar crédito aos discursos e promessas de pessoas candidatas a cargos políticos diante de tanta ganância, alianças ambiciosas, falta de honestidade, politicagem e manobras maquiavélicas. Aqueles eram tempos tão difíceis e sombrios quanto os de hoje? Parece que tudo se repete num novo formato.

De tanto ver triunfar as nulidades; de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça. De tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar-se da virtude, a rir-se da honra e a ter vergonha de ser honesto.  Rui Barbosa

Todas estas características dos governantes da época de Amós delineiam o homem não virtuoso na perspectiva socrática que é aquele caracterizado como indecente, corrupto, corrompido e desonesto. Para Sócrates as pessoas deveriam concentrar os seus esforços em serem virtuosos para si mesmos, seus familiares, amigos e para a comunidade a que pertencem, pois, a virtude deve ser conquistada também por todo o grupo humano, pela polis. Assim, segundo o filósofo, a melhor forma do homem virtuoso viver é esforçando-se pelo desenvolvimento da sua razão e do seu conhecimento e não buscando somente riquezas materiais que geralmente desviam o homem do caminho da virtude. Segundo ele, a virtude, portanto, é o bem mais precioso que a pessoa pode ter. 

O homem virtuoso, na minha opinião,  deveria ocupar todas as esferas da sociedade e principalmente a política. Nesta perspectiva, viveríamos numa sociedade mais harmoniosa, mais igualitária e justa,  menos egoísta e que garantisse os direitos humanos de todos.  Um político virtuoso e humanitário seria, portanto, antônimo do conhecido “politiqueiro” e um cidadão de bem seria aquele não corruptível! Esta é a ideia primordial e o grande desafio. Mas para isto, é preciso avançar nos valores morais, na qualidade das relações pessoais e conduta do homem na sociedade; na mudança deste contexto degradado das instituições  como a política que mais parece um balcão de negócios desabonando a dignidade humana, no zelo pela coisa pública, pelo Bem Comum (?), visando o desenvolvimento da comunidade em detrimento dos interesses particulares e, enfim, não permanecer na repetição dos mesmos padrões ancestrais de modelos primitivos de vida.

E para que isto aconteça é imprescindível o envolvimento de todos na construção de uma vida melhor e próspera para todos. Segundo o jornalista Sebastião Nery, só a participação  consciente da sociedade pode exigir políticas públicas fundadas na construção de uma realidade mais justa e com oportunidades iguais para todos. Todos que fogem da política e do supremo ato de lutar pelo interesse comum, garantem a sobrevivência e vida longa para os dilapidadores do interesse público.

“As funções públicas não podem ser consideradas como sinais de superioridade, nem como recompensa, mas como deveres públicos. Os delitos dos mandatários do povo devem ser severa e agilmente punidos.” Robespierre (1793).

Bibliografia:

ALMEIDA, João Ferreira de.  Bíblia Sagrada. Versão Revista e Atualizada.  2ª edição. Sociedade Bíblica do Brasil. 2008. Barueri  – SP;

PAPE, Dionísio. JUSTIÇA E ESPERANÇA PARA HOJE: A Mensagem dos Profetas Menores.  Primeira Edição. ABU EDITORA. 1982. São Paulo – SP.

 

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O Espelho do Homem

 

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No Dia Internacional do Homem – 19 de novembro, eu trago um  hino de Alex Polari  intitulado “O Espelho do Homem” que gostei muito. Ele problematiza com seu estilo lírico o comportamento masculino e sutilmente as relações de poder estabelecidas com o semelhante.

Para ser Homem é ser justo
Franco, leal e amigo,
Assim o Mestre mostrou
Esse tornou tão querido

 

Não é fácil ser homem
Se você acha que é
Lembrem  do  nosso modelo
Meu bom  Jesus de Nazaré.

 

Muitos pensam que Homem
É ser brabo e orgulhoso
Como se fosse virtude
De nos fazer mais viçoso

 

Alguns não mantiveram
Sinceridade com os outros
Fingem ser mais não são
E falam mal do irmão

 

Se disser e não for
Muito pior vai ficar
Quebrou com a palavra do Homem
Que Homem não pode Quebrar

 

Se você mexe com vício
Se arrepende mané
Que homem que se vicia
Um bom exemplo não é

 

Homem que é Homem se humilha
Pra na verdade estar,
E poder bem compreender
Aonde o Daime mostrar

 

Para ser Homem é ser justo
Franco, leal e amigo,
Assim o Mestre mostrou
E se tornou tão querido.

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Vivendo na Escuridão e Fora de Controle

a escuridaoQuando era criança, eu nunca entendia o motivo pelo qual eu tinha tanta dificuldade para escrever. Eu não sabia porque a minha alfabetização e aprendizagem da escrita era algo tanto doloroso quanto sofrido. Eu não entendia porque eu não conseguia controlar minhas mãos no simples ato de escrever.

Tudo parecia fora de controle. Comecei a ver a minha vida desmoronar antes de crescer.  Eu só percebia que algo estava errado dentro de mim…  Não conseguia controlar nada. Eu não entendia e ninguém me explicava nada. Muitas coisas aconteceram. Com o tempo, tudo piorou…   Na verdade, eu não sabia que algo errado estava  acontecendo na biologia do meu cérebro, ou seja, no processo de envio de sinais para as células nervosas que controlam os músculos envolvidos no ato de  escrever e usar as mãos ao executar pequenas tarefas.

A maioria da minha vida, eu  vivi na escuridão; sem diagnóstico… Só há cerca de 15 anos atrás é que tive um diagnóstico correto. Daí,  passei a entender melhor o que estava acontecendo. Saí, em parte, do escuro, mas ainda não consegui sair totalmente da escuridão porque não consigo  ainda ter o controle. O esforço sempre foi grande para entender e buscar um alívio para o sofrimento fora de controle…

Hoje, eu entendo que o que se passa dentro de mim é  “um processo caracterizado por uma neuroplasticidade excessiva do cérebro, levando a  aprendizagem da programação motora à anormalidade”, nas palavras da neurologista francesa Drª Marie-Helene Marion  no seu artigo “Mental imagery and dystonia“. Com esta definição e o diagnóstico correto  apareceram, de repente, focos de luz entre nuvens escuras… Mas, ainda, continua faltando o comando da situação: o domínio das mãos.

Na busca incansável para sair totalmente da escuridão, eu encontrei um artigo interessante que me fez sentir um pouco esperançoso. O artigo entitulado “Nouveau rebondissement sur la maladie neurologique: découverte pourrait aider les patients souffrant de dystonie, maladie de Parkinson, plus  fala de uma pesquisa desenvolvida na Universidade de Michigan – Estados Unidos que faz uma reviravolta nas descobertas desta doença neurológica no tocante a entendê-la melhor sobre a biologia básica da distonia, trilhando um novo caminho para desvendar os mistérios da doença e descobrir novos tratamentos.

Neste momento, eu fiquei excitado e motivado por uma esperança para dá, finalmente, o segundo passo: ter o controle das minhas mãos, dos meus braços para sentir o gosto de como é escrever normalmente. Ter o prazer de usá-las para executar pequenas tarefas como “acenar, usar talheres, ensaboar-se, etc.” sem incomodo e sem sofrimento.

Será uma Luz no final do túnel escuro? Será que as nuvens escuras vão começar a dissipar-se? Não sei…  Tomara que sim, pois estou farto de tantos conflitos, tantos tratamentos sem sucesso, tanta confabulação na Comunidade Distonia… e de está fora de controle.

PS.: Drª Marie-Helene Marion mora atualmente em Londres, já foi membro ativista da AMADYS e continua no ativismo pela conscientização da distonia com seu blog Infodystonia.

        Por favor, não compartilhe este artigo com pessoas que não entendem o significado disto. Este “post” foi feito exclusivamente para a Comunidade Distonia e busca conscientizar a todos sobre o projeto: “Esforço Global pela Cura da Distonia“.

Distonia – Minha companheira “Quasímodo”!

Um membro assíduo num grupo de apoio aos pacientes com distonia numa pequena cidade Alemã descreve aqui a sua vida com muito humor em relação à sua doença que é a distonia.

Ela compara a distonia a Laughton Quasímodo que é o personagem central do romance medieval “O Corcunda de Notre Dame” de autoria do poeta romântico francês Victor Hugo, publicado em 1831.

Quasímodo nasceu com uma notável deformação física: uma enorme verruga que cobre seu olho esquerdo e uma grande corcunda. De acordo com o livro, este personagem habita o campanário da Catedral de Notre-Dame, afastado da sociedade e temido pelos habitantes locais.

Na verdade, Quasímodo é um indivíduo monstruoso, é uma aberração. É bom frisar que ele não tem distonia. Mas, achei interessante a metáfora do colega que escreveu o texto abaixo. Ela faz uma relação com este personagem para falar de sua crise existencial com as posturas de um corpo com distonia.

Laughton Quasimodo

A.S. começa sua crônica com as seguintes palavras:

Antes de tudo, devemos ter uma maneira mais positiva e branda para conviver com as limitações…

Então … Vamos ver a doença de outra maneira, tá certo!

Atualmente, eu tenho um outro significado dela.

Para que você entenda logo é preciso ficar claro, antes de tudo, que:

Ela não é minha parceira e eu estou muito longe de  amá-la.

Mas eu vou tolerá-la, temporariamente.

Eu posso aceitá-la, por instantes.

Ela nunca vai me deixar, provavelmente. É extremamente leal e não tem nenhum interesse  de separar-se de mim.

A este respeito, ela  não me  fornece muita coisa boa.

Digamos, então eu tenho que me acostumar com isso…

Deve ser por que ela seja como  uma  companheira de vida grudada ao meu lado e provavelmente permanecerá para sempre. Que chato!

Um outro ponto é que ela precisa de um nome, é claro!

Minha parceira, eu  batizei de ”Quasímodo” porque ela garante que o meu corpo tenha posturas bizarras e de forma extremamente excêntrica, atípica e não natural.

Executa movimentos sem minha permissão.

Me faz sentir um vivo Quase morto…

Ninguém sabe de onde “Quasímodo” veio, mas ela já é uma Quase realidade, mesmo sendo uma quase raridade…

Também não se sabe a língua que fala.

Meu idioma, ela não fala de qualquer maneira.

Isto tem uma vantagem:  em um dia ruim com ela e sobre ela eu posso queixar-se sem que ela  entenda.

A desvantagem, no entanto, é que eu não posso argumentar com “Quasímodo”.

Não posso se comunicar. “Quasímod(a)” não é muito cooperativa e, portanto, não está interessada em aprender o meu idioma.

Assim, eu tento agora compreendê-la, Quase elegantemente, como língua estrangeira.

Uma vez que não tenho nem livros, nem  outros materiais de aprendizagem, eu faço apenas  progressos muito lentos.

Por conseguinte, levo provavelmente ainda um tempo considerável para tentar se comunicar com “Quasímodo”.

Pelo menos para mim, é tanto trabalho gasto  em vão que me faz sentir-se frustrado…

Conflitos vêm… Conflitos vão! Sinto-me só…

Será que meus esforços valerão a pena?

Finalmente,  a minha companheira de vida fiel irá provavelmente  sempre ficar comigo.

Como é importante que eu aprenda a se comunicar com ela – a distonia –  de forma  Quase perfeita.

Bem, se você tem uma inquilina com um tempo longo de vida dentro de você, ela tem direito a habitação.

Você tem que de algum modo organiza-se com ela  – mesmo se ela, como “Quasímodo”, seja cada vez mais intrusiva.

Portanto, faz sentido para o tempo ver se esta inquilina não é só irritante à vida,  mas, também, tenha algo que implica em  positividade.

Minha  “Quasímod(a)” é, de fato, em parte, uma desviante, uma incapacitante, uma Quase aberração, uma cadela tortuosa – mas ela também é uma professora.

Ela ensina a diferença entre a dor e o sofrimento.

Para entender melhor  ambos, ela abre uma perspectiva diferente sobre o mundo e a vida.

Essa é a coisa positiva da minha parceira.

Todo mundo tem que suportar seu burro (sua burra) de carga, talvez até mesmo vários…

Eu tenho outras burras de carga – além da minha  “Quasímod(a)”.

Mas, eu confesso que é, muitas vezes, desagradável ​​para mim mesmo

Afinal de contas, ela não quer perder o contato.

“Quasímod(a)” tem me causado dor, mas ela não  não me matou…

Eu repreendo e insulto   “Quasímod(a)”, mas eu ainda não a consegui eliminá-la.

Nós – eu e “quasímodo” – não podemos mesmo matar um ao outro, nós poderíamos apenas compartilhar e erradicar o que quer que seja…

Assim, nós preferimos fazer, a maior parte do tempo, uma conveniência ou ter um diálogo, mesmo que seja forçado,entendeu!

Acredito que nós – eu e minha companheira – provavelmente, nunca iremos ser amigos.

Quasimodo

A vida continua – mesmo com deficiência!   Foto de A.S.

Texto enviado pelo amigo Franz Kramer.   Tradução do alemão e adaptação:  HB – Eu mesmo.

O Lado Sombrio da Civilização

TVVivemos num mundo complexo cheio de contradições, oportunidades e embates. Estive lendo alguns textos interessantes nos últimos dias que trazem uma reflexão sobre estas questões  e sobre  nossa civilização cujas relações pessoais estão baseadas cada vez mais no individualismo, no consumismo desenfreado e numa necessidade fútil  de mostrar para o outro o poder de consumo que se tem. A seguir, destaco alguns autores que falam das consequências deste modo de vida da nossa sociedade.

Vivemos num universo cheio de pessoas ao nosso redor, porém estamos sós, preocupados somente conosco, com nossa sobrevivência, com nosso sucesso e com nossa imagem. E nesta guerra vale tudo: ignorar, escantear, pisar, ridicularizar, provocar, desrespeitar, roubar e se mostrar. O lema é: “quanto mais tenho, mais quero” Vivemos no mundo da “avareza” com preocupação com bens materiais e rótulos.

O consumismo de bens e ideias é a palavra mágica.  Estamos conectados 24 horas com o mundo. Fazemos amizades, compras e resolvemos a nossa vida, inclusive fazemos nossa feira usando a internet. O mundo está mais acessível através da globalização, da internet. Mas, por outro lado, estamos cada vez mais distantes uns dos outros. Vivemos no mundo da soberba e da cobiça desmedida conforme diz Rosemeire Zago.

Interessante é que até as mídias sociais   tem se tornado um espaço válido para as pessoas   mostrarem o seu poderio de consumo para o outro, exibindo através de fotos os seus bens e o que está consumindo no momento. Nesta “sociedade do espetáculo“, como diz o filósofo francês Guy Ernest Debord, a organização social se expressa neste tipo de dispositivo virtual  reproduzindo o  modo de vida vigente. A “imagem” passa a ser essencial nesta prática do ser para ser visto e não do ser por existir, de acordo com Orlando Senna.  Segundo o psicanalista e sociólogo Jackcson César Buonocore no artigo  A Superexposição da Felicidade, “no mundo atual, a felicidade é sinônima de consumo. Compra-se para tentar conseguir nos objetos consumidos o que é mais desejado para ser feliz e mostrar na internet.”

Esta maximização e ânsia compulsiva pelo consumismo traz implicações sérias para o ser humano e a civilização.  Neste aspecto, Leonardo Boff faz uma reflexão interessante no seu artigo “Estamos à beira da total auto-destruição?”   As consequências de tanta gente vivendo nesta lógica no mundo atual são as mais diversas: escassez das fontes de águas e de combustível, falta de alimentos e de energia… a extinção da terra.

Outro problema grave decorrente desta organização social baseada no individualismo são as chamadas relações de “liquidez” onde não se mantém por muito tempo em um mesmo estado. Tudo está sempre mudando, conforme afirma o sociólogo polonês Zygmunt Bauman. Ele afirma numa entrevista o seguinte: “Parece que o caminho para a felicidade passa, necessariamente, pelas compras. E as pessoas querem comprar os produtos e rapidamente descartá-los, substituindo por novos. Isso representa grande desperdício de recursos naturais do planeta.”  Enfim, tudo se demancha no ar, inclusive as relações sociais que passaram a ser descartáveis, também.

Um terceiro ponto que me chama atenção e gostaria de comentar é que em nome do consumismo e do poder  vale tudo, inclusive cometer delitos e crimes. Estamos cansados de ver políticos envolvidos em escândalos e “falcatruas” em nome do enriquecimento fácil e compulsivo. Estamos cansados de ver e ser vítimas de vários delitos  na nossa sociedade decorrentes da preocupação pela sobrevivência egoísta… Neste aspecto, o filósofo australiano Peter Singer afirma que  a sociedade em questão perdeu o controle de si mesma, que as pessoas não têm mais a noção exata de certo e errado e que  vivemos um enfraquecimento dos valores éticos na sociedade atual.

Uma Ideia para mudar nosso Mundo

A Corrente do Bem, filme produzido em 2000 conta a história de um jovem que crê ser possível mudar o mundo a partir da ação voluntária de cada um. A direção é de Mimi Leder e na trama o professor de Estudos Sociais Eugene Simonet estimula os alunos a pensar numa ideia para mudar nosso mundo.

O filme conhecido em Portugal como “Favores em Cadeia” é um drama atualíssimo que nos leva a pensar sobre os valores de nossa sociedade. Esta é uma produção que vale a pena assistir sempre.

An Idea to change our World

Pay It Forward is a movie produced in 2000 and it  tells about the story of a young man who believes that can change the world from the voluntary action of each one. In this film that is directed by Mimi Leder, a Social studies teacher  called Eugene Simonet gives his class an assignment: look at the world around you and fix what you don’t like. He said: “Think of an idea to change our world – and put it into ACTION!”

The film known in Portugal as ” Favores em Cadeia”  and  in Brazil as “A Corrente do Bem” is a very current drama that leads us to think about the values ​​of our societyThis is a film  that is worth watching today and always…

Heróis da Vida

“300 Spartans” – um filme muito bom que assisti e que me fez pensar sobre os jovens e a nossa sociedade dita moderna. Mas, duas coisas me chamaram a atenção mais do que tudo. A primeira delas foi a educação dos espartanos para serem guerreiros e para a vida. Os jovens eram educados para serem saudáveis e guerreiros desde pequenos. Já na nossa sociedade, os jovens são educados para quê? Na maioria, valorizam mais as “aparências”, a futilidade e muitas vezes o comodismo. Enfim, a falta de preparo para a vida…

Em Esparta, os homens eram na sua maioria soldados e foram responsáveis pelo avanço das técnicas militares, melhorando e desenvolvendo treinamentos, organização e disciplina nunca vistos até então…

Segundo os historiadores, a educação de Esparta estava orientada para a intervenção na guerra e a manutenção da segurança da cidade, sendo particularmente valorizada a preparação física que visava fazer dos jovens bons soldados e incutir um sentimento patriótico. A educação das mulheres consistia também na prática do exercício físico ao ar livre. Da mesma forma como os homens, também iam para o exército quando completavam sete anos de idade para serem educadas e treinadas para a guerra.

Na verdade era uma educação muito rigorosa tanto para os homens quanto para as mulheres, mas o que me chama a atenção é a dedicação num foco e a determinação. A preparação física e psicológica desde a infância que os tornavam homens e mulheres fortes física e mentalmente. Um preparo físico e psicológico que podemos ver no filme através de características como resiliência, determinação e força. Aprendiam a não desistir fácil dos objetivos e a enfrentar as maiores adversidades da vida. Hoje, parece que nossos jovens tem vergonha de ajudar, desistem facilmente diante de qualquer obstáculo, são fracos e não tem o espírito de equipe.

A segunda questão que me chamou a atenção é a capacidade de liderança de Temístocles no 2º filme “300: A Ascensão do Império”, diferentemente de Leônidas, que mostra características de um líder mais moderno que sabe aproveitar momentos cruciais, se utiliza de planos, estratégias e sabedoria. Em meio ao caos, ele não desiste e ver uma oportunidade. Na nossa cultura não temos verdadeiros líderes e nem heróis, temos pessoas que gostam de poder e de assumir posições…

É uma cultura do improviso e do imediatismo.  Na nossa sociedade predomina o individualismo, a falta de trabalho em equipe e de planejamento e a escassez de verdadeiros heróis e líderes. Podemos ver no primeiro filme que Leônidas adota a ética e o critério técnico nas suas escolhas quando não aceita um senhor no seu pelotão por ele ter deformidades físicas e não se enquadrar nas normas e estratégias de batalha. Esta postura é escassa na administração pública da atualidade…

Os dois filmes são realmente geniais e nos levam a pensar intrinsecamente sobre estas questões cruciais da nossa vida: a nossa educação e nossa capacidade para enfrentar as adversidades da vida; nossos valores e a capacidade para liderar.